Religião

06/08/2020 | domtotal.com

Papa escreve ao governador de Hiroxima e Igreja reage contra armamento atômico

Movimentos cristãos alertam para o perigo das 16 mil ogivas nucleares existentes

Papa Francisco participa de uma reunião pela paz no Parque Memorial de Hiroshima em 24 de novembro de 2019
Papa Francisco participa de uma reunião pela paz no Parque Memorial de Hiroshima em 24 de novembro de 2019 (Takayuki Hamai/The Yomiuri Shimbun/AFP)

As cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki assinalam nesta quinta-feira (6) e domingo (9), respetivamente, os 75 anos dos bombardeamentos atômicos durante a II Guerra Mundial, um drama que o papa tem recordado para pedir o fim das armas nucleares.

Francisco enviou uma mensagem às pessoas que hoje recordaram as milhares de vítimas da primeira bomba atômica, saudando em particular os sobreviventes do hibakusha, termo japonês que se refere aos que sobreviveram à explosão.

"Tive o privilégio de poder ir pessoalmente às cidades de Hiroshima e Nagasaki", escreve o pontífice na mensagem enviada ao governador da província de Hiroshima, Hidehiko Yuzaki.

"Para que a paz floresça, todos devem depor as suas armas, sobretudo as mais poderosas e destruidoras, como as armas nucleares, que podem paralisar e destruir cidades, países inteiros".

O papa repete o que disse no Memorial da Paz de Hiroshima, a 24 de novembro de 2019: "O uso da energia atômica para fins bélicos é imoral, assim como também a posse de armas nucleares é imoral. Que as vozes proféticas dos sobreviventes de Hiroxima e Nagasáqui continuem a servir de aviso, para nós e para as gerações futuras".


Estima-se que 140 mil pessoas tenham morrido no primeiro ataque atômico, contra Hiroshima, a 6 de agosto, em 1945; três dias depois, os norte-americanos levaram a cabo um segundo bombardeamento, em Nagasaki, que causou mais de 70 mil mortos.

Milhares de pessoas viriam a sofre as consequências da radiação, até à atualidade.

Francisco visitou as duas cidades japonesas em novembro de 2019 e dedicou a sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2020 ao desarmamento nuclear.

"É imoral não somente o uso, mas também a posse de armas nucleares", defende o pontífice.

O papa fala num perigo de "aniquilação" nuclear da humanidade, preocupação assumida, em Portugal, pela Comissão Nacional Justiça e Paz.

"A segurança que possa decorrer da dissuasão nuclear, do chamado 'equilíbrio do terror' (assente no medo que decorre do perigo e ameaça de uma aniquilação total e recíproca) será sempre ilusória", advertiu o organismo da Igreja Católica, apontando à "abolição total da posse de armas nucleares".

Já no encontro anual com os diplomatas acreditados junto da Santa Sé, no último mês de janeiro, o papa defendeu "um mundo sem armas nucleares", recordando o seu encontro com sobreviventes aos bombardeamentos atômicos de Hiroshima e Nagasaki, no Japão.

A 24 de novembro de 2019, o papa visitou o Memorial da Paz de Hiroshima, no local onde explodiu a primeira bomba atômica, falando num momento que “marcou para sempre” a história da humanidade.

"Desejo reiterar, com convicção, que o uso da energia atômica para fins de guerra é, hoje mais do que nunca, um crime não só contra o homem e a sua dignidade, mas também contra toda a possibilidade de futuro na nossa casa comum. O uso da energia atômica para fins de guerra é imoral, da mesma forma que é imoral a posse de armas atômicas, como disse há dois anos. Seremos julgados por isso", denunciou.

Igreja se mobiliza

O Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) assinala os 75 anos dos bombardeamentos atômicos de Hiroshima e Nagasaki e reafirma a necessidade e urgência de pôr fim às armas nucleares, apelando à assinatura e ratificação do Tratado de Proibição das Armas Nucleares.

A Obra Católica Portuguesa de Migrações associa-se à iniciativa, recordando que a Santa Sé assinou e ratificou o Tratado em 2017. As instituições apelam à assinatura de uma petição com este objetivo, em https://tinyurl.com/fimarmasnucleares

Já os bispos dos Estados Unidos da América se unem em oração ao povo japonês para recordar as vítimas e "pelas gerações que continuaram a pagar as consequências sanitárias e ambientais desses trágicos ataques".

"Unimo-nos à voz do papa Francisco e ao seu apelo aos nossos líderes, para que perseverem nos esforços para abolir essas armas de destruição em massa, que ameaçam a existência da humanidade no nosso planeta", escreve presidente da Conferência Episcopal (USCCB), dom José H. Gomez.


A Comissão Justiça e Paz dos EUA convocou para 9 de agosto um dia nacional especial de oração, estudo e ação pelo desarmamento nuclear. O site da USCCB disponibilizou vários subsídios e material informativo para uma jornada que se integra nos 10 dias de oração pela paz, celebrados todos os anos pela Igreja Católica no Japão, entre 6 e 15 de agosto.

O presidente da Conferência Episcopal nipônica, dom José Mitsuaki Takami, bispo da Nagasaki, disse numa entrevista à agência norte-americana Catholic News Service que, tal como o papa Francisco, entende que a humanidade "não aprendeu nada com a tragédia" de 1945.

Na Alemanha, a Comissão Episcopal Justiça e Paz (Igreja Católica) e o Conselho das Igrejas Evangélicas sublinham que "a guerra nuclear e o uso, como dissuasão, de armas semelhantes não são fantasmas do passado".

Os responsáveis cristãos sublinham que "ainda existem 16 mil ogivas nucleares", as quais estão adquirindo "uma importância estratégica cada vez maior".

O movimento Pax Christi Internacional escreveu aos bispos e conferências episcopais, pedindo ações nacionais e regionais para a abolição das armas nucleares, bem como iniciativas de educação nas paróquias, escolas e comunidades sobre o perigo e os custos deste armamento.


Ecclesia



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