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07/08/2020 | domtotal.com

Bukowski, um cara safado

Um pássaro azul dentro de um peito amargurado

Quem diria, seu Bukowski! Puxa! Então você tinha um belo pássaro azul escondido no peito?
Quem diria, seu Bukowski! Puxa! Então você tinha um belo pássaro azul escondido no peito? (Ulf Andersen / Aurimages via AFP)

Fernando Fabbrini*

Alcoólatra, escandaloso, pornográfico, Charles Bukowski fazia jus ao título de dirty old man, ou "velho sem vergonha" - epíteto que deu origem a um de seus livros mais conhecidos, o Notas de um velho safado.

Alguns de minha geração encararam, digamos assim, um rito de passagem inadiável: ler pelo menos uma das obras de Bukowski. Para nós, era feito uma vacina. Experimentar Bukowski, não se abater com o baixo astral daquelas linhas e seguir em frente criava certa imunidade. Charles Bukowski inoculava em nosso organismo uma amostra terrível de seu amargor e de seu desencanto; um vírus atenuado para alertar-nos que viver intensamente, my brother, não era mole.

Jean Paul Sartre, num arroubo exagerado, chamou-o de "o maior poeta norte-americano". Devia estar chapado de Pernod na ocasião, pois esqueceu-se de Melville, Thoreau, Edgar Allan Poe, Ralph W. Emerson, Walt Whitman, Ezra Pound, Elizabeth Bishop e Robert Frost, por exemplo. Mas Bukowski foi muito bom, claro, no seu tempo, um dos melhores. Marcou a ferro quente a geração on the road e a juventude dos anos 1970.

Solitário, grosseiro e violento, Bukowski escreveu sobre a vida, a morte, o amor, o sexo, as mulheres, os vícios, o dinheiro, a hipocrisia da sociedade. Não perdoou ninguém e nem a si mesmo. Considerando a vida louca que teve, até que durou bastante: morreu aos 73 anos. Irônico, mandou esculpir em sua lápide a frase enigmática: "Não tente". Mesmo assim, emburrado, a cara feia e marcada por uma antiga doença, cigarro pendurado na boca, o velho Charles nos deu muito o que pensar.

Um dos poemas mais inusitados de Bukowski, Bluebird, foi escrito em 1992, pouco antes de sua morte. Os fãs de seu estilo cáustico e agressivo estranharam: o que estava acontecendo com o velho rebelde? Por acaso antevia o fim da estrada e queria revelar sua verdadeira alma, suave e romântica?

"Há um pássaro azul no meu peito que quer sair / mas eu sou duro demais pra ele / Eu digo, fica quieto aí, não vou deixar ninguém te ver / Há um pássaro azul no meu peito que quer sair / mas eu meto uísque nele e dou um trago no meu cigarro (...) Eu sou esperto demais, só o deixo sair à noite, enquanto todo mundo está dormindo (...) Não o deixei realmente morrer e dormimos juntos / assim no nosso pacto secreto /e isso é o bastante pra fazer um homem chorar/ Mas eu não choro, você chora?"

Quem diria, seu Bukowski! Puxa! Então você tinha um belo pássaro azul escondido no peito? Isso não soaria um pouco piegas para sua turma de bar, aqueles bêbados sem-vergonhas, brigados com o mundo e falando sacanagens o tempo todo? Se soubessem disso, ririam muito de sua cara, dizendo fucking bird, damn fucking bird!

Brincadeiras à parte, acho que o pássaro de Bukowski é uma metáfora geral, romântica e definitiva. Todos nós temos uma ave dessas bem oculta, variando talvez no tamanho, na forma, na cor e, sobretudo, no grau de condenação ao cativeiro. Quando e onde deixá-la voar... Aí é que está.

Se Bukowski reprimia seu pássaro azul com álcool e cigarros, há humanos que escravizam os seus nas grades da arrogância, da soberba, da ostentação, da falsidade e outros artifícios letais. O fato é que o velho safado viveu preso numa gaiola imaginária. Lá dentro existia um coração romântico, sensível e machucado.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal 'O Tempo



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