Religião

07/08/2020 | domtotal.com

Vale a pena ser padre em nosso tempo?

O presbítero é ordenado para a comunidade, não para a realização pessoal de um sonho de vestir alfaias

O presbítero é aquele que, aderindo ao convite eclesial, coloca-se no caminho do serviço ao povo
O presbítero é aquele que, aderindo ao convite eclesial, coloca-se no caminho do serviço ao povo Foto (Unsplash/Mateus Campos Felipe)

César Thiago do Carmo Alves*

"Filho, você está crescendo e continua a dizer que quer ser padre, mas você sabe de verdade o que significa ser padre? Você sabia que para uma pessoa ser padre ela não pode ser egoísta, não pode pensar só em si mesma? Ser padre e ser egoísta é impossível, são duas coisas que não combinam. Os padres acreditam que quando celebram a eucaristia é o próprio Cristo que está presente. Você já pensou nas qualidades que devem ter as mãos que tocam diretamente o Cristo?". Helder, então, responde: "Pai, é um padre como o senhor está dizendo que eu quero ser".

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O diálogo entre dom Helder Câmara e seu pai é inspirador. A consciência prática de seu genitor em relação ao ministério ordenado provoca uma profunda e verdadeira reflexão. Padre e egoísmo são realidades que não combinam. São opostas. O presbítero é aquele que, aderindo ao convite eclesial, coloca-se no caminho do serviço ao povo. Em tempos líquidos, surge uma pergunta: vale a pena assumir o ministério ordenado? A resposta para essa pergunta precisa levar em consideração alguns aspectos.

O primeiro diz respeito a uma decisão de se colocar na escola do Evangelho. De deixar-se ser guiado pela ação do Espírito Santo, no intuito de levar a cabo o trabalho pastoral sob o testemunho do Cristo Pastor.

O segundo se refere à concepção de ministério ordenado. No primeiro milênio a concepção era pnumatológico-eclesial. Isso significava que, por meio da imposição das mãos com a prece de ordenação, portanto gesto sacramental, o candidato era ordenado para uma comunidade local concreta. Nota-se uma ligação muito clara entre ordenação e comunidade. É a partir da sua função de presidir a comunidade que decorrem as funções do ministro. Nesse sentido, a Igreja é anterior ao ministério. O presbítero está nela para cumprir uma função ministerial. Porém, desde o fim do século 12 e início do século 13 a concepção na Igreja latina mudou de paradigma. A imposição das mãos não estará mais vinculada com o contexto da Igreja local. A ideia aqui consiste em que basta se respeitar a matéria e forma para que a ordenação seja válida. O ministério torna-se uma questão privada. A concepção é cristológico-individualista. Cristo faz o ministro e por isso ele deverá servir a Igreja. Assim, nota-se que nessa perspectiva o ministério é anterior à Igreja. O Concílio Vaticano II (1962-1965) buscou uma síntese entre ambas perspectivas.  É preciso ter consciência disso.

O terceiro aspecto é a experiência da vida eclesial. A experiência feita em comunidade de Deus e da fraternidade/sororidade é capaz de colocar sentido a um serviço ministerial na própria Igreja.

O quarto aspecto é a opção pelos pobres. "Você sabe de verdade o que significa ser padre?". Não se torna ministro ordenado para si. O ministério não é fruto do meu fetiche para usar os paramentos e pensar ser estrela com um auditório dominical e semanal que verá o desfile das mais novas tendências da alta costura eclesiástica. Se os pobres são os tesouros da Igreja, como dizia São Lourenço, uma vez que foram destinatários de uma atenção particular de Jesus, então o serviço do ministro ordenado na comunidade deve dirigir-se de forma preferencial a eles.

Assumir o ministério ordenado, tendo a consciência das implicações dessa função, é algo que vale a pena. É se colocar no horizonte do que está referenciado em 1 Pd 5,2 em que o presbítero é chamado a apascentar o rebanho de Deus a ele confiado. Isso o faz cuidando não por coação, mas de livre vontade, segundo o querer de Deus. Não apascenta por torpe ganância, mas por devoção. Tampouco guia como senhores da comunidade, mas como testemunhas do Supremo Pastor.

A beleza do ministério ordenado numa Igreja ministerial possui desafios. Um deles consiste na formação dos futuros presbíteros. Vê-se uma tendência cada vez mais forte de uma aderência a perspectiva cristológico-individualista. O ministério é visto como uma realização de um sonho pessoal. Urge formar presbíteros que estejam dispostos a se impregnarem com o "cheiro das ovelhas" (papa Francisco). Outro desafio é a urgente necessidade da conversão presbiteral. Infelizmente, existem presbíteros que agem como se fossem verdadeiros senhores feudais em suas paróquias ou trabalhos a eles confiados pela diocese, ordem ou congregação. O povo, pouco importa. Ou ainda, a dificuldade, por vezes, tida pelo episcopado em encontrar padres que estejam dispostos a trabalhar nas periferias. 

Por outro lado podemos ver presbíteros que são testemunhas do discipulado de Jesus. Nesse tempo de pandemia não tem como deixar de recordar do padre Júlio Lancelotti em seu trabalho na Arquidiocese de São Paulo com as pessoas em situação de rua. Ver Júlio é dizer que sim, vale a pena ser padre.  O testemunho do pároco da paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, em São Paulo, inspira um plágio da reposta de dom Helder ao seu pai: É como um padre assim que eu quero ser.

Enfim, padre e egoísmo não combinam.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo Ista e Teologia pela Faje. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da Faje.



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