Cultura

07/08/2020 | domtotal.com

Tempos melancólicos e o 'bom Pastor'

O bom pastor dá a vida enquanto o mercenário só quer tirar proveito das ovelhas

Quarto de dom Pedro Casaldáliga em seu 'palácio episcopal'
Quarto de dom Pedro Casaldáliga em seu 'palácio episcopal' Foto (Wilson Dias/Agência Brasil)

Eleonora Santa Rosa*

Seria o artigo de hoje dedicado à continuidade do Catálogo das ideias convencionais, apêndice da edição de Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, não deu. Faltou humor, faltou disposição. Semana de tristeza sem fim. Náuseas ao assistir as notícias dos dossiês de perseguição a intelectuais, professores, funcionários públicos; da execrável prática de rachadinhas e seus abjetos protagonistas; do desembargador fanfarrão que rasga multas e humilha o guarda de rua, brandindo seu nome e sobrenome em prática contumaz de usurpação. Semana que termina com a trágica explosão em Beirute e o recorde sinistro de quase 100 mil brasileiros mortos pela Covid, além da manifestação do pútrido Salles em indecente defesa da redução de metas ambientais em prol do aumento de seus capitais. Semana de desfile de intoleráveis e indecorosos compadrios masculinos de proteção ao capitão da normose.

Milhares de vidas ceifadas na ciranda macabra da pandemia que teima em subsistir e ainda tardará. Tristes trópicos abandonados à sorte do azar da escolha de muitos, que ainda não conseguem reconhecer a dimensão do estrago causado pelo voto sufragado. Dias de despedida, de soluços e lamentos pela morte de Aritana, pela internação de Raoni e de dom Pedro Casaldáliga, aos 92 anos, bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT), defensor da reforma agrária e dos povos indígenas, extraordinário baluarte da luta pelos direitos dos mais necessitados, de quem sempre fui admiradora por sua integridade e destemor. Exemplo raro para um país, hoje à deriva ética e moral, nas mãos de gente que não merece esta designação.

Minha homenagem e preces de recuperação àquele que adotou como lema de seu serviço pastoral: "nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar"; padre dedicado ao povo, que ordenado bispo, há mais de duas décadas, tomou a decisão de não usar mitra e nem báculo, como sinal de sua opção pelos pobres, pela defesa das nações indígenas e por seu compromisso com os campesinos e sem-terra. Escreveu, dom Pedro, em seus diários: "tua mitra será um chapéu de palha sertanejo; o sol e o luar; a chuva e o sereno; o olhar dos pobres com quem caminhas e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor. Teu báculo será a verdade do Evangelho e a confiança do teu povo em ti. Teu anel será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador e ao povo desta terra. Não terás outro escudo senão a força da Esperança e a Liberdade dos filhos de Deus, nem usarás outra luva que o serviço do Amor”.

À benção, dom Pedro, salve sua imensa bondade e espírito misericordioso, e que esse momento delicado de sua saúde seja passageiro e que as palavras do Salmo 23 (O Bom Pastor)[1] possam lhe trazer o conforto merecido:

Iahweh é meu pastor, nada me falta.
Em verdes pastagens me faz repousar.

Para as águas tranquilas me conduz
      e restaura minhas forças;
ele me guia por caminhos justos,
       por causa do seu nome.

Ainda que eu caminhe por vale tenebroso
nenhum mal temerei, pois estás junto a mim.
teu bastão e teu cajado me deixam tranquilo. 

Diante de mim preparas a mesa,
      à frente dos meus opressores;
unges minha cabeça com óleo,
      e minha taça transborda.

Sim, felicidade e amor me seguirão
        todos os dias da minha vida;
minha morada é a casa de Iahweh
        por dias sem fim.


[1] Salmo 23 – extraído da Bíblia de Jerusalém – Paulus Editora (Edições Paulina) – 2002.

*Eleonora Santa Rosa – É jornalista e gestora cultural, foi secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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