Mundo

07/08/2020 | domtotal.com

Diante de críticas, presidente libanês cogita hipótese de míssil ter provocado explosão

Ajuda internacional começa a chegar a Beirute, onde população teme falta de comida

Funcionários de padaria trabalham fabricação de pão: falta de trigo pode provocar fome
Funcionários de padaria trabalham fabricação de pão: falta de trigo pode provocar fome (Joseph Eid/AFP)

O presidente libanês Michel Aoun disse que a terrível explosão no porto de Beirute, que deixou mais de 150 mortos, foi causada "por negligência" ou "intervenção externa", citando a hipótese de "um míssil". "É possível que tenha sido causado por negligência ou por uma ação externa, com um míssil ou bomba", declarou o chefe de Estado, três dias após a catástrofe. Esta é a primeira vez que uma autoridade libanesa menciona uma pista externa para a explosão. O governo afirmou nos últimos dias que a tragédia foi provocada por um incêndio em um enorme depósito de nitrato de amônia.

O chefe de Estado, de 85 anos, disse ter solicitado na quinta-feira ao presidente francês, Emmanuel Macron, a quem recebeu no palácio presidencial, o "fornecimento de imagens áreas para que possamos determinar se havia aviões no espaço [aéreo] ou mísseis" no momento da explosão de terça-feira. "Caso os franceses não tenham estas imagens, vamos pedir a outros países", completou Aoun, duramente criticado pela população, que critica a incompetência das autoridades e a corrupção.

As causas do acidente ainda são desconhecidas. A origem da primeira explosão é um mistério - há relatos de que o estopim foi o estouro de fogos de artifício em um armazém, mas a imprensa local disse que o primeiro incêndio pode ter sido causado por trabalhos de soldagem de estruturas. A explosão que provocou a devastadora onda de choque em Beirute foi resultado da combustão de 2.750 toneladas de nitrato de amônia que estavam estocados de maneira imprópria havia seis anos em um armazém portuário.

A calamidade agravou a crise financeira e política, com inflação crescente e desemprego generalizado. Acusada de negligência, a classe política do país virou alvo da fúria da população. Michel Aoun também afirmou que é necessário revisar um regime político paralisado. "Enfrentamos uma revisão de nosso sistema baseado no consenso porque está paralisado e não permite tomar decisões que possam ser aplicadas rapidamente: devem ser obtidas por consenso e passar por várias autoridades", disse.

Ayham Kamel e Mujtaba Rahman, analistas do grupo de risco político Eurasia Group, afirmaram em artigo que "a França está pronta para pressionar por um grande pacote de ajuda da UE, possivelmente do Banco Europeu de Desenvolvimento. Mas terá de haver condições muito rigorosas para determinar como o dinheiro será gasto, provavelmente sob supervisão internacional". Apesar de a ajuda internacional começar a chegar, a população teme a fome e demanda reformas políticas.

"As condições econômicas se tornarão mais agudas e a necessidade de ajuda externa será ainda mais vital", disseram eles. De acordo com Rahman e Kamel, o maior desafio a ser superado pela comunidade internacional é que "os partidos políticos libaneses não estão interessados em reformas profundas e não estão convencidos de que ela traria um apoio financeiro internacional significativo".

Após a tragédia, o maior desafio para os habitantes de Beirute é acomodar os cerca de 300 mil desabrigados - a explosão dizimou um pedaço do centro da cidade. Além disto, O porto era um centro crucial, com 60% das importações do país fluindo por ele, em uma cidade que é o motor econômico do Líbano. As operações portuárias agora estão paralisadas e o suprimento de grãos foi destruído, aumentando as preocupações sobre a segurança alimentar dos 6,8 milhões de libaneses.

Medo da fome

A destruição do porto da capital libanesa limitou ainda mais o acesso à comida em um país que importa 85% de seus alimentos. Quase 15 mil toneladas de trigo, milho e cevada armazenadas em silos antiquados, de mais de 50 anos, foram destruídos na gigantesca explosão, assim como uma fábrica de farinha que ficava ao lado.

O trigo é necessário para a produção de pão, um alimento imprescindível na dieta libanesa e que atualmente é vendido com preço subsidiado de 2.000 libras libanesas (R$ 7,70) o pacote de 900 gramas. "Quando vimos os silos, entramos em pânico", admite Ghasan Bu Habib, presidente da rede de padarias Wooden Bakery.

Os libaneses temem que a destruição dos silos, com capacidade para armazenar 120 mil toneladas, acentue a escassez de trigo no Líbano, que já era grave pela profunda crise econômica no país. As importações foram reduzidas nos últimos meses pela falta de liquidez e as restrições bancárias.

Após a explosão, o medo tomou conta dos habitantes de Beirute e centenas de pessoas correram para uma padaria no bairro comercial de Hamra, onde compraram cinco pães ao invés de apenas um pelo temor de uma eventual escassez, afirma Haidar Mussaui, funcionário do estabelecimento. "O pão é a única coisa que pode saciar os pobres, já que não podemos sentar para comer um bife com faca e garfo", lamenta.

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) também afirmou que teme "a curto prazo um problema de abastecimento de farinha". "Já enfrentamos a Covid-19 e a crise econômica, agora esta catástrofe", lamenta Suha Zeaiter, diretora executiva do banco de alimentos libanês que organiza programas de distribuição de alimentos para as famílias pobres.

Ajuda brasileira

A Embaixada do Líbano no Brasil, que esteve à frente de ações pedindo doações de suprimentos médicos e equipamentos no enfrentamento à Covid-19, agora solicita ajuda para o atendimento às vítimas da explosão e para a reconstrução da área atingida. No comunicado que está no site constam: suprimentos cirúrgicos e hospitalares, itens alimentícios (tais como trigo, farinha, grãos e comidas enlatadas de todos os tipos), materiais de construção e instalações e equipamentos necessários para reconstruir e equipar o porto de Beirute.

Junto com a iniciativa da embaixada, pelo menos três entidades decidiram se unir em uma campanha para arrecadar recursos financeiros, que serão usados para adquirir itens necessários, que, posteriormente, serão enviados ao Líbano. A Associação Médica Líbano Brasileira (AMLB) divulgou uma conta bancária. "Estamos em contato também com diversas entidades, entre elas a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB) e a Câmara de Comércio Brasil-Líbano (CCBL). Conversando para saber como será feita toda a logística. Muitas lideranças libanesas e entidades hospitalares também demonstraram interesse em nos ajudar", afirma Robert Sami Nemer, presidente da AMLB.


Agência Estado/AFP/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!