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08/08/2020 | domtotal.com

'Há comida no Líbano, mas preços estão altos', afirma representante da ONU

País sofre com crise econômica desde a revolução de outubro de 2019

'Cerca de 50% da população, de alguma maneira, está em algum nível de insegurança alimentar', afirma Maurice Saade
'Cerca de 50% da população, de alguma maneira, está em algum nível de insegurança alimentar', afirma Maurice Saade (Ibrahim Chalhoub/AFP)

Um a cada dois habitantes do Líbano enfrenta algum grau de insegurança alimentar, afirmou Maurice Saade, representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) no país. A dificuldade de se adquirir ou consumir alimentos suficientes impactava 30% da população de 6 milhões de habitantes em setembro do ano passado, mas piorou severamente desde então. 

"O poder de compra colapsou, especialmente para a classe média, os pobres e os muito pobres. Tivemos ao mesmo tempo preços subindo e salários caindo", disse Saade, que se emocionou em alguns momentos da conversa. 

O Líbano já atravessava uma crise econômica antes dessas explosões. Como era o panorama?

Desde a revolução de outubro de 2019, a crise econômica já estava afetando muito o país, com o problema financeiro de controle de capitais e as pessoas não podendo sacar seu dinheiro nos bancos. Com a rápida desvalorização da libra libanesa e a escassez de dólares, a situação foi se deteriorando. 

Como a segurança alimentar foi afetada nesse processo?

São dois aspectos. O Líbano importa cerca de 80% do que consome – e as importações são cotadas em dólar. Então, toda vez que há uma desvalorização da libra libanesa, os preços da comida sobem quase que automaticamente. Desde o ano passado, os preços subiram quase 200% para a maior parte dos alimentos. Ao mesmo tempo, a crise econômica resultou em demissões em massa, pessoas tendo seus salários cortados pela metade ou até mais. A taxa de pessoas na pobreza passou de 30% no fim de 2019 para uma estimativa atual de 50%. 

Quais as consequências dessa crise para o libanês?

O poder de compra colapsou, especialmente para a classe média, os pobres e os muito pobres. Tivemos ao mesmo tempo preços subindo e salários caindo. E temos de comprar comida em preços internacionais. Então, cerca de 50% da população, de alguma maneira, está em algum nível de insegurança alimentar. A comida está disponível, talvez não tudo, mas a questão é que as pessoas não conseguem comprar. Os preços estão muito altos. 

Como o senhor avalia o cenário após a tragédia no porto?

Existem preocupações de que poderia faltar trigo ou farinha no país. Mas, felizmente, o silo destruído na explosão estava praticamente vazio. Tinha cerca de 15 mil toneladas lá e a capacidade era de 120 mil toneladas. Hoje, temos para o consumo de um mês. E há ainda quatro navios que estão em território libanês ou muito próximos que vão descarregar mais cargas. 

Eles vão para o porto de Trípoli, no norte. Com mais esses navios, podemos ter outro mês de oferta. Tem a questão de logística, pois esse porto não é usado para isso, não tem silo lá, mas há armazéns próximos. Então, há preocupação de que possa faltar, mas o país deve ter ainda por cerca de dois a três meses para evitar uma disrupção. E os traders também vão pedir novos embarques de países como Rússia e Ucrânia, que não estão tão longe e podem chegar em poucas semanas. Se a logística funcionar bem no porto de Trípoli, não teremos deterioração da segurança alimentar. 

Como a comunidade internacional e os libaneses no exterior podem ajudar o país?

O Líbano depende fortemente das remessas da comunidade de imigrantes no exterior, seja os da América Latina, onde o Brasil tem o maior número, ou também aqueles trabalhando no Golfo Árabe. Cerca de um terço do PIB do Líbano depende dessas remessas. Eu pediria que, nesse momento, as comunidades libanesas enviassem recursos para as famílias e comprassem produtos libaneses. É a melhor forma de apoiar e permitir que os produtores libaneses sobrevivam.

Muitos analistas dizem que a situação no país se deteriorou por causa da corrupção endêmica. O senhor vê dessa forma?

Vou falar em termos gerais. Houve décadas de críticas da corrupção generalizada entre os políticos. As divisões sectárias o clientelismo, isso é sabido e todos falam disso. A revolução que começou em outubro do ano passado foi uma expressão da frustração. Mas é tão sistêmico que uma mudança vai ser difícil. Espero que esse incidente e essa revolta pública, que hoje é extremamente forte, possam trazer mudanças, especialmente num momento em que o país está colapsando. Temos uma crise econômica a pandemia e agora essas explosões. Essa combinação pode forçar uma mudança.


Agência Estado



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