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08/08/2020 | domtotal.com

Moçambique pelos olhos de Borges Coelho

Editora Kapulana lança dois livros do escritor inédito no Brasil

O moçambicano João Paulo Borges Coelho explora diversos recursos narrativos
O moçambicano João Paulo Borges Coelho explora diversos recursos narrativos (Arquivo Pessoal)

Faustino Rodrigues*

A Editora Kapulana publicou duas obras de um dos maiores escritores do continente africano na atualidade. Crônica da rua 513.2 e As visitas do dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho, eram inéditos no Brasil. Vencedor de prêmios como o Craveirinha, Leya e BCI de literatura, o autor ainda é pouco conhecido em nosso país. O escritor de Moçambique compõe agora um time de autores publicados pelo selo Vozes da África que já conta Pepetela, Binyavanga Wainaina, José Luandino Vieira, Aldino Muianga, entre outros.

Em seus livros, Borges Coelho revela uma grande versatilidade na escrita ao conseguir articular uma fina ironia com crítica social, suspense e drama, apropriando-se simultaneamente de elementos presentes no imaginário da cultura moçambicana, aliando tudo isso a um rico conhecimento da história do país, sobretudo o período de transformação revolucionária da década de 1970, quando de sua independência em relação a Portugal. Para tanto, mobiliza personagens comuns da sociedade de Moçambique, como um profissional que trabalha em uma empresa fabricante de cervejas, uma vendedora ambulante, integrantes do quadro executivo da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, partido da revolução socialista), aristocracia agrária decadente, criados de latifundiários com sua estreita relação de dominação e obediência e por aí vai.

As visitas do dr. Valdez e Crônica da rua 513.2 são dois livros completamente diferentes. A despeito disso, encontramos elementos marcantes que definem o estilo narrativo de Borges Coelho. O primeiro norteia a trajetória de duas irmãs, idosas, descendentes de antigos proprietários de terra que, por conta das transformações políticas de 1975, ano de independência de Moçambique, se veem ameaçadas no interior, onde vivem. Abandonam sua propriedade, porém, não os hábitos. Consigo, levam o jovem criado, filho de outro trabalhador que durante toda a vida prestou serviços para a família latifundiária, tratado ora como funcionário, ora escravo.

Através das duas irmãs, Sá Amélia e Sá Caetana, Borges Coelho transita pela dificuldade de a oligarquia, agora introduzida em uma cidade maior, portuária, mais moderna, como Beira, ter de se adaptar à vida do século 20. O dilema, presente ao longo do livro, está na capacidade de manter antigos hábitos tradicionais no ambiente urbano, denotado principalmente pela dominação sobre o criado Vicente tensionada pela relação patrão/empregado e senhor/escravo. A exigência do servir é vital para as duas personagens, em vista do diferente, do moderno.

Quando Sá Amélia, a patroinha, nos dizeres de Vicente, encontra-se "muito adoentada", Sá Caetana lhe promete uma visita do antigo e já falecido médico do lugarejo em que viviam, o Ibo. Assim, o criado se fantasia de dr. Valdez e, inesperadamente, conta com a crença da convalescente. O grande desenlace da trama se dá pelo jogo proporcionado por Borges Coelho entre o ser criado e ser patrão, qual seja, entre o pertencimento a duas categorias sociais simultaneamente. Isso porque Vicente, transmutando em dr. Valdez, pode assumir livremente, nas conversar com Sá Amélia, características de uma classe social à qual não pertence.

A tudo isso, deve ser levado em conta o aspecto da nova vida enfrentada pelo próprio Vicente. Na Beira, depara-se com uma organização diferenciada e novos amigos, evocando o contato do rural com o urbano, do tradicional com o moderno. Coloca-se em um ambiente distinto, andando de carro, ônibus, frequentando bares e, inevitavelmente, aproximando-se daquela parte de uma sociedade subdesenvolvida em vias da anunciada modernização a se aglomerar nos grandes centros, como prostitutas, malandros etc. Ali, a sua eterna obediência aos patrões, feita ao pai, também criado da família, não tem lugar, exigindo um redimensionamento da perspectiva de Vicente em relação ao outro. O "poder ser algo diferente" adquire enorme preponderância.

Crônica da rua 513.2 recolhe diversas histórias de moradores, vizinhos, de uma mesma rua, com o misterioso nome indicado no título. Podemos considerar um projeto como esse ousado, na medida em que insinua a existência de diversos pontos para o foco na narrativa. Isso porque cada personagem, com sua família, sua trajetória, pode exigir um posicionamento diferente do autor. Para tanto, é necessário um equilíbrio na capacidade da escrita, de modo que o leitor não fique com a atenção dispersa no desenrolar da trama e suas diversas idas e vindas.

O cenário também é o da revolução moçambicana da década de 1970, quando o presidente do país, Samora Machel, assume o poder. Nesse caso, podemos destacar dois pontos para um olhar mais acurado do trabalho de Borges Coelho. O primeiro refere-se à capacidade de manipulação de ambientes micro e macro. Ao centrar a narrativa em pessoas comuns, traz, igualmente, coisas comuns. O equilíbrio encontra-se na solidariedade existente entre os indivíduos, moradores da rua 513.2. O decadente executivo do comércio de exportação de laranjas, sem deixar o seu status de grande comerciante, lida de maneira comum com o pequeno comerciante - que acaba se tornando vendedor de laranjas após a sua falência com artigos de aviamento. A ambulante vendedora da iguaria moçambicana, toca o integrante do quadro da Frelimo, chefe revolucionário local.

Um dos pontos mais curiosos do livro se dá quando os moradores da rua têm de conviver, em suas casas, com espíritos de habitantes anteriores. Tais espíritos interferem diretamente em suas vidas, com opiniões, sugestões, críticas, que nunca extrapolam a realidade ali descrita. Isso porque, para toda a vizinhança, nada disso é estranho. O morador de uma casa sabe da existência do espírito na casa ao lado, embora não o veja. Acreditar na palavra do atual habitante, em grande medida, é o dado da confiança, inevitavelmente presente na solidariedade mobilizada.

O segundo aspecto a merecer destaque é a manipulação feita pelo autor entre o micro e o macro. Borges Coelho transforma a Rua 513.2 em um microcosmos da sociedade moçambicana. Portanto, os dilemas dos personagens, suas inquietações, bem como esperanças, expectativas, contam como uma forma de compreender a maneira como o moçambicano mediano admite algumas das transformações daquele momento.

É visível o esforço de muitos, em uma sociedade absurdamente desigual, decorrente da dominação colonial portuguesa, buscar formas "alternativas" de sobreviver a todas as dificuldades. Portanto, o funcionário da fábrica de cervejas, quando pega, a cada dia, uma pequena quantidade para si, reflete muito do que os próprios cidadãos moçambicanos fazem. Em determinado momento, ele divide essas cervejas com a vizinhança, que as recebe de bom grado.

Agora, é interessante a inexistência de julgamento quanto às atitudes dos personagens. Por exemplo, o leitor não consegue julgar os Mbeves - família do funcionário da fábrica de cerveja. E isso é possível por conta da solidariedade que amalgama a narrativa, de maneira a posicionar as suas pequenas ações - tomadas comumente, em uma primeira visão, como corrupta - em outro patamar. Desse modo, Borges Coelho sugere um outro estatuto para a reflexão sobre a sociedade, exigindo mais participação do leitor em suas próprias conclusões.

No final das contas, estamos diante de obras capazes de retratar as transformações de Moçambique, bem como as percepções de sua sociedade ante às mudanças. Nota-se, constantemente, a tensão entre o antes e o depois, entre manter hábitos antigos e admitir o diferente, assimilado pela narrativa histórica como o progresso. O embate entre essas diferentes culturas e suas respectivas formas de conceber a vida é inevitável.

Os dois livros desta breve resenha são bastante complexos. Cabem a eles um olhar muito mais aprofundado, trabalhando com suas minúcias e riquezas. Obviamente, não há a possibilidade de compreender toda a sociedade moçambicana através do contato com apenas esses dois livros. Nem é esse o propósito. Mas, conseguir despertar um olhar atento para isso é um grande mérito. Belíssimo trabalho da Kapulana que, por meio desse selo, Vozes da África, abre as portas, no Brasil, para uma infinidade de autores do outro lado do continente.

CRÔNICA DA RUA 513.2 e AS VISITAS DO DR. VALDEZ
De João Paulo Borges Coelho
Editora Kapulana
316 páginas e 208 páginas
R$ 54,90 e R$ 49,90


Dom Total

*Faustino Rodrigues é jornalista e professor de Sociologia na UEMG, colaborador do Estado de S. Paulo, Rascunho, revista Cult, entre outros

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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