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11/08/2020 | domtotal.com

Os sobreviventes de Hiroshima

John Hersey se posiciona no lugar das vítimas da guerra para escrever suas histórias

Documento de identidade de John Hersey emitido pelo Consulado do Japão
Documento de identidade de John Hersey emitido pelo Consulado do Japão (Biblioteca de livros e manuscritos raros de Beinecke, Universidade de Yale)

Lev Chaim*

Nos dias 6 e 9 de agosto, foram comemorados os 75 anos das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, que colocaram um fim simbólico e factual à Segunda Guerra Mundial. O livro sobre o assunto do jornalista John Hersey, avant-guarde, foi publicado novamente, após ter sido lançado em agosto de 1946, como contos para a The New Yorker, como uma coisa única na história daquela revista literária. Não só porque se trata de uma história de pessoas que sobreviveram apesar de terem sido atingidas pelas bombas norte-americanas, como também pela forma de abordagem dos fatos, com toques de contos literários.  

A conceituada editora holandesa Meulenhof lançou o livro novamente, que você lê como se fosse um romance sobre seis personagens, mas baseado em testemunhas do bombardeamento, numa espécie de entrevistas realizadas. John Hersey torna-se assim um dos pais do novo jornalismo, que deixou de ser aquele que apenas relata descrevendo os fatos, mas também aquele que mergulha fundo atrás desses fatos e suas histórias. Podemos citar aqui mais nomes de outros autores-jornalistas que desenvolveram a mesma técnica de entrevistas ou a aperfeiçoaram, tais como: Norman Mailer, Truman Capote, Hunter Thompson, Tom Wolfe etc.

Muitos talvez teriam a tendência de denominar esta forma de narrativa como totalmente subjetiva. Eu, que corri e comprei o livro, não a achei nada subjetiva, pelo contrário, a vi como uma narrativa um tanto quanto fria tecnicamente, mas que consegue transmitir ao leitor toda a tragédia do bombardeamento, seus mortos e suas trágicas consequências. São seis contos subjetivos, que mostram a diversidade íntima da percepção da realidade pelos seis sobreviventes. Isto advém do registro calmo de todas as emoções dos personagens, mas de uma forma um tanto quanto distanciada, porém não menos impressionante. Trata-se de uma técnica que melhor se adapta ao caráter da população japonesa, mais contido, mesmo em suas manifestações emocionais.

Entre os retratados deste livro de John Hersey, norte-americano e filho de um missionário enviado à guerra para confortar os soldados, estão também dois religiosos. O autor mostra um profundo conhecimento do país e em algumas passagens também retrata os perecidos naquele fatídico dia da explosão da bomba atômica.  Ele escreve: "eles morreram em silêncio, sem ressentimento e espremeram os dentes para poder aguentar toda aquela tragédia. Tudo em honra da pátria".

Os outros jornalistas, norte-americanos ou não, que também relataram a tragédia de Hiroshima e Nagasaki, estavam ainda sob o choque da guerra, cheios de emoções negativas que os japoneses lhes deixaram por serem o inimigo, tal qual os nazistas.

Hersey, pelo contrário, se posicionou no lugar das vítimas e escreveu as suas histórias, sem qualquer sinal de nacionalismo exacerbado ou sentimento de vingança. Um dos frutos retirados das histórias de Hersey é que você pode ver um lado escondido da sociedade japonesa: o lado da ultra disciplinada sociedade e da total submissão para com o seu destino como um povo, em nome da pátria. Um sentimento que era expressado na realidade pelo seu próprio imperador.

Ele ainda nos conta sobre a total falta de percepção, por parte dos moradores de Hiroshima, dos fatos ocorridos ali com eles, o porquê deles terem sido feridos com aquelas absurdas queimaduras e por todas as outras consequências da radiação atômica, cujos efeitos ainda duraram muito mais tempo, até as próximas gerações, quando começaram a nascer crianças com microcefalia, anos depois da tragédia.

Como disseram muitos que leram o livro, inclusive eu, você acompanha todo esse episódio como um dos pontos mais baixos de nossa civilização e como uma espécie de purificação do ser humano, uma história de resiliência e continuação por parte daquele povo, sem que Hersey nos inunde com os reais momentos de náusea pelo ocorrido e todas as suas consequências.  

Portanto, meus caros leitores, sugiro que partam rumo à livraria mais próxima e perguntem se já existe uma versão em português deste impressionante livro, Hiroshima, que, sem sombra de dúvidas, nos dá um exemplo definitivo e marcante de um jornalismo que atinge as aureolas da literatura. Leiam e julguem por si próprios.   

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.



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