Cultura

12/08/2020 | domtotal.com

Racismo estrutural e a voz de Beyoncé: os equívocos de Lilia Schwarcz sobre a glamourização da negritude

O núcleo do filme é a própria exaltação do corpo negro e das culturas ancestrais como um caminho para uma nova história e um novo lugar para a comunidade negra no mundo

No texto, a historiadora reconhece a importância de Black is king, mas parece minimizar a importância do impacto da obra para a comunidade negra
No texto, a historiadora reconhece a importância de Black is king, mas parece minimizar a importância do impacto da obra para a comunidade negra (Disney/Divulgação)

Pedro Henrique Moreira da Silva*

No dia 31 de julho, Beyoncé lançou na plataforma Disney plus o álbum visual Black is king. O filme é uma proposta de releitura dos clássicos Hamlet e Rei leão, que retratam o parricídio e o golpe de estado como núcleo de uma reviravolta e história de autoconhecimento, auto-aceitação e retorno às origens. Black is king, todavia, dá novos tons à história, ao promover a ambientação de todo o contexto em uma perspectiva que retrata o racismo na sociedade.

"Abençoado seja o corpo, nascido celestial, lindo em matéria negra. Preta é a cor da pele do meu verdadeiro amor. Cachos e cabelos capturando centenas de orações, espalhadas pela fumaça (...) que preto seja sinônimo de glória". Com essas palavras, Beyoncé dá início ao filme, proclamando o objetivo principal da obra: a promoção da representatividade para a comunidade negra.

Por meio de um recorte que ora passa por uma África mítica, ora por cenários cosmopolitas da modernidade e ora pelos centros urbanos de Gana e Joanesburgo, a história de uma jovem criança negra perdida no mundo se desenvolve rumo ao descobrimento de quem verdadeiramente é.

Narrado por músicas que falam sobre o círculo da vida, o orgulho de raça e o poder negro, Black is king se mostra como uma obra que vai muito além de O rei leão. É uma ode à pele preta, à ancestralidade e ao propósito de reconstrução da história de um povo que há muito é retratado de forma equivocada nas mídias.

A preocupação de Beyoncé, neste trabalho, é construir um espelho que permita às negras e negros um ponto de referência de beleza dentro do cenário mainstream que,  não raramente, é empenhado em reforçar estereótipos da branquitude. "Viver sem um reflexo pode fazer você se questionar se realmente existe": com essa frase é confirmado o sentido maior da obra.

O filme, gravado ao longo do ano de 2019, teve seu lançamento anunciado em um período de intensa turbulência no discurso de raças, sobretudo após o assassinato brutal de George Floyd, que também deu visibilidade a outros casos de violência racial. Dessa forma, o álbum visual se compromete a desempenhar o papel de politizador racial do cenário pop que, de uma forma geral e por estereótipos, é marcado por reflexões menos densas a respeito das questões sociais, sobretudo raciais.

Todavia, ainda que o longa metragem tenha estreado com boa receptividade da crítica especializada e da comunidade em geral, a importante historiadora Lilia Moritz Schwarcz, famosa por suas pesquisas sobre raça, chamou atenção da mídia ao publicar no jornal Folha de São Paulo o artigo Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha.

No texto, a historiadora reconhece a importância de Black is king, mas parece minimizar a importância do impacto da obra para a comunidade negra. Segundo a escritora a "diva pop precisa entender que a luta antirracista não se faz só com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal".

Todavia, o que a renomada autora parece ignorar é que ao longo de toda a história da mídia, especialmente a visual, são reforçados estereótipos de beleza, glamour, classe e poder. Esses, por sua vez, sempre são incorporados pelas figuras de pessoas não-negras, o que resulta e contribui para a estruturação de um racismo que já é indissociável do tecido social.

Isso porque, diariamente, a população global é bombardeada com conteúdos que internalizam de forma sistêmica que altos cargos e hierarquias de poder são elementos de pertença da pele branca. Por outro lado, é reforçado que aos negros cabem os locais sociais da servidão, do crime, da pobreza, da agressividade e da sexualidade exacerbada. É criada, portanto, uma espiral que contribuiu para a caracterização constante de pessoas negras como corpos de baixa hierarquia no meio social.

A própria retratação da história dos africanos e afrodescendentes é redundante - sobretudo nas produções cinematográficas estadunidenses - em representar o negro em uma classe e status que, se não é atrelada à ideia do "exótico", é focada em projetar o sofrimento e a miséria dos tempos de escravidão. Note-se, aqui não se nega a importância da abordagem desses temas tão sensíveis. Todavia, é necessária reconhecer que restringir a história do povo negro à história de sequestro e escravatura contribui fundamentalmente para a construção de uma negação estrutural do corpo negro como indivíduo de importância na sociedade.

Assim, Lilia Schwarcz se engana profundamente ao resumir o Black is king como um desfile fashion que prega uma visão equivocada do que é ser negro. A historiadora deixa de considerar que o álbum visual é uma oportunidade para recontar a história negra, e mais, dar tons de poder e glamour a um povo que secularmente é retratado como "corpo de segunda classe".

Seja nas vestimentas do antigo Império Egípcio, repletas de ouro e estampas de leopardo, nas tradicionais danças jongo ou nas cornrows (tranças afro), Beyoncé reafirma sua ancestralidade e pinta uma nova perspectiva de imagem para o povo preto. Por isso a idealizadora de Black is king é direta em afirmar em dado momento do longa: "nós já éramos belos antes que eles soubessem o que era beleza". 

Assim, antes de ser uma proposta equivocada de glamourização da negritude, o núcleo do filme é a própria exaltação do corpo negro e das culturas ancestrais como um caminho para uma nova história e um novo lugar para a comunidade negra no mundo: o de graça e poder.

Lilia Schwarcz erra ao ver a glamourização da negritude como algo banal e se equivoca ao subestimar o poder da representatividade. A historiadora precisa entender que a luta antirracista não se faz apenas com ideias criadas "de fora" da comunidade negra. É necessário permitir que os corpos negros se apropriem e recontem suas inúmeras e ricas histórias, com voz para afirmarem diariamente que "preto é rei".

*Pedro Henrique Moreira da Silva é mestre em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Dom Helder escola de Direito e advogado no Sette & Moreira Advocacia e Consultoria



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