Cultura TV

11/08/2020 | domtotal.com

O homem que amava a televisão

Entre cem mil mortes, a despedida de um amigo

O jornalista e curta-metragista Alexei Divino, morto na última sexta-feira em decorrência da Covid-19
O jornalista e curta-metragista Alexei Divino, morto na última sexta-feira em decorrência da Covid-19 (Arquivo Pessoal de Alexis Parrot)

Alexis Parrot*

Em oportuno levantamento, a coluna do jornalista Maurício Stycer (Uol) apontou que na terça-feira passada, pela primeira vez em quase cinco meses, o Jornal Nacional não incluiu sequer uma menção à pandemia em sua abertura. Durante a semana, a nova tendência manteve-se com mínima exceção, além do tempo dedicado à pauta ter sido drasticamente reduzido.

Embora o risco de contaminação não tenha arrefecido e as várias vacinas em desenvolvimento não cheguem antes do final do ano, William Bonner e equipe resolveram que já era hora de colocar o assunto em segundo plano.

Assim fizeram até o sábado. Na noite da véspera foi divulgado o marco oficial de cem mil mortes no país. E só aí o coronavírus ganhou novamente o status de protagonista.

O número redondo foi o pretexto para que o telejornal voltasse à carga com força total contra o ocupante do Palácio do Planalto (cada dia mais coveiro do que presidente), denunciando sua irresponsabilidade criminosa no enfrentamento da pandemia – mas também se aproveitando para atacar o inimigo declarado da emissora dos Marinho; uma jogada mais política do que jornalística.

Já Bolsonaro, porque eleito, é o presidente legítimo (até quando, resta ao TSE julgar), mas esta circunstância não o torna menos indigno do cargo que ocupa. Em uma das várias demonstrações de desprezo pela vida dos brasileiros, já tinha avisado, com o descaso habitual: “Esse vírus é igual uma chuva, vai molhar 70% de vocês...” 

Na sexta-feira, 09 de agosto, esta chuva desabou como um toró e o dilúvio se fez. No dia do marco das cem mil mortes, o coronavírus levou embora meu compadre, o amigo mais antigo e constante, Alexei Divino.


Para falar do meu amigo, não queria um obituário. Isso é coisa para gente que se leva a sério demais – o que, para meu apreço, não era o seu caso. Decidi eleger um recorte. A partir de fragmentos biográficos, espero tornar possível o vislumbre de alguém que, entre tantas outras qualidades, escolheu amar e respeitar a televisão.

Celebrar sua memória é também um esforço de resistência. Cada um dos mais de cem mil que até agora pereceram diante da Covid-19 tem nome, rosto e história. Ninguém – e nenhum governo, ideologia ou interesse de capital – será capaz de transformá-los em estatística.


Nos avistamos primeiro em 1984, em um curso de inglês, e a ligação quase imediata se deu por causa de um gosto comum (cultivaríamos muitos outros no decorrer dos anos): os livros do Asterix. A partir daí, volta e meia nos esbarrávamos, mas a diferença de idade (eu com 12 e ele com 16 anos) acabou postergando a inevitável amizade até o reencontro, graças à faculdade de Comunicação.

Além da convergência ideológica, a paixão pela televisão virou nosso novo Asterix. A partir daí, nos tornamos inseparáveis.

São incontáveis as tardes que descíamos do Campus da UFJF após as aulas para, jogados em frente à TV, encarar o Vale a pena ver de novo ou a Sessão da tarde. Cumpríamos com isso algo de ritualístico; discutindo ideias e fazendo planos futuros para a realização de filmes e programas de televisão.     

Ele assistia de tudo, mas o humor era uma de suas grandes preferências, do clássico à vanguarda, sem distinções ou preconceitos. O tempo de TV Pirata já havia passado, mas pudemos assistir juntos o momento áureo do Casseta e planeta: urgente; anos de altos e baixos de A praça é nossa; todas as reprises possíveis de Os trapalhões; Jô soares, já no papel de entrevistador estrela e, principalmente, o seu favorito: a Escolinha do professor Raimundo, liderada por Chico Anysio. A escolha refletia bem sua alma folgazã e o dom natural para a galhofa.

Aos domingos, se divertia com os programas de auditório, e ria do talento para a mediocridade que só nós, seres humanos, possuímos – o que a programação televisiva dominical consegue representar com facilidade. 

Poderia ter ganhado o apelido de Senhor Controle Remoto. A inquietude que marcou tudo que fez em sua trajetória terrena também aparecia ali, na maneira como pulava de canal para canal, de programa em programa, não raro nas longas madrugadas de insônia, uma companheira fiel durante toda a vida.

Homem dos afetos, era mestre em construir pontes entre os vários grupos que integrava e, apesar de amar a noite e a rua, não poderia ser mais família. A filha Isadora e sua mulher Solange eram as parceiras preferenciais, inclusive para as jornadas televisivas.

Sábio, Alexei entendeu cedo o quão íntimo pode ser o ato de assistir televisão, como o de comer, e gostava de dividir estes prazeres com aqueles que queria bem.

A exceção à regra eram as transmissões de esporte – e se o time do coração, o Flamengo, estivesse em campo, melhor. Nessas ocasiões, o palco era o bar cheio de gente para torcer e extravasar coletivamente (acompanhado de alguns litros de uma boa cerveja, que apreciava sem cerimônia).   

Muitos anos antes da culinária virar fetiche televisivo, já imaginava um programa que movimentasse o tema, aliando produção audiovisual e gastronomia – à qual se dedicou com seriedade, conquistando uma segunda graduação. O programa de TV e o bar que sempre quis abrir foram sonhos que ficaram pelo caminho.

Em 2011, fiz um convite para que participasse do programa Trilhas do sabor, da Rede Minas de Televisão. Era impossível imaginar alguém melhor do que ele para guiar o apresentador Rusty Marcellini em uma viagem gastronômica pela boemia de Juiz de Fora. O que era simples registro ganha agora contornos de legado.

Acabou que ele foi na frente, cumpriu primeiro a travessia – mais dia, menos dia, a gente se reencontra. Até lá, consigo imaginá-lo zapeando não mais de canal em canal, mas de nuvem em nuvem, de estrela em estrela... De agitador cultural que sempre foi, entrou em definitivo para a falange daqueles que nos inspiram.

Após sua chegada, a eternidade nunca mais será a mesma.

(Dedicado à memória de Alexei Claudio Divino / 1968-2020)

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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