Cultura

13/08/2020 | domtotal.com

As coisas do leilão

A ceia foi arrematada pelo homem de terno listrado que tinha uma casinha branca no pé da serra

Dos leilões comandados pelo pequeno e bravo Tião Maia há um que não esqueço nunca. É um em que estava exposto um tabuleiro enorme, com uma ceia de dar água na boca
Dos leilões comandados pelo pequeno e bravo Tião Maia há um que não esqueço nunca. É um em que estava exposto um tabuleiro enorme, com uma ceia de dar água na boca (Gert Olesen / Pixabay)

Afonso Barroso*

Por incrível que pareça, a velhice tem suas vantagens. Uma delas é que, de vez em quando, ela te transporta à infância. Sem mais nem menos, enquanto sonha, dormindo ou acordado, você se vê trepado num pé de manga ou vestido de uniforme escolar e tocando tarol no desfile de 7 de setembro. Ou de estilingue em punho a matar rolinhas e caga-sebos no quintal. Ou pescando lambari no córrego da biquinha.

Tenho poucas, mas boas lembranças do tempo em que eu era menino de rua e de rio em São José do Jacuri. De rua, porque era na rua de terra que a gente jogava bola, fincão e birosca (bolinha de gude). E de rio, porque a gente nadava quase todo dia no rio farto e limpo que o tempo rebaixou para o riachinho poluído que é hoje.

Uma das lembranças que minha velhice amiga sempre me traz à memória é a dos leilões em dias de festa no largo da matriz. O leilão realizava-se numa barraca onde havia uma bancada com as coisas a arrematar. Tinha frango assado, bolos diversos, cuscuz, brevidade, doces de cidra, mamão e abóbora, garrafas de licor da roça, cabrestos, pelegos, um tanto de coisas. 

O pregoeiro era sempre o mesmo: Tião Maia, homenzinho atarracado de voz estridente, que gritava ao ponto de se ouvir até na rua de cima. "Dois mil réis já me dão por este franco assado que veio da cozinha da Dona Sinhá... Dois mil réis, quem dá mais? Dois mil réis já me dão, que eu mais não acho, se mais achasse eu mais queria, dois mil réis, dou-lhe uma, dou-lhe duas, quem dá mais, e esta que faz três, vendido para o senhor de bigode e chapéu aba larga".

Dos leilões comandados pelo pequeno e bravo Tião Maia há um que não esqueço nunca. É um em que estava exposto um tabuleiro enorme, com uma ceia de dar água na boca. Havia nele uma leitoa assada com pele reluzente, travessa de tutu enfeitado com ovos e cebola, outra com arroz de forno, uma com torresmo, outra com laranja picada, outra com frango cheio (assado e recheado com farofa de miúdos), molho de cebolinha e uma maionese cercada de rodelas de abacaxi. Acho que tinha até uma garrafa, não sei se de vinho ou licor.

O tabuleiro foi arrematado por um homem de quem não esqueço jamais. Só não lembro o nome dele, mas sei que usava um terno listrado, tinha uma flor do lado e o chapéu quebrado na testa. Ele sempre aparecia para arrematar as coisas do leilão. A mulherzinha dele, muito bonita e grudada no seu braço, usava um vestido de algodão estampado. Também lembro que ele convidou alguns amigos pra comer a ceia com ele na casinha branca que havia construído no pé da serra. Tive pena de não ser convidado. Não era ceia pra menino.

Espero que você sonhe coisas assim quando estiver velho que nem eu. Aí você vai ver que a velhice pode ser até rabugenta como apregoam, mas tem lá seus bons momentos. Momentos passados, é verdade, mas nunca prescritos.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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