Cultura

13/08/2020 | domtotal.com

Cenas de amor explícitas

Uma vida não é só uma fieira de desilusões e incertezas. É também amor na veia

Cenas idílicas, cenas que mesmo embutidas num certo vazio existencial nos preenchem à beça
Cenas idílicas, cenas que mesmo embutidas num certo vazio existencial nos preenchem à beça (Cristian Newman / Unsplash)

Ricardo Soares*

Sabe-se lá que armadilhas (ou surpresas) da mente me levaram outro dia a uma cena poética e intensa que vivi no Boulevard 28 de setembro em Vila Isabel, no Rio, há pouco mais de dez anos. Nela eu encostava carinhosamente em um poste - não muito longe do finado bar Petisco da Vila - a então companheira e após certa relutância dela lhe tascava um beijaço e um abraçaco, talvez perdoado por alguma falta que havia cometido. Aliás, não aprendo, e sempre  cometo faltas.

A essa altura do campeonato pandêmico você pode até achar estranho que eu faça uma crônica com uma cena de amor explícita. Mas é isso mesmo. Quisera poder falar de tantas outras cenas de amor explícitas por mim vividas e sentidas e quisera poder ter espaço para poder falar de locais, horas, momentos de amor explícitos vividos pelos prezados leitores e leitoras.

Redundância ficar aqui dizendo o quão nefasta é essa intoxicação diária de más noticias que recebemos, seja por conta da Covid, seja por conta do covarde que nos desgoverna. Por isso, ciente de que posso ser "julgado" por ser pueril ou piegas, resolvi fazer uma crônica só para falar de cenas de amor explícitas. Aquelas que jamais se apagam de nossas mentes e que nos dão alento mesmo que os relacionamentos que as inspiraram já estejam findos. 

No meu caso, infelizmente, todas as lindas cenas de amor que vivi foram em relacionamentos findos. Mas bem vividos. Isso não os desmerece, mas que privilégio poder recordar cenas de amor explícitas quando os relacionamentos seguem, vicejam, se transformam para melhor.

Assim sendo, antes que eu provoque em vocês mesmos essas boas recordações - pelo menos essa é minha pretensão - eu vos digo que tenho lindas cenas que são ainda mais sensacionais, pois vividas em geografias tão distantes que vão de Fernando de Noronha à Serra do Roncador, de um sítio no distrito de Morro Grande, Cotia (SP) até as bordas do enorme Lago de Zurique passando por Paris, Londres, São Miguel do Gostoso, cercanias de João Pessoa, Cabo Frio, Salvador, Exu Queimado, Ribeirão do Eixo, Vila Paulicéia em São Bernardo do Campo.

Uma vida não é só uma fieira de desilusões e incertezas. É também amor na veia. Cenas explícitas como as que descrevi no começo da crônica. Cenas idílicas, cenas que mesmo embutidas num certo vazio existencial nos preenchem à beça. 

Das plantas e dos bichos eu já sabia da importância. Ainda mais reconhecida e valorizada por muita gente nesses tempos de peste. Mas, sem dúvida, outro bálsamo poderoso agora é recordar cenas de amor explícitas. Mesmo que hoje não sejam mais explícitas. 

Mas, meus amigos e amigas, o bom mesmo no meio disso tudo é estar vivendo cenas de amor explícitas nesses dias hediondos. Confesso que, se vocês estão vivendo isso, cultivo uma inveja mansa, um algodão entre os cristais do medo.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 9 livros. O mais recente 'Devo a eles um romance' disponível no site da editorapenalux.com.br



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