Cultura

14/08/2020 | domtotal.com

Dar o braço a torcer

Na atualidade há uma enorme quantidade de pessoas que se creem sábias demais

Num mundo de 'sábios', nenhuma pessoa dá o braço a torcer
Num mundo de 'sábios', nenhuma pessoa dá o braço a torcer (Unsplash/Lívia Rocha)

Evaldo D'Assumpção*

Essa expressão, que deriva do seu antônimo, "Não dar o braço a torcer", é bem antiga, mas sua origem é desconhecida. Seu significado, quase todas as pessoas conhecem: "Aceitar que errou". Talvez seja, exatamente pelo que significa, que a expressão positiva quase já não é escutada.  Mas, pelo contrário, a forma negativa é quase uma constante no nosso dia a dia. Afinal, encontrar alguém capaz de reconhecer e declarar que estava errado, alguém que "dê o seu braço a torcer", só procurando com poderosa lente às mãos, ou saindo com uma lanterna ao meio dia, com o fez Diógenes (400 a.C.) tentando encontrar um homem honesto. Aliás, uma cena que se repetiria muito bem, hoje...  

Como aquela expressão não tem origem conhecida, fiz um passeio por priscas eras, retornando aos meus tempos de colégio, em minha cidade natal, Campo Belo. Lembrei-me das salas de aula, onde reinava total disciplina, onde não se conversava durante as aulas, especialmente pelo respeito às professoras e professores. E era exatamente esse respeito que nos levava a aprender o que os mestres ensinavam, pois eram eles os que sabiam, e nós, os que estávamos aprendendo. Daí um outro apotegma, desta vez em latim: "Magister dixit", significando "o mestre (o) disse". Expressão que vem dos comentadores medievais de Aristóteles, para quem o que ele disse, estava dito, não cabendo contestações.

Esse preâmbulo nos ajuda a expor a razão pela qual a expressão "não dar o braço a torcer" vem se tornando cada vez mais frequente, enquanto sua forma positiva perde todo o espaço que já ocupou. Com a invenção da prensa com tipos móveis, por Gutenberg (1396-1468) em 1438, iniciou-se a impressão de livros e jornais que foram multiplicando-se e levando o conhecimento por toda parte.  E a medida em que a humanidade foi ganhando novos espaços no mundo dos conhecimentos, à medida em que se multiplicavam os meios de comunicação, boa parte das pessoas passou a se julgar senhor da verdade, não admitindo contestação às suas colocações, às suas ideias.

Tudo piorou (?) com o surgimento da internet, trazendo o amplo acesso a todo tipo de informações através do ironicamente chamado "Dr." Google, e mais ainda com as facilidades e portabilidade do WhatsApp.  As enciclopédias Britannica, Barsa, Larousse, com seus pesados e numerosos volumes, simplesmente desapareceram, ou ainda podem ser vistas nas grandes bibliotecas. Só vistas, pois raramente alguém irá consultá-las, se é possível conhecer e saber "tudo", ao simples toque de dedos ágeis num teclado de bolso.  Como médico, várias vezes tive de ouvir: "Mas doutor, o Google diz que..." Resumindo, todo o conhecimento humano foi concentrado em alguns bytes, e com isso, hoje só não sabe (ou pensa que sabe...) sobre qualquer coisa, quem não quer. E foi exatamente aí, que o "dar o braço a torcer" começou a desaparecer. Hoje, todas as pessoas têm contestações na ponta da língua, para atender à sua vaidade, ao seu orgulho pessoal de que não precisa ser corrigido.  Até uma velha resposta às correções, fruto da vaidade que caracteriza os humanos, está desaparecendo: "Não precisa me corrigir, eu sei errar sozinho..."  E está sumindo, porque hoje ninguém acredita que vai errar, ou que esteja errado. Afinal, estão transbordando de sabedoria.

Como cronista de temas sociais e éticos, confesso que estou perdendo o gosto de escrever sobre isso, preferindo partir para amenidades. E minhas razões estão ligadas à dúvida ?" quase certeza ?" que tenho, se alguma pessoa, hoje, fará qualquer mudança em seu comportamento, pela leitura de um filósofo, psicólogo, professor, ou seja lá qual for a classificação cultural e científica do autor, por causa de seus escritos, sejam artigos, sejam livros. E até mesmo por suas aulas ou palestras. Nem falo de mudanças radicais, mas simples ajustes em seus comportamentos, desencadeados pelo que leu ou ouviu. Minha dúvida vai mais longe: não acredito que sejam muitos os que leem, com a devido atenção, e até o seu final, tais artigos ou livros. Usam muito a expressão: "Fiz uma leitura dinâmica", que é uma técnica de leitura rápida e compreensiva de difícil aprendizado, e que raríssimas pessoas conhecem. Na verdade, o que estão dizendo é que leram o título, passaram os olhos rapidamente sobre o texto, e afirmam, como uma antiga assistente minha o fazia: "Tá visto..."  Já as aulas e palestras são apreciadas, mais pela eloquência, pelo charme, pela notoriedade, ou até pelos atrativos físicos do(a) palestrante, do que propriamente pelo conteúdo que foi apresentado. Afinal, como já ouvi em alguns comentários: "Tudo o que ele (ela) escreveu (ou falou), eu já sabia". Que mundo fantástico, esse em que vivemos, onde só existem sábios...

Num mundo de "sábios", nenhuma pessoa dá o braço a torcer. Prefere ficar com suas concepções próprias, com seus conhecimentos telegráficos, com suas genialidades, com sua descomunal vaidade. E, mesmo quando leva da vida, um acrobático tombo, levanta-se sem aceitar qualquer ajuda, dá uma sacudida na poeira e afirma com ares socráticos: "Não foi nada, só um susto!". E continua sua capengante caminhada pela existência, sem perceber as enormes possibilidades de crescimento pessoal disponíveis ao redor dela, que perde por não admitir "dar o braço a torcer".

*Da Academia Mineira de Medicina e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. Autor dos livros "Sobre o viver e o morrer", "Luto", e de dois volumes de suas memórias

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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