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13/08/2020 | domtotal.com

Documentário leva a Cannes a indignação de Glauber com a tragédia brasileira

Paloma Rocha e Luis Abramo resgatam o programa Abertura para escancarar nossas mazelas

Passado e presente se fundem numa reflexão aguda e lúcida sobre o país
Passado e presente se fundem numa reflexão aguda e lúcida sobre o país (Luis Abramo/Divulgação)

Pablo Pires Fernandes

O único documentário brasileiro selecionado para o Festival de Cinema de Cannes é um dos sete selecionados para a Mostra Cannes Classics. Não é à toa e nem por acaso que um dos mais importantes festivais do mundo tenha escolhido Antena da raça, filme que reflete sobre o Brasil, seu passado e seu presente, fundindo tempos distintos e retratando uma realidade, tão nossa, que beira a ficção surrealista e absurda.

Mais ainda, a escolha da obra, dirigida por Paloma Rocha e Luis Abramo, ocorre no momento em que Cannes, diante do evento catastrófico planetário de uma pandemia, faz uma pausa para olhar a história do cinema e, portanto, nada mais justo do que falar sobre Glauber Rocha (1939-1981).

Devido à pandemia, a 73ª edição do festival será realizada no Festival Lumière, em Lyon, entre 10 e 18 de outubro, e no Réncontres Cinématographiques de Cannes, entre 23 e 26 de novembro.

O documentário toma como mote o programa Abertura, aventura inovadora e provocativa de Glauber na TV Tupi, veiculada entre 1979 e 1980, realizado, portanto, há 40 anos. Além de dirigir com liberdade total, o baiano colocou sua cara na tela como entrevistador de maneira fiel ao seu estilo provocador, dialogando com pessoas na rua, intelectuais, políticos e tudo acompanhado de seus discursos veementes sobre o Brasil e o mundo.

As reflexões audazes de Glauber, feitas no momento em que o Brasil atravessava a passagem da ditadura militar para uma democracia - redemocratização só concretizada cinco anos depois - soam hoje visionárias. E o filme propõe exatamente uma reflexão acerca de dois momentos de encruzilhada da sociedade brasileira.


Intercalando cenas do Abertura, de filmes dirigidos por ele e imagens atuais, a obra se apropriando também da linguagem anárquica do diretor. Revolucionário na estética cinematográfica, Glauber rompeu barreiras em sua proposta televisiva. E a construção fílmica de Antena da raça segue o viés de provocar, criando novos sentidos sobre a história do país, tema caro ao cineasta, sua geração e aos diretores desse documentário. Cortes de imagens daquele passado para cenas mais recentes funcionam como embates e complementos, mas, sobretudo, escancaram as mazelas do país, que, 30 anos depois, seguem sendo as mesmas.

A diretora Paloma Rocha, filha do cineasta, diz sobre este cruzamento histórico: "Mais do que o fato de pouco ter mudado, mesclar os tempos é provocar uma reflexão atemporal, que está presente em toda a obra do Glauber e nas nossas preocupações: a luta de classes, o mundo rico e o mundo pobre independente de ideologias, a colonização cultural, a autocolonização, o racismo, a barbárie civilizatória, um país sem marco civilizatório as liberdades de expressão e sexuais".

A atualidade das imagens e dos discursos, de ontem e hoje, são eloquentes como um "transe lúcido", frase evocada por José Celso Martinez Correa, o "maior teatrólogo do Brasil", como disse o diretor, e é um dos entrevistados no documentário. Ou quando a atriz Helena Ignez evoca a Estética da Fome, teoria-manifesto criada por Glauber.

A relação de Glauber com as ideologias são um tema que, agora, ganham maior destaque devido às divisões esgarçadas no país. "O Brasil não se desenvolve facilmente nem no capitalismo nem no socialismo - somos herdeiros desta loucura", diz Glauber numa passagem do Abertura incluída no documentário.

Como numa entrevista com Antônio Carlos Magalhães, na qual elogia o político - ironicamente -, o cineasta-provocador recebe palavras contra a censura, sobre a aceitação da divergência - "como temos tido", diz ACM - e da necessidade de diálogo para a convergência. Mas a realidade é ainda mais surpreendente quando, numa entrevista atual, um camelô explica seu trabalho de vender camisas e adereços adequados às manifestações pró e contra o presidente Jair Bolsonaro nas calçadas do Rio de Janeiro, indiferentemente. Claro, ele tem que tocar a vida e pagar suas contas.

Antena da raça, num primeiro momento, pode parecer enaltecedor do gênio que foi Glauber, sobretudo quando a codiretora é filha do próprio. Só que não. Paloma e Abramo se afastam da mitificação do cineasta, escritor, jornalista e pensador. Revisitam as provocações e, sobretudo, os questionamentos lançados por ele, transpondo-os, de maneira particular, para o presente conturbado no qual estamos atolados.

O atoleiro, no entanto, é histórico. Glauber sabia. Deixa explícito, então. O filme de agora tem o mérito de evocar o passado e nos jogar na cara o fato de que permanece sem solução: a violência, o racismo, a ignorância, a falta de memória, a frustração de uma cultura sempre prometida e nunca realizada - o país do futuro!.

Paloma resume: "A obra de meu pai é isto, muito mais para ser vista sentida e pensada do que seguida. Mesmo porque é impossível ser o outro. O que eu mais vejo são pessoas com dificuldades de serem elas mesmas. No Antena da raça, encontramos nas ruas pessoas assim, com dignidade de serem quem são, muito mais com um discurso construído para luta do que para 'choraminguela' frustrada que invade nossas casas nas novelas e noticiários".

No filme, cena atual, um personagem escancara que negro só tem segurança e faxineiro, caixa de supermercado, mas que é visto como ladrão. "E a polícia querendo me matar", diz. E o entrevistado completa com uma lúcida análise do país: "Aí cê vai em cada esquina é um boteco, uma Assembleia de Deus e uma boca de fumo. Isso é o Brasil"

Imagens da ditadura se cruzam com as recentes mortes de Fabrício, de Marielle (e de Agatha, Margareth, Dyogo, Henrico, Gabriel, Tiago, Lucas etc etc) para questionar: que país é este? A pergunta, aliás, certamente inquietava Glauber, que se propôs - era-lhe inevitável - investigar e questionar.

Na metralhadora verborrágica de Glauber, é notável a visão transcendente sobre a cultura, ciente dos traumas históricos e "eternamente frustrada", mas, ao mesmo tempo, orgulhosa de seu afeto ímpar. Lucidez que Paloma analisa tão bem ao dizer que "nossa cultura é essa mistura". E segue, evitando purismos: "O Brasil tem na sua cultura estes traços fortes de colonialismo, de autoritarismo, de conservadorismo, de preconceito e racismo, misturados com as forças afro-indígenas e suas pulsões de liberdade. Vivemos em um mundo capitalista, que dita nossa existência e a cultura é a de consumo".

No entanto, Paloma se mantém convicta de que "cultura é o direito de existir e de exercer sua cidadania, crenças e paixões". Conta que, talvez, por isto, "seja um filme apaixonado pelo Brasil e pelo cinema", admitindo que o trabalho de toda a equipe reflete essa paixão e esse olhar pelo país, crítico, mas esperançoso de que é possível mudar o Brasil.

ENTREVISTA COM PALOMA ROCHA:

Como foi este cruzamento temporal proposto pelo filme, da sociedade de 1979 e a atual?

Para se pensar estas coisas com liberdade diante do retrocesso político e a tentativa sistemática de se oprimir a cultura, que é a forma de pensar e agir de um povo, o próprio filme e suas combinações nos conduziram para este novo tempo em que o encontro de todos os tempos e o diálogo de suas contradições cria um outro discurso.

E como vê a situação política atual do país?

Bom, não precisa ser muito inteligente ou desinformado para perceber que o Brasil está ruindo em todos os setores, saúde, educação, cultura, economia, qualidade de vida e outros.

Apesar disto, o documentário não me parece pessimista?

Não sou pessimista, mas acho que caminhamos para o buraco. Por isto fomos e iremos sempre  ao campo do opositor para conhecer  suas  razões e não nos acomodarmos na retórica da derrocada, na nossa preguiça e cegueira. Tem que querer mudar, e criar mecanismos para informar que o seu corpo te pertence mesmo que você o submeta a oito horas de trabalho, mais quatro de transporte urbano para continuar a ser humilhado  diariamente para ganhar um salário mínimo mensal ou um auxílio emergencial que não pega sua dor ou muito menos o seu sonho.

Um tema caro a Glauber é a cultura e a arte. Como vê isto hoje?

Não trago a noção de ?a cultura? é representada por isto ou aquilo. A cultura pra mim é esta manifestação deste isto ou aquilo. E se não está havendo manifestações culturais suficiente pra que possamos expressar um desejo revolucionário de liberdade, então temos hoje uma cultura enfraquecida. Não tem nem ministério da Cultura. Cultura, para mim, é a permanência da Cinemateca Brasileira. Não consigo dissociar cultura de economia. Expressão artística é outra coisa. Existe uma musicalidade nata no povo brasileira, uma inteligência pra driblar o dia a dia. Isto pra mim é arte. Pensando livremente, me parece que hoje interpretamos cultura como coisa de rico e arte como coisa de pobre. Será? Não sei as respostas. A pessoa não quer expressar arte, ter o árduo trabalho de eleger sínteses simbólicas ou signos de linguagem. Ela prefere ser celebridade.

Mas acredita que é possível um futuro melhor?

Acho que sim, um país com menos desigualdades, mais fraterno, educado, saudável e inteligente, se houver uma melhor distribuição de renda, tolerância, educação, saúde e cultura para todos como está escrito na Constituição.

Vislumbra alguma direção para um outro Brasil?

Para se criar este mundo novo, primeiro é preciso querer. Depois, este desejo de liberdade vai gerar muitos conflitos morais, religiosos, de interesses econômicos e de manutenção de poder. Então, precisamos do básico: saúde, saneamento, educação, acabar com a fome, estas questões básicas para que as pessoas acessem o mundo ?da cultura?. Não dá pra falar de cultura em um país sem saneamento e no qual as pessoas ainda passam fome, um país violento e racista. Repito: cultura no Brasil é um conceito de gente rica ou de uma classe média recalcada que não sai nas ruas para conhecer o seu povo. O povo quer educação, geladeira, bujão de gás comida, saúde, esgoto e água tratada. As pessoas têm medo de pobre, já notou? Não pretendo com este filme ser arauto, mas um estímulo à construção de algum pensamento.


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