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13/08/2020 | domtotal.com

Apesar de mortes e milhares de detenções, protestos continuam fortes em Belarus

Militares e policiais também protestam contra reeleição de Lukashenko.

Mulheres com flores protestam contra a violência policial em avenida de Minsk
Mulheres com flores protestam contra a violência policial em avenida de Minsk (Sergei Gapon/AFP)

Ao menos 6,7 mil pessoas foram detidas e duas foram mortas em quatro de dias de protestos violentamente reprimidos em Belarus contra a reeleição do presidente Alexander Lukashenko.

O ministério do Interior anunciou nesta quinta-feira (13) que 700 pessoas foram detidas na quarta-feira (12), o quarto dia de protestos. Novas manifestações já foram convocadas para as próximas horas.

"Os incidentes no país perderam o caráter de larga escala, mas o nível de agressividade contra as forças de segurança continua elevado", afirmou o ministério em sua conta no aplicativo Telegram. Também de acordo com o ministério, 103 policiais foram feridos e 28 estão hospitalizados.

As manifestações explodiram em todo o país desde o anúncio, no domingo (9), da vitória – por mais de 80% dos votos – do autocrata Lukashenko, que está no poder há 26 anos.

Os partidários da opositora Svetlana Tikhanovskaya reivindicam a vitória de sua candidata, que, após uma campanha que despertou uma empolgação que nunca havia sido registrada na ex-república soviética, se declarou vencedora, deixou o país e buscou refúgio na Lituânia.

A polícia, que utiliza bombas de efeito moral e balas de borracha contra os manifestantes, considera que os protestos estão enfraquecendo, embora denuncie um elevado nível "de agressividade contra as forças da ordem". As autoridades não revelaram quantas pessoas continuam detidas, mas relatos em redes sociais indicam dezenas de liberações.

Depois de três dias de detenção, Kristina Vitushko disse ao Facebook: "Eu estava em uma cela de 10 metros quadrados para quatro pessoas. Havia dois beliches, uma mesa, uma latrina. Eles colocaram 55 de nós lá, não nos alimentaram".

As autoridades confirmaram na quarta-feira a morte de um detido. Outro manifestante faleceu na segunda-feira (10). Também reconheceram um incidente com o uso de munição letal na terça-feira, que deixou uma pessoa ferida.

Estados Unidos e União Europeia (UE) denunciaram fraudes nas eleições e condenaram a repressão. Os europeus estudam a possibilidade de impor sanções a Minsk.

A Ucrânia recomendou a seus cidadãos que evitem os deslocamentos a Belarus e pediu a libertação "imediata" de dois ucranianos, ativistas dos direitos humanos, detidos.

A Rússia denunciou na quinta-feira "tentativas do exterior para dividir a sociedade e desestabilizar" a Belarus, segundo a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zajarova.

Marchas pacíficas

Correntes humanas e marchas pacíficas se multiplicaram nesta quinta-feira em Belarus para denunciar a violenta repressão aos protestos contra a polêmica reeleição do presidente Alexandre Lukashenko. Com flores ou balões brancos nas mãos, milhares de pessoas formaram essas correntes em diversos setores da capital, apoiadas por motoristas que buzinavam.

Esta forma de mobilização, iniciada nesta quarta-feira por dezenas de mulheres vestidas de branco, não desencadeou uma repressão violenta como a que se dirige contra as manifestações noturnas.

"Ontem vi mulheres vestidas de branco. E entendi, quero fazer isso. Somos contra a violência, somos a favor de eleições honestas", explicou Nastia, uma artista de 26 anos, que participou de um comício no centro de Minsk. Elena, uma professora de 41 anos, disse que participou para que "a tortura na prisão pare, para que todos os detidos sejam libertados".

Membros da equipe médica se reuniram em frente às suas instalações. Artistas da Filarmônica de Minsk cantavam músicas patrióticas do lado de fora do seu prédio, segurando letras que formavam a frase: "nossos votos foram roubados". De acordo com a oposição e a mídia russa, ocorreram ações semelhantes em várias cidades do país, bem como nas fábricas.

Nos últimos dias, celebridades locais intensificaram as críticas às autoridades, como a quatro vezes campeã olímpica de biatlo Daria Domracheva, que fez um apelo no Instagram às forças de segurança: PAREM A VIOLÊNCIA! Não permitam que o horror continue nas ruas".

Vários jornalistas e apresentadores de meios de comunicação estatais pediram demissão, incluindo Tatiana Borodkina, da STV, que apresentava um programa de entretenimento com as filhas. "Não tenho medo e não tenham medo, não privem nossos filhos de seu futuro", escreveu Borodkina em sua página do Facebook

A vencedora do Nobel de Literatura Svetlana Alexievich acusou na quarta-feira Lukashenko de arrastar o país para a "guerra civil".

Uniformes no lixo

Apesar dos repetidos cortes de Internet, militares e policiais, da ativa ou da reserva, também denunciam de modo anônimo a repressão. Em vídeos que viralizaram eles jogam no lixo uniformes e emblemas de unidades.

Tikhanovskaya não fala desde o vídeo de terça-feira (11) no qual anunciou sua saída do país, o que aconteceu, de acordo com seus seguidores, por pressão do governo quando passou horas retidas pelas forças de segurança na segunda-feira.

O chefe de Estado, de 65 anos, nunca permitiu um avanço da oposição, que carece de representação no Parlamento. A última onda de protestos, em 2010, também foi severamente reprimida.

Tikhanovskaya, de 37 anos, novata na política, mobilizou em poucas semanas, para surpresa geral, dezenas de milhares de pessoas. A mãe de dois filhos e professora de inglês substituiu na disputa presidencial o marido Serguei, um conhecido blogueiro que foi detido em maio.


AFP



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