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18/08/2020 | domtotal.com

O cérebro, a física e a ética

Se é que existe alguma uma separação entre essas coisas...

Cientistas têm avançado em diversas pesquisas e evoluído na constatação de que nossas ondas cerebrais podem ser enviadas por campos elétricos
Cientistas têm avançado em diversas pesquisas e evoluído na constatação de que nossas ondas cerebrais podem ser enviadas por campos elétricos (Bret Kavanaugh / Unsplash)

Jose Antonio de Sousa Neto*

A maioria dos estudantes de Biologia é capaz de dizer que os sinais neurais são enviados por meio de mecanismos como transmissão sináptica, junções de hiato e processos de difusão, mas novos estudos sugerem que há outra maneira de nosso cérebro transmitir informações de um lugar para outro. Cientistas têm avançado em diversas pesquisas e evoluído na constatação de que nossas ondas cerebrais podem ser enviadas por campos elétricos. 

Na verdade, os pesquisadores acham que identificaram uma forma, até então desconhecida, de comunicação neural que se auto propaga através do tecido cerebral e pode saltar "sem fio" (wireless, como em uma conexão wi-fi) de neurônios em uma seção do tecido cerebral para outra, mesmo que tenham sido cortados cirurgicamente. Isto seria um avanço relevante de nosso entendimento sobre o funcionamento dos nossos cérebros.

Como disse Dominique Durand, engenheiro biomédico da Case Western Reserve University, "o cérebro pode estar usando os campos para se comunicar sem transmissões sinápticas, junções de hiato ou difusão". Em outras palavras, a descoberta oferece alguns insights radicais sobre a maneira como os neurônios podem estar conversando entre si, por meio de um processo não relacionado a mecanismos compreendidos convencionalmente. 

Pesquisadores sabem há décadas que o cérebro exibe ondas lentas de oscilações neurais cujo propósito não foi até agora adequadamente compreendido. O que eles descobriram foi que a atividade periódica lenta pode gerar campos elétricos que, por sua vez, ativam células vizinhas, constituindo uma forma de comunicação neural sem transmissão sináptica química.

A transmissão wi-fi é um tipo de transmissão de rádio. As ondas de rádio e as ondas luminosas são casos especiais de ondas eletromagnéticas que diferem entre si na frequência (as ondas luminosas possuem frequência muito maior do que as ondas de rádio), mas todas as ondas eletromagnéticas se propagam, no vácuo, com a velocidade da luz. Como consequência, as transmissões wi-fi de dados e informações em nossos cérebros, portanto, se faria a uma velocidade próxima à da luz. 

Mas com os avanços científicos em curso, nossos conhecimentos sobre o cérebro ainda parecem distantes de conseguirem cobrir o gap entre o que compreendemos sobre ele e aquilo que ele é capaz de fazer. Justamente por isso vamos, neste ponto, e de maneira meramente e exclusivamente especulativa, dar um passo adicional em relação ao Experimento da Dupla Fenda no campo da Física Quântica e sobre o qual já falamos anteriormente, em mais de uma ocasião, aqui neste espaço. Apenas para facilidade de referência do leitor acrescento novamente o link de um breve vídeo que trata do experimento.

Em textos anteriores instigamos os leitores a pensar se poderia haver uma conexão entre a realidade quântica e o livre arbítrio. Neste breve texto, por outro lado, estamos falando agora do Experimento do apagador quântico da escolha postergada (Delayed choice quantum eraser) e que é uma complementaridade ao experimento da dupla fenda. Os resultados deste segundo experimentos são fascinantes. Uma boa explicação deste experimento está no link

De forma bem sumarizada, o próprio entendimento intuitivo de causa–efeito tradicional que temos precisa ser avaliado de forma mais ampla. É sabido que as partículas como um elétron se comportam como ondas até o momento em que os observamos e quando eles passam então a se comportar como partículas. 

Como vocês tiveram a oportunidade de ver neste último vídeo (realmente vale a pena assisti-lo), preparado para trazer este conhecimento ao grande público, se o observador passar para o outro lado da parede com duas fendas, quando ele não pôde ver por qual fenda passou o elétron e que, portanto, já deveria estar se comportando como onda, a partícula muda instantaneamente e retroativamente no tempo o seu comportamento. Como uma volta instantânea ao passado. 

Mas instantaneamente não significa uma velocidade ainda maior que a da luz, o que seria impossível, como demonstrou Einstein? No contexto quântico parece que não, em função do fenômeno do entrelaçamento (quantum entanglement). A ciência tem demonstrado que duas partículas podem comunicar-se entre si instantaneamente mesmo que cada uma delas esteja em lados opostos do universo conhecido.

Estas maravilhosas constatações nos levam a perguntas que nos ajudam a especular sobre as respostas: Mas o cérebro também não é composto de partículas? Além de funcionar wireless, não estaria em uma perspectiva quântica um caminho a ser percorrido para entender o gap entre o que compreendemos do cérebro e o que ele realmente consegue fazer? Não estamos nós mesmos entrelaçados ao experimento e ao espaço tempo que nos cerca? Será que a partícula voltou no tempo, ou simplesmente o próprio espaço-tempo se autorremodelou a uma nova configuração, já que o tempo é relativo, como demonstrou Einstein?

É possível e, quem sabe, talvez até provável, que a resposta para todas estas perguntas seja sim. A última pergunta é particularmente instigante porque, também como já comentei aqui em textos anteriores, parece que o que conta não é o tempo, mas nossas decisões e ações em si mesmas e a sequência delas. Isto parece óbvio porque intuitivamente não conseguimos desconectá-las de uma sequência temporal. Mas em um contexto de tempo relativo, a interferência no espaço-tempo pode talvez implicar que o que importa mesmo são as "marcas" que nossas ações e decisões deixam nele. 

Ora, se assim o for, e levando em consideração que decidimos e agimos de acordo e a partir de nossos princípios morais e éticos materializadas através e pelo potencial de nosso cérebro, nossa ética não modela então o espaço tempo em nosso entorno?

Obviamente sempre soubemos que todas as nossas ações sempre têm consequências. Não há nenhuma novidade aqui. A lei da física de ação e reação já foi magistralmente descrita por Isaac Newton há mais de trezentos anos. Parece, no entanto, que as consequências "físicas" de nossas ações sejam, talvez, muito maiores, mais amplas e mais profundas do que percebemos ou queremos nos dar conta. 

A base de nossa ética pode estar na Filosofia moral e em princípios teológicos que explicam suas consequências, mas se, além das incontestáveis constatações científicas, nossas especulações e raciocínio estiverem corretos, ela também interfere na constante remodelação física do espaço tempo em nosso entorno, e isso não é pouca coisa! Se é que existe alguma separação entre todas essas coisas...

*Jose Antonio de Sousa Neto é professor da Escola de Engenharia e Computação (EMGE)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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