Cultura Cinema

20/08/2020 | domtotal.com

Produções mineiras marcam presença em festivais Brasil e mundo afora

Longas e curtas participam - e ganham prêmios - em diversos festivais do país e do exterior e ocupando os canais a cabo

Cena do curta 'Difícil é não brincar'
Cena do curta 'Difícil é não brincar' (Divulgação)

Larissa Troian

Que produções mineiras de cinema vêm crescendo e ocupando espaço na mídia, não é nenhuma novidade.  Longas e curtas participam - e ganham prêmios - em diversos festivais do país e do exterior e ocupando os canais a cabo. 

Por três anos consecutivos o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro premiou como melhor longa produções mineiras: A cidade onde envelheço, de Marilia Rocha (2016), Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans (2017) e Temporada, de André Novais de Oliveira (2018). O documentário pernambucano-mineiro Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, assinada por quatro diretores - Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito, venceu como melhor curta em 2018, além da participação de Luna, de Cris Azzi (2018)

Em 2019, os mineiros Alma bandida, com produção de Ariane Rocha, e Angela, da produtora Marília Nogueira participaram do 30º Festival de Curtas-Metragens de São Paulo. Quem marca presença no mesmo festival esse ano é a produção Difícil é não brincar, da cineasta Papoula Bicalho.

O filme se passa em três escolas municipais localizadas nos distritos mineradores de Lobo Leite, em Congonhas, e Miguel Burnier e Motta, em Ouro Preto. Lá, a produção de minério é a principal atividade econômica. Em meio à poeira, barragens, caminhões transportando minério, as crianças brincam e lidam com as questões da própria infância. De acordo com Papoula, o filme "buscar revelar, por meio de brincadeiras, um pouco da infância de crianças que moram nesses três distritos mineradores". Segundo ela, "quando a criança brinca, ela revela os próprios sonhos e pesadelos; ela joga com os medos, com os anseios, com quem ela gostaria de ser e não é".

Meninas brincam durante gravação do curta

Foto:Divulgação

Os distritos escolhidos têm pouco acesso à tecnologia e a espaços culturais, e têm dentro ou ao lado deles mineradoras que impactam profundamente essas comunidades. Para Papoula, "é muito bonito ver que essas crianças, apesar desses dificultadores, conseguem se reinventar, inventar e criar possíveis mundos nesses lugares".

O nome Difícil é não brincar, segundo Papoula, surge do salto que as crianças dão para além da realidade delas, e do espaço que encontram para se reinventar, apesar de tudo que há em seu entorno. "O que essas crianças fazem é criação de possibilidades de existência, de ocupação do espaço público, de modos diretos de se relacionar com o outro."

Os pontos de partida para a construção do enredo foram provocações e desafios que pudessem resultar em brincadeiras e depoimentos significativos para desvendar anseios, intimidações, prazeres e desejos que se apoderam dessas crianças no dia-a-dia. "O narrador do filme é a ação delas em meio aos colegas, amigos e à paisagem dos locais onde vivem", explica a diretora.

O curta terá sua estreia mundial no 31º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, dentro da Mostra Infanto-Juvenil, que ocorre entre 20 e 30 de agosto, na Mostra Infanto-Juvenil. Sua primeira exibição será dia 22, às 19h; depois, ficará disponível entre os dias 27 e 30 pela plataforma do festival.

O filme contou com direção de produção de Janice Miranda, realização da Luz Comunicação, apoio institucional do Museu de Congonhas, parceria com a comunidade escolar desses distritos e patrocínio da Gerdau.

Outra produção mineira que marca presença em uma mostra de dimensão nacional é Ângelo, da cineasta Mariana Machado, de Belo Horizonte. O curta estreia na 9ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema, um dos mais importantes eventos audiovisuais sul-americanos dedicados a temáticas socioambientais, que começou no dia 12 de agosto e vai até 20 de setembro. Selecionado na categoria Concurso Curta Ecofalante, Ângelo concorrerá ao prêmio de Melhor Curta Ecofalante e Melhor Filme Pelo Público.

Mariana Machado tinha um desejo antigo: o de realizar um retrato fílmico sobre seu avô, Ângelo Barbosa Monteiro Machado. Cientista, professor de neuroanatomia e zoologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dramaturgo, escritor, ambientalista e entomólogo apaixonado por libélulas e borboletas, Ângelo era uma pessoa admirável no meio acadêmico e fora dele, e deixou para sua neta, a inspiração para realizar o filme. 

Mariana e o avô, Ângelo

Foto: Fernanda Sena/Divulgação

Mariana acredita que seu avô "certamente iria ficar muito contente com a estreia do filme nesta mostra". Ela conta que foi Ângelo que, através da literatura, da ciência e do ambientalismo, difundiu ideias e atuou intensamente na linha de frente da conservação da natureza dentro e fora de Minas; "admiro muito sua trajetória, e acredito que o contexto de pandemia que estamos passando levanta ainda novas questões a respeito da importância de se discutir, refletir e agir em defesa do meio ambiente", afirma a cineasta.

Ângelo foi casado e passou a vida toda com Conceição Ribeiro Machado, também importante cientista e professora titular do departamento de morfologia da UFMG. A maior parte do curta foi filmado na casa em que os dois viveram por 50 anos, onde constituíram família e iniciaram o legado de sua história. Para Mariana, a casa é um local de grande valor simbólico para ela e seu avô. Ela explica que o retrato do filme se debruça na observação de gestos, expressões, vivências e resgate de memórias para se formar, e é fruto de encontros nos quais ela e o avô se apropriavam de sua história para construir algo de novo: "para essa construção foi muito mais importante nosso engajamento no presente e nossas apropriações sobre sua história, que se desdobravam em diferentes possibilidades fílmicas, do que respeitar certa coerência e linearidade biográficas".

Sozinhos, Mariana e Ângelo produziram esse curta-metragem a fim de preservar uma "intimidade familiar". Portanto, além de diretora e montadora, a cineasta executou outras funções como produção, fotografia e o som do filme. "Tomei essa decisão a fim de manter a intimidade de nossos encontros, para que meu avô se sentisse mais livre durante as gravações e seguro para se expressar. Antes mesmo do filme pronto, me interessava muito mais o seu processo de construção, e eu priorizava um processo de filmagem longo e espontâneo. Acredito que reduzir as gravações a apenas nós dois também intensificou nossa vivência", ressalta. Apesar de ter falecido antes de sua estreia, o dramaturgo conseguiu ver o filme pronto. Ângelo faleceu em abril deste ano, aos 84 anos, vítima de um enfarto.

Ângelo constrói, a partir de um olhar íntimo e familiar entre o protagonista e sua neta, um retrato multifacetado do personagem. "Queria entender pelas imagens e pelo processo de criação das mesmas, o que se passa entre micro relações, nesses mundos que se criam entre poucas pessoas, entre duas no caso. Relações de cumplicidade, de acordos pelo olhar, de trocas de saberes, de escutas e cuidado. Acredito que levantar questões como essas é também refletir sobre micropolíticas, para mim um tema muito importante", conta a cineasta.

Mariana afirma que o curta é também uma homenagem às nossas relações mais íntimas, mas que, pelo naturalismo da coisa, podem passar despercebidas, sem trazer algo novo. "Importante é estar atento, desvelar cotidianos, oferecer novos olhares e ouvidos para tudo o que nos cerca. Sigo tentando descobrir o que se esconde por detrás desses panos, buscando novas possibilidades de partilhas nos dias comuns. O filme é uma celebração da existência desse ser: Ângelo. Um gesto amor. Criar também é isso, afinal", revela.

SERVIÇO

Difícil é não brincar, de Papoula Bicalho, no 31 Festival de curtas-metragens de São Paulo

Data da Mostra: 20 a 30 de agosto

Data de exibição do filme: dia 22, às 19h; depois, entre os dias 27 e 30, pela plataforma do Festival

Site: https://2020.kinoforum.org/

Programação inteiramente online e gratuita


Ângelo, de Mariana Machado, na 9ª edição da Mostra Cine Ecofalante de Cinema

Data da Mostra: 12 de agosto a 20 de setembro

Data de exibição do filme: a partir de 13 de agosto, por 24 horas

Site: https://ecofalante.org.br/

Programação inteiramente online e gratuita


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