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18/08/2020 | domtotal.com

Marcelo Adnet no 'Roda viva'

Um humorista de opinião metendo os pés pelas mãos

Marcelo Adnet no 'Roda viva'
Marcelo Adnet no 'Roda viva' (Reprodução/ TV Cultura)

Alexis Parrot*

Tudo começou muito bem, com uma chamada feita pelo próprio Marcelo Adnet imitando João Dória, Bolsonaro e Trump, para anunciar que seria o próximo entrevistado do Roda viva. Encarnando a si próprio, o humorista terminava o vídeo dizendo que o convite para ele era um prazer e uma honra, reconhecendo o lugar devido do programa de marco da televisão brasileira.

Mas, ao assistir a transmissão ao vivo da entrevista na noite da última segunda, o desânimo foi abatendo o telespectador; em parte devido à performance do entrevistado e muito graças à certeza que o Roda viva definitivamente já viveu dias melhores.

A começar pelo seu cartão de apresentação, a apresentadora Vera Magalhães. Pode parecer inapropriado, mas vou tratá-la da mesma forma com que ela, em 2016, tratou a então presidenta Dilma Roussef. Em 14 de abril daquele ano, em sua coluna na Veja, Magalhães publicou o seguinte: "nos últimos dias antes da votação da abertura do processo de impeachment contra ela, Dilma Roussef abriu espaço na agenda para cortar o cabelo e retocar a tintura". E seguiu, reproduzindo declarações de Celso Kamura, cabeleireiro oficial da presidência, sobre as madeixas de Dilma: "está muito armado" e "está desbotado mesmo".

Tratar como notícia o que não é já seria o suficiente para alguma crítica, mas a jornalista passou da medida ao usar as frases do hair stylist para desenhar uma metáfora capenga da situação do governo, além de insinuar uma Dilma fútil e desinteressada.  

Como para ela irrelevância jornalística e maledicência parecem ser mero eufemismo, tenho certeza de que não vai se importar se eu disser que ela mesma, com aquele corte de cabelo retrô à Liza Minelli , estava especialmente mal vestida. Com um casaco de couro multicor berrante em castanho, amarelo e grená, mais os cílios extremamente alongados, lembrava muito a boneca Emília, famosa pelos trajes feitos de retalhos e os olhos de retrós preto.  

Não desejo pegar muito pesado com a apresentadora, afinal, está vivendo seu inferno astral. Após ter se declarado contra o candidato Haddad na última eleição e uma carreira inteira dedicada ao antipetismo, bastou ter se levantado contra Bolsonaro para ganhar o ódio dos bolsominions, que a chamam agora de comunista e esquerdista pelas redes sociais afora.

Para dizer que o programa observa as regras de distanciamento social, o painel de sabatinadores tem sido drasticamente reduzido durante este tempo de quarentena para que haja o distanciamento mínimo exigido entre cada um de seus membros. Pelo mesmo motivo, a participação do entrevistado se dá de forma não presencial. Sua imagem surge no centro da arena por meio de uma traquitana bem executada em que três enormes monitores de smart TV, amarrados verticalmente sobre um pedestal, formam uma espécie de triângulo.

Uma vez que a preocupação com o isolamento é tão grande, causou estranheza a presença do eterno casseta Hélio de La Peña na bancada. Tanto ele quanto Adnet moram no Rio e o programa é gravado nos estúdios da emissora, no bairro da Água Branca, em São Paulo. Se o entrevistador pôde viajar, por que o entrevistado não? O que parecia responsabilidade e zelo com a saúde dos participantes acabou se desnudando em pura fachada – com um quê de hipocrisia. 

Adnet, por mais méritos que tenha como humorista e artista, foi mais um dos convidados escolhidos a dedo na tentativa de desgastar a imagem de Bolsonaro; uma estratégia que, se não está coalhada de impressões digitais do governador Dória, é feita sob medida para atender suas pretensões eleitorais para 2022 – que se aproxima a galope (Sobre este assunto, escrevi um artigo em setembro de 2019).

Conversou-se mais sobre política do que sobre humor, o que não é de estranhar, dado o humor extremamente politizado praticado por Adnet, ultimamente em cartaz no excelente programete diário Sinta-se em casa, do Globoplay.

Para ele, sua abordagem do humor baseia-se na formação de jornalista. É a partir do noticiário que bola suas piadas, e, muitas vezes, apenas a simples reprodução é necessária para fazer rir; no máximo usando apenas o acréscimo de um "molhinho" para amarrar o esquete. A revelação foi feita a partir de pergunta do "seu casseta" em que lembrou a condição do Brasil de "país da piada pronta".

No geral, o humorista mostrou-se o que de fato é, um humanista de esquerda, porém, patinou nos momentos em que se viu acuado ou mesmo quando foi traído pela própria retórica.

Questionado por Marcelo Tas sobre a autodefinição de esquerdista, capitulou quando o apresentador do Provoca lhe jogou na cara os exemplos de Cuba e China (este último, é necessário dizer, o regime comunista mais capitalista do planeta). Além de contrapor a provocação de Tas com o lugar-comum "Libéria", defendeu a necessidade de definir melhor a palavra "esquerda". No fim, debandou da posição anteriormente assumida para declarar-se "progressista", como quem quer terminar a conversa.

O gancho foi aproveitado pelo escritor Antonio Prata, que lembrou tratar-se de uma denominação vaga. Compreendendo desde Boulos, do PSOL, até o Partido Novo (como bem delimitado por Prata e acatado por todos os presentes), o termo é, senão insuficiente, inócuo.

Outra escorregadela aconteceu quando da colocação equivocada de Bruna Braga. Talvez a intenção de formular mais declarações de ativismo do que perguntas propriamente ditas tenha levado a comediante de stand-up ao engano, apontando um suposto "embranquecimento do humor brasileiro", no que contou com a anuência de Adnet. 

Foi necessária a intercessão de La Peña para que importantes pingos fossem colocados sobre os is. Corretamente, declarou ser impossível o embranquecimento de algo que sempre foi branco, produzindo a melhor reflexão da noite.

Assertiva como De La Peña, a jornalista da Folha Anna Virginia Baloussier (com a ajuda da apresentadora) cobrou um posicionamento sobre as denúncias de assédio sofridas por Marcius Melhem que acabaram redundando em sua demissão do cargo de supervisor de humor na Globo. Apesar de se declarar sempre do lado da vítima e negar uma proximidade mais amiúde com Melhem, se enrolou e acabou defendendo os dois lados da balança, cometendo uma patente omissão.

Um dos grandes problemas do Adnet enquanto entrevistado é o falar demais. Apesar de inteligente e articulado, por não saber a hora de parar, acaba dizendo o que não deve e mete os pés pelas mãos.  

Graças à sua presença no time de compositores do samba-enredo que a São Clemente levou o ano passado para a avenida, Bassoulier voltou à carga e perguntou se ele se sentiu à vontade, como homem branco e hetero, em um lugar de destaque no carnaval (algo pelo qual foi criticado nas redes sociais, como se, de alguma maneira, estivesse usurpando um direito de membros da comunidade da escola).

A resposta até que ia bem, defendendo a pluralidade tanto no evento quanto na parceria entre os compositores de samba, até que ele me sai com essa: "Nós, homens brancos, heteros, investirmos no carnaval de coração, estarmos lá nos ensaios, aplaudindo os passistas e as passistas, toda a comunidade, valorizando o mundo do samba, acho que é uma maneira da gente chamar atenção pra esse mundo também" – como se o carnaval precisasse dessa validação.

O ato falho desnecessário embaçou o brilhantismo do comediante. Apesar de todas as boas intenções e o talento gigantesco, a presença de Marcelo Adnet no Roda viva não deixou boas lembranças.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve Às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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