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20/08/2020 | domtotal.com

Fracasso de liderança de Trump custou vidas nos EUA, diz Kamala Harris

Democratas têm apresentado Trump como um presidente inexperiente, incapaz de liderar o país em um momento de crise. Kamala Harris é vista como injeção de entusiasmo ao voto latino

Para Kamala Harris, Donald Trump é um presidente que
Para Kamala Harris, Donald Trump é um presidente que "torna nossas tragédias em armas políticas. Foto (Olivier DOULIERY/AFP)
O candidato democrata Joe Biden e a companheira de chapa Kamala Harris em Wilmington, Delaware, em 12 de agosto de 2020
O candidato democrata Joe Biden e a companheira de chapa Kamala Harris em Wilmington, Delaware, em 12 de agosto de 2020 Foto (Olivier DOULIERY/AFP)

A noite mais esperada da convenção democrata foi marcada pelas duras críticas ao presidente Donald Trump feitas pela senadora Kamala Harris, vice na chapa de Joe Biden, e pelo ex-presidente Barack Obama. Em um dos discursos mais contundentes contra o republicano desde que deixou a Casa Branca, Obama disse que Trump nunca "sentiu o peso do cargo" e tratou a presidência como se fosse um reality show para ganhar atenção.

A senadora norte-americana Kamala Harris (Califórnia) disse no discurso no qual aceitou a nomeação como vice-presidente na chapa do partido democrata na disputa à Casa Branca, em novembro que "o fracasso da liderança" do presidente Donald Trump "custou vidas e os meios de sobrevivência" de milhares de famílias nos EUA, pois não combateu de forma apropriada a pandemia do novo coronavírus.

Kamala Harris destacou que os EUA hoje são "uma nação em sofrimento, com perda de empregos e de estabilidade. "Estamos em um ponto de inflexão. O caos constante nos deixa à deriva. A incompetência nos deixa com medo. A insensibilidade nos leva a sentir que estamos sozinhos", destacou a vice de Joe Biden. "Mas podemos muito mais e melhor. Precisamos eleger um presidente que trará algo diferente, algo melhor. Um presidente que nos unirá. Devemos eleger Joe Biden."

Para Kamala Harris, Donald Trump é um presidente que "torna nossas tragédias em armas políticas." Ela ressaltou que Biden será o presidente que "tornará nossos desafios em propósitos e construirá uma economia que não esquecerá de ninguém."

De acordo com Kamala Harris, Joe Biden combaterá o "racismo estrutural" que existe nos EUA. "Não há vacina contra o racismo. Temos que trabalhar para combatê-lo", disse.

Ataques a Trump

Para Obama, a consequência do trabalho de Trump são 170 mil americanos mortos. "Milhões de empregos perdidos. Nossos piores impulsos soltos, nossa orgulhosa reputação ao redor do mundo diminuída drasticamente e nossa democracia e nossas instituições ameaçadas como nunca antes", disse Obama.

A eleição deste ano, segundo Kamala, é um "ponto de inflexão". "O caos constante nos deixa à deriva. A incompetência nos dá medo. A insensibilidade nos faz sentir sozinhos. É demais", afirmou a senadora. "Neste momento, temos um presidente que transforma nossas tragédias em armas políticas. Joe será um presidente que transformará nossos desafios em propósitos."

O discurso de Obama foi um tom acima do que ele costuma adotar. Desde 2017, ele tem feito poucas e pontuais aparições. A ex-primeira dama Michelle Obama já relatou que o silêncio do marido, em alguns momentos, a incomoda.

"Eu nunca esperei que meu sucessor fosse abraçar minha visão ou continuar minhas políticas. Mas eu esperava, pelo bem do nosso país, que Donald Trump pudesse mostrar algum interesse em levar o trabalho a sério, que ele sentisse o peso do cargo e descobrisse alguma reverência pela democracia que fora colocada sob seus cuidados. O que ele nunca fez", disse o ex-presidente. "Ele não mostrou interesse em trabalhar. Nenhum interesse em tratar a presidência como algo além de um reality show que ele pode usar para obter a atenção que deseja."

Nas últimas três noites, os democratas têm apresentado Trump como um presidente inexperiente, incapaz de liderar o país em um momento de crise e sem comprometimento com os americanos. "Donald Trump é o presidente errado para este país", disse Michelle Obama, na segunda-feira.

Nesta quarta, 19, Obama repetiu a mensagem de sua mulher. "Donald Trump não cresceu no cargo porque ele não consegue", afirmou o ex-presidente. Hillary Clinton, ex-secretária de Estado e candidata derrotada em 2016, também discursou e seguiu a mesma linha. "Eu gostaria que Donald Trump tivesse sido um presidente melhor. Mas, infelizmente, ele é quem ele é", afirmou.

A receita de apresentar Biden como a única alternativa para retirar o país da crise foi repetida nos três dias da convenção, mas ganha mais importância na voz de Obama, que teve Biden como vice. "Há 12 anos, quando comecei uma busca por um vice-presidente, não sabia que encontraria um irmão", disse Obama.

Para vencer, Biden precisa que um eleitorado tipicamente democrata se empolgue para votar em escala maior do que o registrado quando Hillary disputou a eleição. Por isso, é crucial motivar jovens, negros, latinos, mulheres e moderados desgostosos com a política.

A noite de ontem oficializou o nome de Kamala como a primeira mulher negra a disputar a vice-presidência dos EUA por um grande partido. Ao falar de sua trajetória pessoal, a senadora disse que está comprometida com valores que aprendeu com sua mãe - uma imigrante indiana. "Uma visão de país como sendo uma comunidade amada, onde todos são bem-vindos, não importa a aparência, de onde viemos ou quem amamos", disse.

Os democratas também fizeram um apelo para os que os eleitores se mobilizem para votar. Como o voto não é obrigatório nos EUA, o comparecimento pode ser crucial. Foi essa a mensagem passada por Hillary, que teve 3 milhões de votos a mais que Trump, em 2016, mas perdeu no colégio eleitoral. "Por quatro anos, as pessoas me disseram: 'Não percebi o quanto ele era perigoso'. 'Gostaria de poder voltar e fazer de novo'. Ou pior: 'Eu deveria ter votado'", disse Hillary. "Chame um amigo e use uma máscara. Não importa, vote como se suas vidas estivessem em jogo. Porque elas estão."


Entusiasmo ao voto latino

"Diga-me com quem andas e te direi quem és", afirma um anúncio da campanha de Joe Biden, o primeiro em espanhol e inglês desde que o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos anunciou Kamala Harris como sua companheira de chapa. "Uma aliada, uma defensora da comunidade latina".

Como uma mulher não branca, filha imigrantes, Kamala Harris leva para a campanha uma forte dose de emoção e entusiasmo que ajudará a mobilizar o voto dos hispânicos, majoritariamente contrários ao presidente Donald Trump.

Os latinos serão pela primeira vez a principal minoria étnica em uma eleição presidencial, com uma projeção recorde de 32 milhões de eleitores, 13,3% do total, segundo o instituto Pew.

Nas eleições de 2018, quando o Partido Republicano de Trump perdeu o controle da Câmara de Representantes, 69% dos latinos votaram em candidatos democratas.

Christine Marie Sierra, professora emérita de Ciências Políticas da Universidade do Novo México, explica à AFP que a tendência a favor do partido de oposição persistirá, mas afirma que a entrada de Harris na chapa "pode mudar o nível de entusiasmo, o que se traduz em maiores índices de votação e possíveis vitórias em eleições acirradas".

"Harris representa uma história de imigrantes, filha de uma indiana e um jamaicano, e isso gerou muita emoção entre as comunidades de imigrantes", completou.

Uma pesquisa da 'Latino Decisions' mostra que 59% dos eleitores latinos entrevistados em estados chave nas eleições ficaram entusiasmados com a indicação de Harris como candidata a vide de Biden. Além disso, 52% afirmaram que sua presença os deixou mais propensos a votar no ex-vice-presidente de 77 anos.

"A escolha de Harris é uma oportunidade para que Biden capitalize o voto latino e mobilize os jovens eleitores latinos", escreveu Anais López, analista da 'Latino Decisions'.

Kamaka Harris -que seria a primeira mulher e a primeira pessoa não branca a ocupar a vice-presidência em caso de vitória de Biden na eleição de 3 de novembro - será a principal oradora desta quarta-feira na convenção democrata, precedida pelo ex-presidente Barack Obama.

Passado de migração

Criticado pela gestão da pandemia e abalado pela crise econômica, Trump voltou a apelar ao discurso antimigração para motivar sua base e tentar a reeleição.

"Ele não vê os imigrantes como humanos", critica Juan Escalante, um ativista venezuelano protegido pelo DACA, programa criado por Obama - que permitia estudos e trabalho a centenas de milhares de pessoas que chegaram sem documentos ao país quando ainda eram crianças com os pais - e foi eliminado Trump.

Biden enfrenta perguntas por seu histórico sobre imigração quando era vice-presidente de um governo que deportou quase três milhões de pessoas sem documentos.

"Seu histórico de imigração talvez não seja o melhor, mas ele está tentando encontrar soluções reais para erros do passado", disse Escalante, um cientista político.

Biden, um moderado, prometeu restabelecer o DACA, apresentar uma legislação no Congresso para legalizar 11 milhões de imigrantes sem documentos e reverter as políticas de asilo de Trump.

TPS para Venezuela

Em 2016, Trump obteve 30% do voto latino, entre os cubano-americanos, que tendem a apoiar os republicanos, mas também dos veteranos de guerra e dos evangélicos centro-americanos.

E a Flórida concentra boa parte dos eleitores hesitantes a apoiar os democratas.

Christian Ulvert, estrategista do Partido Democrata com base em Miami, explica que a formação está conquistando os descendentes de cubanos mais jovens, assim como a comunidade colombiana e porto-riquenha.

Com muitos indecisos, o partido quer fazer uma campanha "agressiva", na qual Harris "aporta um grande valor", disse à AFP.

Outro tema que passa pela Flórida é a Venezuela e a relação de um possível governo Biden-Harris com Nicolás Maduro, chamado por Trump de ditador e objeto de várias sanções.

Harris já afirmou que Maduro "é um ditador repressivo e corrupto" e prometeu estimular um estatuto de proteção (TPS) para os venezolanos.

Mas se declara contrária a uma intervenção militar que os venezuelanos mais radicais exigem... muitos deles em Miami, convencidos de que Trump, de fato, irá à guerra.


AFP



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