Brasil

20/08/2020 | domtotal.com

Bem-vinda, senhora assombração

De repente, no meio da noite, somou-se às vozes e ao violão o som doce de uma flauta

Não sei se faziam para mim, mas parecia que sim, porque o som do violão, da flauta e das vozes parecia vir bem debaixo da janela
Não sei se faziam para mim, mas parecia que sim, porque o som do violão, da flauta e das vozes parecia vir bem debaixo da janela (Pexels / Pixabay)

Afonso Barroso*

Certas coisas são absolutamente misteriosas nesta vida louca. Conheço gente que jura ter visto pessoas que já passaram desta vida para outra nem sempre melhor, almas do outro mundo ou mesmo assombração. E não é gente que mente.

Comigo aconteceu algo parecido, mas não foi exatamente assombração, foi bem diferente e muito real. Eu conto, porque não tenho segredos, não sou de esconder nada do que acontece comigo. E não sou gente que mente. Felizmente.

Estava eu passando uns dias na minha terra, Jacuri, aonde costumo ir para visitar minha única irmã ainda viva que nem eu, minha querida Zina, além dos sobrinhos que eu prezo muito e alguns poucos amigos que sobraram dos meus tempos de criança e adolescente. Fico hospedado na casa de um dos sobrinhos, casa velha e hoje reformada onde meus pais criaram a grande família Barroso.

Como sempre me deito cedo, às 11 da noite já estava debaixo das cobertas, depois de ter rezado minhas orações da noite e fechado os olhos pra pensar na vida antes do sono. Dormi. Lá pela madrugada, sei lá a que horas, acordei com os acordes de uma seresta. Não sei se faziam para mim, mas parecia que sim, porque o som do violão, da flauta e das vozes parecia vir bem debaixo da janela.

Fiquei ouvindo. Era mesmo bonito. E surpreendente, porque eu pensava que não se fazia mais seresta como antigamente. Mas aquela era assim, cheia de recordações de um tempo longínquo, enfeitado de belas vozes e dando vida às horas mortas da noite. Com acompanhamento perfeito, uma voz masculina cantou As rosas não falam, de Cartola. Depois, uma lindíssima voz de mulher cantou uma música que eu não conhecia, parece que do repertório religioso. As vozes se misturaram em dueto cantando uma toada antiga, Prece ao vento, esta com acompanhamento também de uma flauta doce, coisa de encantar qualquer noite escura. Outra canção bonita, Rastros na areia, foi interpretada de forma impecável pelo cantor.

Estava tão bonito que eu resolvi abrir a janela e convidar os seresteiros para entrar. Pensei em fazer um café e oferecer a eles com pedaços de um bolo muito gostoso que a mulher do meu sobrinho, exímia cozinheira e confeiteira, havia feito pra saudar a minha estada com eles. Enquanto cantavam a última canção, levantei-me, me vesti e abri a janela, mas... não vi ninguém. O som se interrompeu misteriosamente. Percebi que chovia uma chuva fina, imprópria para serenatas e para a afinação de violões.

Esfreguei os olhos, olhei a rua acima e abaixo... Nada, ninguém, nenhuma alma viva. A rua deserta, coberta pela bruma do orvalho, escondia um mistério que eu não podia desvendar. Tinha certeza de que não estava sonhando.

Fechei a janela, encucado, mas sem medo e tomado de estranha felicidade. Quem dera que toda assombração viesse acompanhada de vozes tão bonitas e um violão doce como a flauta que de repente soou durante a seresta.

Sim, meu caro amigo e minha amantíssima amiga, isso aconteceu comigo. No Jacuri acontece de tudo, pode crer.  É um lugarzinho do outro mundo.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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