Religião

21/08/2020 | domtotal.com

Pedro Casaldáliga: uma hermenêutica viva do Evangelho

O bispo emérito da prelazia de São Felix do Araguaia foi pobre e para os pobres

No lugar de uma mitra que remete à ideia de coroa, Pedro escolheu o chapéu de palha, como o de tantos trabalhadores, o que expressava sua disposição ao serviço
No lugar de uma mitra que remete à ideia de coroa, Pedro escolheu o chapéu de palha, como o de tantos trabalhadores, o que expressava sua disposição ao serviço (Unsplash/Denisse Leon)

Rodrigo Ferreira da Costa*

Será que o Evangelho pregado por Jesus de Nazaré e testemunhado por seus discípulos ainda é possível em nossos tempos? Noutras palavras, será que acreditamos que o projeto de Reino de Deus inaugurado por Jesus é de fato um modus vivendi possível ou apenas um discurso idealista, inalcançável? Às vezes penso que a nossa pregação e principalmente o nosso testemunho carecem dessa convicção. Por isso, ao invés da encarnação do Evangelho com toda a sua força profética transformadora, preferimos uma espiritualidade "do verniz" que mascara a realidade, mas que em suas estruturas mais profundas, permanece pagã e opressora. Talvez este seja um dos diferenciais de Pedro Casaldáliga, um cristão-bispo que acreditava que o Reino de Deus era uma realidade possível e, por isso, encarnou o Evangelho na vida, fazendo da justiça e da libertação, sua bandeira de luta.

Numa carta pastoral de 1971, logo no início de seu ministério à frente da prelazia de São Felix do Araguaia, Pedro afirma: "Ou possibilitamos a encarnação salvadora de Cristo neste meio, ao qual fomos enviados, ou negamos nossa fé, nos envergonhamos do Evangelho e traímos os direitos e a esperança agônica de um povo que é também povo de Deus: os sertanejos, os posseiros, os peões, este pedaço brasileiro da Amazônia. Porque estamos aqui, aqui devemos comprometer-nos. Claramente. Até o fim". Encarnar o Evangelho para não trair a esperança do povo de Deus. Eis o caminho trilhado por dom Pedro.

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O papa Francisco na exortação apostólica Evangelii Gaudium, diz que "não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, 'os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho', e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!" (EG, n. 48). Dom Pedro também pensava assim. Por isso, mesmo sofrendo todo tipo de perseguição dentro e fora da Igreja, a sua opção pelos pobres foi sempre clara e radical. Porque para Pedro, "a fé são os olhos, mas a situação de dor/libertação que a América Latina vive é a ótica propícia para ler a Bíblia hoje aqui". Eu mesmo tive a oportunidade de conhecer a Igreja de São Felix e visitar dom Pedro Casaldáliga em sua residência... Não precisa muita explicação. Tudo ali é sinal do Reino: da Catedral à residência episcopal. Um bispo pobre, para os pobres!

O papa emérito Bento XVI na exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini afirma que "a interpretação da Sagrada Escritura ficaria incompleta se não se ouvisse também quem viveu verdadeiramente a Palavra de Deus, ou seja, os santos" (VD n. 48). Pois "a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efetuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus" (VD, n. 49). Não tenho dúvidas de que Pedro Casaldáliga foi uma hermenêutica viva do Evangelho. Pois ele fez do Evangelho sua regra de vida e "na dúvida, permaneceu do lado dos pobres".

Preocupado em "nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar", Pedro fez do seu ministério, sua poesia e sua vida um canto à solidariedade. E nos deixa um legado profético que ficará marcado para sempre na história da Igreja do Brasil e da América Latina, porque passou entre nós um profeta! Um homem que intuiu que falar de Deus é defender a vida ameaçada. Citando Dietrich Bonhoeffer, Pedro afirma: "ser cristão pode consistir, hoje em dia, em apenas duas coisas: orar e ser justo para com os homens. Tudo o que dissermos e organizarmos em âmbito cristão deve ser verificado pela oração e pela justiça".

Se as bem-aventuranças (Mt 5, 3-12) são "como que o bilhete de identidade do cristão" (papa Francisco), e se nelas "está delineado o rosto do Mestre que somos chamados a deixar transparecer no dia a dia da nossa vida", então podemos afirmar sem medo que Pedro Casaldáliga trilhou um caminho de santidade, autêntico e atual. Porque ele viveu de maneira radical o espírito das bem-aventuranças e, fez da regra de comportamento do juízo final (Mt 25, 31-46), o seu evangelho da vida.

Pedro faz agora a sua páscoa definitiva, mas deixa-nos um legado inquietante: que rosto de Igreja queremos para a nossa América Latina, tão sofrida e banhada de sangue? Uma Igreja tímida que têm medo de perder privilégios, e por isso, não consegue ser profética, ou uma Igreja "em saída", muitas vezes ferida e enlameada, porém, que assume a causa dos pobres e injustiçados e não faz "acordos" com os poderosos?

Se o testemunho dos santos nos "incitam a não deter-nos no caminho, nos estimulam a continuar a correr para meta", dom Pedro Casaldáliga será para nós uma inspiração profética que sempre nos recorda que o Evangelho de Jesus de Nazaré é possível, basta que tenhamos a docilidade ao Espírito Santo que a cada manha "desperta os nossos ouvidos para que como discípulos possamos escutar" (cf. Is 50, 1-4) e a coragem de assumir a causa dos pobres e sofredores, mesmo que isso nos custe a própria vida.

Nossas breves palavras acerca desse grande homem são quase um nada diante da imensidão de ensinamentos e testemunhos deixados por ele. Não é nosso objetivo aqui escrever sua biografia, para isso, teremos vozes muito mais autorizadas que com certeza o farão. Talvez pudéssemos usar as próprias palavras de dom Pedro que afirma: "Quem fica na floresta um dia, quer escrever uma enciclopédia, quem passa 5 anos, fica em silêncio para perceber o quanto é profunda e complexa a Criação". Diante de um profeta que soube viver uma espiritualidade tão profunda e encarnada na vida dos pobres, dos índios e dos marginalizados, que enfrentou perseguições e fez da vida um evangelho vivo, talvez a nossa melhor atitude fosse contemplar e orar para que do céu ele rogue a Deus por nós, a fim de que o Senhor nos conceda ao menos uma porção do seu espírito, a fim de que cada batizado possa tornar-se também uma hermenêutica viva do Evangelho de Reino.

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia – Arquidiocese de Teresina-Piauí.



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