Religião

21/08/2020 | domtotal.com

Pedro: profeta e poeta

Dom Pedro contemplava a Deus como 'Beleza sem ocaso', como o 'Amor inesperado', como Deus, simplesmente

No lugar do anel episcopal que simboliza autoridade e dignidade, Pedro escolhe o anel de tucum, que representa o compromisso com os pobres
No lugar do anel episcopal que simboliza autoridade e dignidade, Pedro escolhe o anel de tucum, que representa o compromisso com os pobres (Wikimedia/Denisse Leon)

Eduardo César*

"No final do meu caminho me dirão: 'E tu, viveste? Amaste?' E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes" (Dom Pedro Casaldáliga).

Quando um grande homem como Pedro Casaldáliga morre, resta um sentimento de orfandade. Esse sentimento poderia ser explicado a partir de muitas óticas. Uma delas, certamente, é a constatação de que esses grandes referenciais, como luminares que mostraram o caminho, vão se apagando pouco a pouco e o caminho mesmo vai se tornando um tanto mais escuro, mais desesperançoso. Não por que a morte de Pedro seja um prenúncio da morte da Teologia da Libertação; prenúncio já feito tantas vezes, antes mesmo de seu falecimento. Não por que signifique um abalo na ala progressista da Igreja, como gostam de vociferar os que se identificam como ala tradicionalista. Mas, porque, nas palavras de Pedro, "a sábia loucura do santo Evangelho tem poucos alunos que a levam a sério". Por isso, a morte de Casaldáliga faz os olhos embaçarem, sobretudo num momento tão dramático da nossa história, necessitado de profecia e poesia.

Mas seria uma desonra ao nome de Pedro se a desesperança tomasse conta de nós. É nesses momentos que nos asseguramos de que sua memória não se apaga, de que o luminar que ele foi continua tão brilhante como antes e que sua vida acende em nós também uma nova claridade: há caminho a fazer e a abrir. Um caminho em que não se esqueça dos menores desta terra. Seu legado é sua profecia e sua poesia, (re)animando a esperança e a coragem. E, nas palavras de Casaldáliga, "a esperança é um ato de rebeldia". Mesmo que não gostasse de ser chamado de dom Pedro, sua vida, toda ela, foi feita dom. E um dom que agora, como grão, caindo na terra, às margens do Araguaia, deixa muitos frutos.

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Casaldáliga queria ser identificado como o "irmão", em especial dos que não têm ninguém por eles. Lutou, para tanto, contra o colonialismo, contra a elite e seus crimes, criticou abertamente o mundo dividido por muros e cercas, denunciou o latifúndio e defendeu a construção do Reino de Deus para já. Ao invés de deturpar o Reino de Deus em um moralismo excessivo e obsessivo; ao invés de pensar o Reino de Deus como um projeto futuro reservado apenas para depois da morte, Casaldáliga sabia que o Reino de Deus é uma ética comprometedora, que começa nessa vida e que consiste em identificar a vida e o destino a Jesus Cristo. Foi isso o que fez, com seu anúncio e denúncia. Defendeu o direito dos indígenas e quilombolas, protestou contra a exploração depredatória da natureza, da terra de todos, execrou o garimpo, a agricultura exploratória e defendeu o fim das desigualdades, o direito à terra e uma ecologia integral. Seu exemplo faz eco à vida de Francisco de Assis, Oscar Romero e faz pensar, hoje, nos passos que trilha o papa.

Esse profeta fazia versos. Num desses, dizendo de si mesmo, atestou: "me chamarão subversivo. E eu lhes direi: eu sou. Por meu povo em luta, vivo. Com meu povo em marcha, vou". Unindo o vigor do profeta e a ternura do poeta, Casaldáliga acreditava: "só vivendo a noite escura dos pobres, é possível viver o Dia de Deus. As estrelas só se veem de noite". Nesses versos é possível entrever a largueza de seu coração, compadecido das dores do mundo, apaixonado por aqueles que Cristo escolheu. Uma vida dessas, por mais que lamentemos sua morte, não morre mesmo. Continua pulsando nos seus textos, nos seus versos, na força de seu testemunho, naqueles que inspirados por ele, continuam suas trilhas.

Seus poemas são abertamente desafiadores. Profetizam um latifúndio que confessa seus crimes: "por ande passei, plantei a cerca farpada, plantei a queimada. Por onde passei, plantei a morte matada... eu plantei o nada". Denunciam a morte dos índios que tiveram suas terras roubadas por fazendeiros: "Debaixo da terra os mortos pedem os cantos da tribo... e só respondem os bois calcando a paz invadida". Evidenciam que Jesus é pobre com os pobres: "No ventre de Maria, Deus se fez homem. Mas, na oficina de José, Deus também se fez classe". Reclamam a falta de comprometimento da Igreja, encastelada em seu poder sagrado: "Nossa Madre Igreja melhorou de modo, mas tem muita cúria e carisma pouco. Frades e conventos criaram vergonha, mas é mais no jeito que por vida nova. Muitos tecnocratas e poucos poetas. Muitos doutrinários e menos poetas". Reza ao Deus de todas as cores pedindo para o povo negro desta nossa África mãe, "a teimosa resistência de seus lutadores e mártires".

Pedro também fez a oração da causa indígena, chamando Deus de "Tupã de nossos pais e mães", reclamando dele a graça da reconquista das terras indígenas, na vivência da própria cultura e da liberdade. Seus poemas não eram menos incômodos do que sua vida. Eles atacavam os pretensos donos desse mundo: "malditas sejam todas as cercas. Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e de amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos".

E para não dizerem que ele se esqueceu de que a causa primeira é Deus, fazendo dos pobres, negros e indígenas a causa primeira, enquanto eles deveriam ser identificados como causa segunda, assim como querem alguns teólogos muito clássicos, Pedro falou de Deus. Mas seu Deus se revela em Jesus Cristo e Jesus se configura a todos os que sofrem. Seu Deus é o Deus da vida, não o da sistemática clássico-tomista. Seu Deus é contra a necropolítica que agora está tão evidente no (des)governo bolsonarista. Seu Deus continua sendo contra o poder sagrado que se coaduna com o poder político e o apoia. Ou se cala num silêncio omisso.

Pedro Casaldáliga fez versos e acreditava em Deus. Num Deus que não é simplesmente a beleza, segundo ele. Que não é simplesmente a verdade. Que não é simplesmente a alegria. E acrescentava: "eu não sei se poderia conviver com os pobres se não topasse com Deus em seus farrapos; se não estivesse Deus, como uma brasa, queimando meu egoísmo". Deus era, portanto, como uma brasa, mas também como a aurora: "uma aurora quebrando minha névoa e meu cansaço", dizia. Ele contemplava a Deus como "Beleza sem ocaso", como o "Amor inesperado", como Deus, simplesmente.

Uma vida assim tão larga, um olhar assim tão ampliado, afinal, cabem num túmulo? Não cabem nem num túmulo nem nas proporções do Araguaia; não cabem nem na Ilha do Bananal nem no Mato Grosso inteiro. Uma vida tão enraizada na vida do Cristo, só conhece um destino igual: não um túmulo, mas Deus mesmo.

Uma vida que foi tão ameaçada e perseguida, mas que não tinha o que temer. Daqueles que tudo doam e doam tudo de si, não há o que se possa arrancar, não há o que se lhes possa tirar. São esses os santos e santas de Deus e, no fim, não interessa muito que sejam canonizados ou não. Mesmo a Igreja, como instituição, não dá conta de conter um carisma. Quando um frasco se quebra, o perfume se espalha. Se a Igreja reconhecer Pedro como santo, que seja essa uma declaração de que o perfume do Cristo, o mesmo perfume de Casaldáliga, continua recendendo. E que ainda estamos dispostos a seguir o caminho, contínuo e indispensável do Evangelho, convertendo-nos sempre mais ao que ele nos pede.

Aquele que ganhou como mitra um "chapéu de palha sertanejo, o sol e o luar" e quis ter como báculo um remo de pau-brasil dos índios tapirapé, bem como "a verdade do evangelho e a confiança do povo", levava também consigo um anel que representava a fidelidade ao Deus libertador. Seu cartão-lembrança, o de sua ordenação episcopal, ainda dizia: "não terás outro escudo que a força da esperança e a liberdade dos filhos de Deus, nem usarás outras luvas que o serviço do Amor". Aos seus pés, em seu velório, uma bíblia aberta parecia dizer: benditos foram, são e sempre serão, os pés daqueles que anunciam a paz. Pedro, obrigado, sua vida foi um awere, um amém à vida de Cristo. Axé!

*Eduardo César é padre da Diocese de Uberlândia, graduado em Filosofia pela PUC-Uberlândia e em Teologia pela FAJE, e Psicologia pela Pitágoras de Uberlândia. Está em formação psicanalítica.



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