Religião

21/08/2020 | domtotal.com

Pedro Casaldáliga, o bispo vermelho

Dom Pedro fez da sua vida uma comunhão com os despossuídos da Terra

O bispo catalão Dom Pedro Casaldáliga em sua residência na cidade de São Felix do Araguaia (MT), em outubro de 2006
O bispo catalão Dom Pedro Casaldáliga em sua residência na cidade de São Felix do Araguaia (MT), em outubro de 2006 (Celso Júnior/Estadão)

Se o diálogo de Jesus tivesse sido com o Pedro Casaldáliga e não com o Simão Pedro; se tivesse sido às beiras do Araguaia e não no Lago de Tiberíades, muito provavelmente teríamos algo como: "Pedro, tu me amas? / Senhor, olhe para as pessoas que amei-cuidei, olhe 'para o meu coração cheio de nomes!'", e não teria sido preciso repetir a pergunta. Não se trata, aqui, de querer dizer que um Pedro era melhor que o outro, mas de reconhecer que a vida de Casaldáliga foi, toda ela, uma narrativa evangélica cheia de amor, cheia de adesão à causa de Jesus.

Pedro Casaldáliga, o irmão Pedro, comprometeu-se inteiramente com o Reinado de Deus e, tal como Jesus, tornou-o possível na esperança dos pequenos e últimos, daqueles que estavam ameaçados pelos poderosos que dominam e oprimem. Pedro aprendeu que, entre os seguidores de Jesus e do Reino, não deve ser assim, ao modo da dominação e da opressão. Por isso fez de sua vida um serviço aos empobrecidos de São Félix do Araguaia. Não se deixou escravizar por mitras e báculos, mas na fragilidade de um anel de tucum, simbolizou o que encarnou em toda a sua vida.

A pobreza na qual viveu o irmão Pedro, nem de longe chegou a ser demagógica. Ele não desejava a pobreza: lutou contra ela, mas fez da sua vida uma comunhão com os despossuídos da Terra. Não possuiu nada, porque nada o aprisionava: viveu livre para anunciar, na fragilidade do próprio corpo e na força de sua palavra poética-profética e de sua atuação, o Evangelho do sonho de uma Terra sem males. Foi um bispo vermelho, não pelos motivos que os reacionários ultraconservadores acreditam, mas porque fez da sua missão de pastor um testemunho de solidariedade para com aqueles e aquelas que tiveram o seu sangue derramado no chão, manchado pelo grito contra a injustiça. Pedro foi um bispo vermelho: vermelho-sangue de quem se fez solidário ao grito da vida, indignado com a opressão que fere e mata; vermelho porque se deixou tingir pelo chão em que viveu, o chão vermelho do Araguaia.

Pedro partiu, depois de uma longa jornada de convivência, sofrida mas resistente, com o irmão Parkinson. Pedro partiu, mas não nos deixou: não é preciso dizer que a força do seu testemunho lateja em nós, homens e mulheres desejosos de uma paz verdadeira. Também é inútil dizer, ainda que aqui o façamos, que sua poesia nos encoraja e inspira à luta em prol da Revolução do Evangelho, pois essa inspiração se encarna na vida de tantas pessoas, espalhadas por aí, que têm em Pedro uma escola cheia de fartura de sabedoria. Pedro Casaldáliga é semente! Pedro permanece presente! Não deixaremos de repetir seu nome, enquanto houver algum homem ou mulher vivendo a força iluminadora do Evangelho, porque seu nome nos aponta para o de Jesus.

No Dom Especial da semana passada, fizemos ecoar a voz de três pessoas que puderam experimentar alguma convivência com Pedro. Nesta semana, dedicamo-nos a refletir, ainda mais, sobre a força pulsante do testemunho de nosso bispo vermelho. Rodrigo Ferreira da Costa propõe o primeiro artigo: Pedro Casaldáliga: uma hermenêutica viva do Evangelho, no qual medita sobre a vida de nosso bispo, ressaltando o frescor de sua santidade evangélica. O segundo artigo, Pedro: pastor, profeta, poeta do Reino, a Terra sem males, de Gustavo Ribeiro, conduz-nos à seara profética-poética de Pedro, destacando seu canto pelo sonho de libertação. Sua poesia pulsa tão forte, que no terceiro artigo desse Dom Especial, Pedro: profeta e poeta, Eduardo César nos ajuda a refletir como a poesia de Pedro estava encarnada em sua própria vida, feita ela mesma, dom lírico para o povo do Araguaia.

Boa leitura!



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