Religião

21/08/2020 | domtotal.com

Francisco prepara o fim do pontificado?

O pós-pandemia e o que o futuro pode reservar para o atual sumo pontífice da Igreja Católica

Papa Francisco reza pelo fim do coronavírus em 27 de março de 2020, na praça de São Pedro
Papa Francisco reza pelo fim do coronavírus em 27 de março de 2020, na praça de São Pedro (Vincenzo Pinto/AFP)

Mirticeli Dias de Medeiros*

O tempo irá passar e, sem dúvida, papa Francisco será reconhecido como o pontífice romano que enfrentou uma das maiores crises da era contemporânea. Nenhum outro, na história do catolicismo, "exorcizou" tão veemente uma doença através de seus gestos, palavras e obras de caridade.

É certo que, em muitas dessas situações dramáticas, o trabalho da igreja de Roma foi reconhecido como fundamental. No entanto, estamos diante de um cenário que sinaliza uma mudança de época. E temos um papa que já se prepara para isso. Ele está pronto para colocar a igreja nos trilhos dos novos tempos que virão.

Alguns vaticanistas, colegas nossos, veem a pandemia como a última etapa do pontificado de Francisco, a qual é marcada pela revisão criteriosa de prioridades e, ao mesmo tempo, pela certeza de que a igreja, mais que nunca, deve deixar uma marca indelével para a posteridade. É hora de demonstrar que, muito além de "expedir documentos", como o próprio santo padre fez questão de frisar algumas ocasiões, "a maternidade da instituição deve ser palpável e concreta".

Na catequese da última quarta-feira (19), Francisco deu um outro passo além: destacou que o assistencialismo é importante, mas fez um apelo para que os governos "redesenhem a economia", de modo que o pobre seja colocado no centro de suas ações. E mais: pediu que as autoridades pensem com cuidado antes de investir dinheiro público no resgate de indústrias que não trabalham pela inclusão dos mais necessitados.

O pontífice atual tem sido respeitado não só por causa de sua visão de mundo, mas por atuar, brilhantemente, na gestão de crises. Não à toa, é consultado frequentemente por chefes de estado. Recorrem ao papa não só para apaziguar conflitos, mas para resolvê-los. Francisco não é só bem articulado, mas reconhecido pela comunidade internacional como um líder global.

O historiador italiano Alberto Meloni afirma que a pandemia motivaria "o início do fim" do atual pontificado. Segundo ele, a bênção Urbi et Orbi, na qual o papa rezou sozinho pelo fim da pandemia na praça de São Pedro, em março deste ano, transformou a figura do papa solus - do latim, o papa solitário - em um ícone.

"Não que o papa esteja perdendo o seu poder - acrescenta o historiador -, mas tem sido um momento decisivo para averiguarmos se o vigor evangélico de Francisco será adotado como um estilo de vida por todos ou será calado pela mediocridade de muitos", disse. E questiona se as várias realidades locais estão preparadas para atender aos apelos do papa ou se o deixarão jogado à própria sorte nessa fase de retomada.

Sendo assim, mesmo que ele viva uma solidão "institucional", como alguns interpretam, o mundo o abraça. A pandemia coroaria a conclusão de um pontificado que "não foi feito para a instituição", mas para transformá-la nas bases. É uma grande "reforma espiritual", que mesmo que não passe pela adesão dos próprios católicos, é propagadora de sentido para "os homens de boa vontade".

Por colocar em evidência "as periferias" que nunca foram tão contempladas em documentos pontifícios, ele revela, concretamente, essa face universal do catolicismo, que abarca tudo e todos. É por isso que seu governo, mesmo numa época de pós-cristandade, consegue a façanha de despertar o interesse pelo que a instituição tem a dizer.

Francisco sobe seu calvário, rodeado de inimigos e admiradores. Porém, de maneira heróica, "não quer que ninguém seja deixado para trás", insistindo naquela missão de promover um novo ordenamento social baseado nos valores do cristianismo.

Talvez, esse "dilúvio que nos pegou de surpresa", como ele disse numa das missas celebradas no Vaticano, referindo-se ao coronavírus, tenha atrapalhado ou adiado muitos de seus planos. É provável, inclusive, que isso afete a reforma que ele pretendia executar até o fim do ano.

Muitos católicos, ainda resistentes às moções de Francisco, interpretam o papado como uma mera estrutura de autopreservação. Mal sabem eles que a soberania espiritual do pontífice romano se manifesta, sobretudo, na capacidade de dialogar com o mundo, nas mais variadas esferas.

O que vem pela frente? Um concílio, um sínodo especial ou uma encíclica? Difícil saber. Mas é certo que, independente dos rumos que o pontificado tome daqui pra frente, a pregação de Francisco nunca deixará de privilegiar o ser humano e seus mais duros desafios.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.



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