Cultura

24/08/2020 | domtotal.com

Ir a lugar nenhum

Estou me acostumando, entre livros, a ir a lugar nenhum e estar em muitos lugares ao mesmo tempo

A situação atual da humanidade me faz contemplar com desalento cartões postais velhos e novos
A situação atual da humanidade me faz contemplar com desalento cartões postais velhos e novos (Unsplash/Christopher Flynn)

Ricardo Soares*

De tanto viajar, estou me acostumando agora a ir a lugar nenhum. Há lugares ainda a serem vistos e visitados? Muitos, sem dúvida! Taj Mahal (vige, muita gente), Praga (destino turístico da moda, turistas demais!), Parque Yosemite na Califórnia (Estados Unidos do Trump, tô fora!) e muitos outros destinos cobiçados e não alcançados.

A situação atual da humanidade me faz contemplar com desalento cartões postais velhos e novos e dentro de mim vai minando o desejo de alcançar tantos destinos. Desatinos para quem bateu tanta perna pelo Brasil e pelo mundo. Suprema heresia para viajantes profissionais como Paul Theroux e tantos outros.

O que se passa dentro de mim é uma preguiça cósmica do deslocamento que passou a ser risco de vida. Ou terei me transformado definitivamente num velhote ermitão sem me dar conta da ocasião? Estarei usando a peste como desculpa para não ir além da contemplação e arte de espiar meu próprio jardim, o sono dos meus cães ao sol da manhã, pássaros bicando os mamões que caem do pé ?

Nunca na vida imaginei fazer a apologia da imobilidade, do recolhimento, do apaziguamento de espíritos. "Viagem ao redor do meu quarto" como diria o antológico escritor francês  Xavier de Maistre, inspirador do nosso grande Machado de Assis que tanto viajou mente adentro sem ter feito grandes deslocamentos.

Sim , sempre se pode argumentar que viajar é uma questão de perspectiva, conveniência, até de estado de espírito. Há pessoas sim que viajaram o mundo todo e são idiotas, autômatos, consumistas que fazem do mundo um enorme shopping center. E há aqueles que tendo viajado tão pouco foram tão longe como o já citado Machado de Assis. O que sei é que não consigo me livrar da incômoda sensação de anacronismo que ocupa uma vaga na garagem aqui de casa. Um jipe grande, estacionado faz tempo, já cheio de rodagem que não sabe se um dia vai alcançar nova quilometragem. Tristes tempos onde a geografia se limita por conta de uma doença e não por crença. Por isso estou me acostumando, entre livros, a ir a lugar nenhum e estar em muitos lugares ao mesmo tempo.

*Ricardo Soares é escritor, jornalista, diretor de tv e roteirista. Seu livro mais recente "Devo a eles um romance" está à venda no site da editorapenalux.com.br



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