Cultura TV

25/08/2020 | domtotal.com

Racismo e negritude em Black-ish

Com muito bom humor, crítica implacável e diálogos ferinos, a série vem remexendo feridas abertas da sociedade norte-americana

Elenco de Black-ish na primeira temporada
Elenco de Black-ish na primeira temporada (Copyright ABC / Bob D'Amico)

Alexis Parrot*

Estreou há quinze dias na HBO a série Lovecraft country, verdadeiro libelo contra o racismo e o preconceito. Sua narrativa é amarrada com inúmeras citações à obra do mestre de fantasia e terror norte-americano H. P. Lovecraft e carrega em seu bojo uma enorme ironia e um desagravo - visto que o autor era um desavergonhado supremacista branco.

Traz a marca bem definida de dois de seus produtores, unindo o gosto pelo terror e a crítica social de outros trabalhos de Jordan Peele (de Corra! e Nós) com os efeitos especiais de primeira dos filmes de J. J. Abrams.

Guiada pelo mesmo princípio humanista de denúncia, a série chega para se emparelhar a Watchmen, Mrs. América e Complô contra a América. Colocadas lado a lado, demonstram claramente porque a HBO ainda é a mais importante produtora de conteúdo de teledramaturgia adulta em atividade.

Ao contrário de sua principal concorrente Netflix (que atira para todos os lados tentando agradar a gregos e troianos e aumentar o número de assinantes), o canal por assinatura baseia-se em uma agenda política bem delineada para definir suas produções.

Neste contexto, Lovecraft country parece ser mais relevante do que Watchmen, por trazer artistas negros no comando da produção (além do já citado Peele, Misha Green assumiu o papel de criadora e showrunner da atração). No momento em que negros, índios e LGBTQIs cobram espaço para contar suas próprias histórias em diversas mídias e plataformas, este modelo de equipe mostra o tamanho do engajamento político do canal no quesito representatividade.

Porém, existe uma outra série que consegue vocalizar mais e melhor todas as questões relacionadas à condição do negro no mundo atual e vem fazendo isso desde 2015 - portanto, em um tempo pré movimento Black lives matter. É a sitcom Black-ish, do canal aberto ABC (e disponível no Brasil no Amazon Prime).

O programa acompanha o dia a dia de uma família negra bem-sucedida, a única em um bairro majoritariamente branco, de classe média alta, em Los Angeles. O pai, Dre, é publicitário e a mãe, Rainbow, uma médica cirurgiã, vivem em uma casa ampla com os filhos adolescentes Jr. e Zoe, os gêmeos Diane e Jack. Pops (Laurence Fishburne, o Morpheus de Matrix), o avô mal-humorado, ocupa a suíte de hóspedes no fundo do quintal.

Com muito bom humor, crítica implacável e diálogos ferinos, a série vem remexendo feridas abertas da sociedade dos EUA - uma realidade não muito distante da segregação que ainda impera em nosso próprio território verde e amarelo.

Logo após a vitória de Trump nas eleições de 2016, com o moral lá embaixo, a agência de publicidade em que Dre é vice-presidente se choca com a descoberta de que uma das funcionárias votou no lunático alaranjado. Em meio a acalorada discussão, a moça, acusada de racismo, se defende dizendo "eu tenho amigos negros". Em sua visão equivocada de mundo, nem consegue alcançar o quão racista é o simples fato de ter pronunciado tal frase. É o racismo estrutural, uma distorção entranhada igualmente nas estruturas sociais brasileiras.

A situação relembra Bolsonaro. Sempre que acusado de racismo, ele tenta evitar a conversa usando frases do tipo. Na época em que ainda era deputado, dizia que era impossível ser racista, porque o apelido de eu sogro era "negão". Ou o que comete amiúde agora, sempre que escoltado pelo aliado, o deputado federal Helio Lopes, o Helio Negão. O presidente o chama de irmão, com a diferença que ele saiu mais "queimado".

Valente, o programa não se esquiva da autocrítica. Como no episódio Negros como nós, da quinta temporada, quando o tom de pele de cada um dos membros da família vira motivo para brigas e uma enorme discussão. O colorismo é motivo de preconceito dentro da própria comunidade, como se quem tivesse a pele mais clara fosse menos negro.

Segundo a série, tudo começou na época da escravidão, quando os senhores dividiam os escravos de acordo com o tom da pele. Os mais escuros iam trabalhar nas plantações e aos mais claros eram reservados os serviços domésticos. Esta divisão pode explicar o inicio de um ressentimento que dura até hoje. E no Brasil, não é diferente.

Vale lembrar o caso do musical sobre a vida de Dona Ivone Lara, em 2018. Mesmo com a bênção da própria (que a escolheu antes de morrer, aos 97 anos), a cantora Fabiana Cozza acabou desistindo de interpretá-la nos palcos, após ter sido violentamente criticada nas redes sociais. Para os detratores da escolha, Cozza seria "branca demais" para viver a grande dama do samba.

Naquele que é, provavelmente, o mais emblemático episódio de todas as seis temporadas de Black-ish, a família está reunida em frente à TV, esperando a decisão do júri sobre o indiciamento ou não de um policial que havia agredido um suspeito negro desarmado (Esperança, segunda temporada).

Raiva e revolta se levantam enquanto, magistralmente, o roteiro nos conduz por verdadeiro passeio pelo histórico de violência e abuso que os negros foram submetidos durante toda a trajetória dos EUA como nação. Até mesmo a posse de Obama é lembrada, quando, nas palavras de Dre, ele estava apavorado, esperando que alguma coisa (ou alguém) pudesse tentar impedir que um presidente negro assumisse.

Nada passa desapercebido pelo time de roteiristas da série. Em uma visita à Disneyworld, quando um desconhecido branco o confunde com o jogador de futebol americano Marshawn Lynch, Dre explica para o filho que aquilo foi apenas uma forma lisonjeira de racismo. Em 2017, muito antes da cultura do cancelamento pregar a retirada de estátuas de reconhecidos escravocratas e senhores de escravos, a série já questionava a glorificação de Cristóvão Colombo.

Por abraçar sua temática com tamanha ousadia, a série inova e educa e, ao usar a comédia como veículo, comunica melhor que outras atrações dramáticas que escolheram caminho semelhante. Inspirada por Martin Luther King, ultrapassa o lugar da simples denúncia ao cobrar para a negritude o seu lugar devido de partícipe do sonho americano.

No tempo em que as ruas estão tomadas pelo movimento Black lives matter, Black-ish só reafirma o quão relevante pode ser a televisão.

(Black-Ish - Cinco temporadas disponíveis no Amazon Prime)

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total



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