Religião

26/08/2020 | domtotal.com

Mulheres católicas ainda não têm o direito ao sufrágio em sua Igreja

Liderança feminina é negada sob alegação de que Deus designou homens e mulheres para papéis separados e distintos

Cartão postal anti-sufrágio caricaturava busca das mulheres por igualdade de direitos
Cartão postal anti-sufrágio caricaturava busca das mulheres por igualdade de direitos (Flickr/Women's Library at the London School of Economics and Political Science)

Jamie Manson (Opinion Justice Vatican)

No dia 26 de agosto se comemora o 100º aniversário do dia em que o direito das mulheres de votar foi consagrado na Constituição dos Estados Unidos. A aprovação da 19ª emenda foi o resultado de mais de 80 anos de agitação, piquetes e o lobby de mulheres; algumas ainda passaram pela prisão e foram alimentadas à força quando entraram em greve para protestar contra as detenções.

O momento celebrado como o "início" oficial do movimento sufragista foi a primeira convenção dos direitos das mulheres, realizada em 1848 em Seneca Falls, Nova York. Uma semana antes do evento, os organizadores colocaram um anúncio no jornal local, anunciando-o como uma convenção "para discutir a condição social, civil e religiosa e os direitos da mulher". Mesmo nos primeiros dias da luta pelo sufrágio, as mulheres perceberam e falavam abertamente sobre a necessidade de igualdade não só no governo, mas também na Igreja.

Ao celebrarmos o centenário do sufrágio, é importante para as mulheres, especialmente as católicas, lembrarem os argumentos que os anti-sufragistas fizeram em sua oposição ao direito de voto da mulher. Esses comentários soam assustadoramente semelhantes aos argumentos atuais da hierarquia católica contra o poder de decisão das mulheres na Igreja e contra a ordenação de mulheres.

A razão pela qual as mulheres não desfrutam de nenhuma forma de liderança na Igreja é essencialmente devido ao seu ensino de que Deus designou homens e mulheres para papéis separados e distintos na sociedade e na Igreja.

Essa ideia de que mulheres e homens são essencialmente diferentes sustentou muitos argumentos contra o sufrágio e podia até ser encontrada na boca de numerosas mulheres anti-sufragistas. Frances Cleveland, esposa do 22º e 24º presidente Grover Cleveland, escreveu a famosa frase onde falava "os papéis masculinos e femininos foram atribuídos há muito tempo por uma inteligência superior".

Enquanto isso, os homens anti-sufragistas reclamavam que o direito de voto da mulher destruiria a família ao perturbar e interromper a ordem doméstica. Cartazes surgiram mostrando maridos tentando desesperadamente cuidar de bebês, enquanto suas esposas mandavam neles. Em uma imagem notável, chamada de "Suffragette Madonna", um homem é visto como a virgem Maria segurando o menino Jesus.

Aqueles que hoje se opõem às mulheres, que têm poder de liderança na Igreja, também se valem da retórica dos valores familiares e dos rígidos papéis de gênero. Mais de um papa afirmou que a Igreja se romperia se as mulheres pudessem cumprir os deveres que Deus deseja que sejam realizados exclusivamente pelos homens.

Alguns anti-sufragistas demonizaram as mulheres que queriam votar, alegando que queriam ser homens. Isso é uma reminiscência de uma ideia que o papa Francisco frequentemente repete, falando que as feministas são uma forma de "machismo de saias" e que o feminismo "coloca as mulheres no nível de uma batalha vingativa".

Como escrevi em 2013, a linguagem de Francisco sugere que "o tratamento igual perante a lei e a posição igualitária na sociedade devem ser entendidos como um punhado de mulheres tentando – como seres vingativos – afirmar sua superioridade sobre os homens".

Jorge Bergoglio nasceu em 1936 – bem depois que as mulheres conseguiram o voto nos EUA – mas, até mesmo sua retórica moderna se encaixaria perfeitamente no grupo anti-sufrágio da virada do século.

Outros oponentes ao sufrágio feminino usaram um argumento que realmente ouço de alguns católicos. Os anti-sufragistas argumentaram que as mulheres não deveriam ter acesso ao voto porque seriam maculadas pelo mundo áspero e sujo da política. Eles acreditavam que de alguma forma estão protegendo as mulheres, impedindo-as da emancipação.

Isso me lembra os católicos bem intencionados e progressistas, que argumentam que o sacerdócio é tão corrupto e o clericalismo tão abominável, que as mulheres não deveriam ser expostas a esse contexto. Elas deveriam esperar, sugerem esses católicos, até que o sacerdócio seja reformado. As mulheres são muito puras e boas para serem submetidas ao sacerdócio, quanto mais para desejá-lo.

Se as mulheres tiverem que defender a igualdade até que o patriarcado totalmente masculino acorde, renuncie ao poder e decida se transformar, elas esperarão para sempre. Isso não é justiça, e não é o que nossas antepassadas lutadoras pelo sufrágio teriam desejado para nós.

Algumas mulheres anti-sufrágio podem ser inimigas implacáveis na luta de emancipação de todas as mulheres. Muitas alegaram que as mulheres não precisavam e nem mesmo queriam votar. De acordo com a nova série da PBS, The Vote, Gilbert Jones, a nora do fundador do The New York Times, disse que houve muito progresso para as mulheres nos últimos 50 anos, mas apontou que esse progresso tinha sido alcançado sem o voto. E Annie Nathan Meyer, fundadora do Barnard College, não viu razão para as mulheres obterem o direito de voto e disse que duvidava que isso fizesse diferença.

Outras mulheres anti-sufrágio acreditavam que exerciam uma influência indireta na esfera social. Todavia, elas, é claro, eram brancas, ricas e tinham acesso a legisladores e juízes. Mas seu argumento não é diferente daqueles que acreditam que ter sacerdotes homens casados é um "passo na direção certa" para as mulheres, porque permitiria que as esposas e filhas tivessem algum controle sobre os homens no poder. Também me lembra das mulheres que dizem que não querem ser sacerdotes porque já têm um papel único e especial no ministério da Igreja.

O que muitos ainda não percebem é que tornar as mulheres verdadeiramente iguais na Igreja é mais do que ordenar mulheres. É sobre reconhecer que pessoas de todos os gêneros são iguais aos olhos de Deus, um reconhecimento que é essencial para que as mulheres alcancem a emancipação e o acesso à liberdade e à autoridade em sua Igreja. E se uma Igreja tão grande, poderosa e influente como a Igreja Católica diz que as mulheres merecem um poder igualitário, isso teria um impacto incalculável em países, culturas e sociedades que tratam as mulheres e outras minorias de gênero como grupos inferiores.

As sufragistas mulheres, negras e homossexuais compreenderam bem como o poder e a igualdade são cruciais. Qualquer celebração das mulheres heroínas da 19ª Emenda deve reconhecer o racismo de muitos de seus principais líderes, como Susan B. Anthony e Alice Paul, que estavam dispostas a silenciar e eliminar as mulheres negras a fim de levar adiante sua agenda sufragista.

A palavra "sufrágio" vem da palavra latina "julgamento" ou "voto". Em um português antigo, também significa uma série de orações de intercessão. Hoje, as mulheres católicas estão abraçando este duplo encontro e visando a campanha das sufragistas Voto para as mulheres diretamente no Vaticano.

Durante os últimos dois sínodos dos bispos em Roma (o sínodo dos jovens em outubro de 2018 e o sínodo da Amazônia em outubro de 2019), houve manifestações que ganharam as manchetes sobre a Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, o escritório que reforça a ortodoxia com o ensino oficial da Igreja.

O primeiro protesto eclodiu em outubro de 2018 com um grupo de 20 mulheres e homens de seis continentes gritando "Deixem as mulheres votarem". Terminou com a polícia romana invadindo a cena, detendo as manifestantes e confiscando seus passaportes, como escrevi no NCR na época. O incidente levou o The New York Times a apelidar o movimento e seus líderes, Kate McElwee e Deborah Rose-Milavec, de "sufragistas modernas".

No ano seguinte, durante o Sínodo de 2019, as duas ativistas saíram à noite pelas ruas da Cidade do Vaticano com um pequeno projetor, mostrando imagens da seu logo "Votos para as Mulheres" nas imponentes portas da Congregação para a Doutrina da Fé, o obelisco da praça de São Pedro e as muralhas Aurelianas.

Embora nem todos no movimento acreditem na ordenação de mulheres – defender a questão, ainda é uma ofensa excomungável – todos concordam que já passou da hora das mulheres terem pelo menos um voto no sínodo.

A campanha "Voto para as Mulheres" ganhou tanta força que a comunidade beneditina de freiras baseadas em Basel, na Suíça, subiu em um ônibus caminho a Roma para se manifestar diante do Vaticano durante o Sínodo em outubro de 2019. Sua discussão? Um irmão religioso recebeu direito de voto naquele sínodo, mas nenhuma das 20 freiras convidadas para o sínodo teve esse privilégio, embora os religiosos e as religiosas compartilhem o mesmo status canônico. O sufrágio universal é uma força unificadora entre as mulheres católicas até hoje.

Harriot Stanton Blatch, jornalista da abolição e filha da pioneira do sufrágio Elizabeth Cady Stanton, foi lembrada por ter dito: "você deve manter o direito ao sufrágio a cada minuto diante do público para que se acostumem com a ideia e falem sobre ela, concordem ou discordem". Quer se trate de votos para mulheres na Igreja ou no estado, acho que todos podemos concordar que Stanton estava certa – e as mulheres católicas estão fazendo exatamente isso.

Publicado originalmente por NCR

*Jamie L. Manson é um antigo colunista premiado do National Catholic Reporter. Siga-o no Twitter: @jamielmanson.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!