Religião

28/08/2020 | domtotal.com

O único dado geral: a particularidade da carne

Produção teológica sempre foi marcada pela especificidade do olhar daqueles que ocuparam lugares de fala institucionalmente legitimados

Fazer uma reflexão feminista é um esforço articulado e consistente de oferecer às mulheres a possibilidade da plena humanidade
Fazer uma reflexão feminista é um esforço articulado e consistente de oferecer às mulheres a possibilidade da plena humanidade (Unsplash/Priscilla Du Preez)

Karen Colares*

A elaboração teológica foi historicamente marcada pela primazia do masculino. Não apenas ela, mas a produção cultural como um todo vivenciou esta realidade por muitos séculos. No que se refere ao Cristianismo, a seleção de textos enfatizados nas comunidades de fé, as opções de tradução, o currículo de preparação dos ministros ordenados são algumas das esferas delineadas por tal centralidade. Revisitar a história da interpretação bíblica pode fornecer àqueles que ainda possuem dúvidas a esse respeito, volumoso montante de provas. O discurso de suspeita moral sobre o feminino advindo da interpretação da figura de Eva, a concepção de que a abnegação é a vocação por excelência das mulheres a julgar sua criação para outrem (Adão), bem como o argumento de inferioridade em relação ao masculino, tendo em vista sua criação a partir de uma costela curva são apenas alguns dos exemplos de uma história de interpretação bíblico-teológica que antagonizou frente às mulheres.

Por meio de hermenêuticas espúrias, o Cristianismo reiterou preconceitos de gênero e cristalizou concepções dissimétricas e injustas como pura vontade divina: Dívida certamente significativa a pesar sobre uma confissão de fé que preza pela dignidade e fraternidade da comunidade humana.

Essa situação, entretanto, não é apenas um retrato de tempos imemoriais. O que se diz por aí a meia boca é que uma reflexão teológica relevante não deve se comprometer com pertenças específicas sob o risco de perder a abrangência de seu discurso. Para muitos, delimitar um ponto de partida para a elaboração é segmentar desnecessariamente uma área que propala assertivas de cunho universal. A generalidade se serve, nesse sentido, da ausência de rostos que possam limitar seu alcance. O que se deixou de perceber, no entanto, é que a produção teológica sempre foi marcada pela especificidade do olhar daqueles que ocuparam lugares de fala institucionalmente legitimados.

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Nesta altura dos fatos, escolher um novo ponto de partida não é estreitar a amplitude do discurso, mas abrir caminho a tudo o que se invisibilizou. A importância de uma teologia que dialogue com os vários impulsos por igualdade de gênero dificilmente pode ser exagerada. Fazer uma reflexão feminista, entretanto, não é um posicionamento para revestir o labor teológico com verniz de consciência política, antes um esforço articulado e consistente de oferecer às mulheres a possibilidade da plena humanidade.

Como marcas desse labor teológico pró-feminista algumas reorientações são necessárias:

Resgatar a história das mulheres que estiveram presentes em inumeráveis narrativas bíblicas. Conhecer as próprias raízes históricas tem sido fonte de força para povos e grupos que foram subalternizados. Assim, devolver as mulheres à história e a história às mulheres constitui uma fonte de energia para a subversão do presente. Não se trata aqui de procurar apenas os textos bíblicos que trazem personagens femininas, mas de conseguir encontrá-las no centro da história. Ou seja, não é porque as mulheres não são citadas em vários momentos históricos, que elas efetivamente não estiveram presentes. Essa ausência advém muito mais de um artifício retórico de seleção redacional cujo cerne é androcêntrico.

Repudiar o dualismo antropológico que marcou muitas das elaborações teológicas ao longo da história. A ideia de que o ser humano é constituído de esferas imaterial e material é um pressuposto cristão básico, no entanto, as assertivas teológicas não pararam no reconhecimento da presença destas dimensões na humanidade, mas se nutriram de dualismos que hierarquizaram tais esferas e as associaram aos sexos, cristalizando a propalada noção de que homens são conectados à parte espiritual e intelectual do ser humano, enquanto mulheres estão mais associadas à parte corporal e passional. Semelhante asserção abriu caminho a que homens e mulheres deixassem de ser encarados como seres humanos plenos para terem o todo de sua existência reduzido a apenas uma parte.

Revisitar temas fundamentais da Teologia sob a perspectiva das mulheres. A ausência de representatividade feminina nos círculos de reflexão teológica, bem como nos lugares de fala em contextos eclesiais, legou-nos um corpo de conceitos construído através de linguagem androcêntrica e não apenas isso, aquilo que se acreditou ser uma experiência humana universal e assexuada, tinha em muitos momentos, uma referência especificamente masculina que conduziu mulheres a imaginarem a virilidade como um caminho de salvação e pertença. É preciso notar que temáticas teológicas variadas carecem do olhar de ambos os sexos porque, afinal de contas, a experiência humana não se dá para além da relação destes.

Reconhecer a limitação do discurso sobre Deus a partir de metáforas masculinas. As sociedades mediterrâneas que fizeram pano de fundo à composição dos textos bíblicos são sociedades balizadas por imagens masculinas, assim, os textos bíblicos possuem predominância de metáforas deste universo para se referir à pessoa de Deus. A despeito disso, a fé cristã professa Deus como espírito não lhe atribuindo, portanto, dimensão de gênero. A conclusão dessa afirmação é que, embora estejam presentes nas Escrituras imagens masculinas para se falar de Deus (pastor, rei, etc.), não existe qualquer empecilho a que imagens femininas sejam utilizadas. Qualquer representação será sempre uma sombra da efetiva pessoa da Divindade e uma tentativa humana de perceber seu mistério.

Desdobrar consequências éticas de orientações oferecidas às mulheres. Todos aqueles e aquelas que ocupam lugares de representatividade devem se assegurar de que suas diretrizes para os casos da vida real sejam responsáveis. A bíblia possui peso político que não se pode ignorar, assim, tendo em conta que o trato religioso lida com consciências, uma permanente visão de sacralidade da vida humana deve nortear as direções propostas na interpretação dos textos e realidades. Conservar a ortodoxia de uma posição teórica não pode relativizar a concretude de uma vida. São subcristãs as práticas e discursos que não se encarnam.

Para que a história não se repita em looping infinito é preciso se valer da sabedoria dos caminhos já trilhados. A elaboração teológica sempre esteve em diálogo com a cultura em geral. Esta se permitiu insuflar pela proposta cristã, bem como ofereceu ao cristianismo categorias para a estruturação de sua reflexão. Para o futuro, se o pensamento teológico almeja continuar inspirando e oferecendo apontamentos para a existência humana, haverá que assumir as particularidades por meio das quais se faz carne: nisto consiste sua verdadeira generalidade.

Karen Colares é doutoranda em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia na área de Teologia da Práxis e Mestra em Teologia Sistemática pela mesma instituição. Pesquisa Teologias Feministas e Hermenêutica Bíblica



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