Religião

28/08/2020 | domtotal.com

Redescobrindo raça, gênero e pobreza

Um cristianismo plural, diverso, a favor das liberdades precisa assentar suas redescobertas contra todo o negacionismo

É na experiências das mulheres negras, indígenas, LGBTQIA+, das prostitutas, das faveladas, da encarceradas que as tradições cristãs precisam redescobrir
É na experiências das mulheres negras, indígenas, LGBTQIA+, das prostitutas, das faveladas, da encarceradas que as tradições cristãs precisam redescobrir (Meghan Holmes / Unsplash)

Mariana Gino*

Confesso que faz um certo tempo que não volto os meus olhos e minhas escritas para temas que perpassem por uma perspectiva reflexiva sobre e dentro do cristianismo ou, melhor pontuando, cristianismos (como bem conceitua o historiador André Leonardo Chevitarese). Bom, eu não saberia avaliar ao certo qual ou quais motivos me levaram ao distanciamento subjetivo sobre algumas reflexões dentro das tradições cristãs. Mas posso lhes afirmar que como mulher negra e teóloga feminista jamais deixarei de fazer minhas análises acerca das tradições pelas quais fui forjada culturalmente e essas análises estão em plena sintonia com as minhas escolhas de ser e estar no mundo. Escolhas essas que vão ao encontro às propostas de um cristianismo plural, diverso, a favor das liberdades, do diálogo inter-religioso e, principalmente, sobre a equidade de gênero. E para quem busca estabelecer debates e reflexões nos seios das intuições religiosas, sabemos o quão conservadoras ainda são as "visões de mundo" dentro desses espaço.

Pontuo intuições religiosas aqui, pois o alcance do conservadorismo está para além dos muros das intuições cristãs. E tal conservadorismo vem à tona quando as instituições religiosas se sentem ameaçadas diante das transformações culturais e políticas "provocadas" pelo movimentos sociais. Transformações essas que questionam, de formas contundentes, alguns distanciamentos sociais e teológicos dentro das "propostas" evangelizadoras que tem por missão caminhar, estar e lutar pelos que sofrem diante das injustiças sociais, das intolerâncias cotidianas que estão de mãos dadas com o racismo e com o machismo, como bem analisa o historiador e sacerdote Babalawô Ivanir dos Santos. Não é possível falarmos sobre opressão nos aspectos da contemporaneidade sem pontuar os impactos das intolerâncias dentro da nossa sociedade.

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Destarte, com o convite dos editores do Dom Total, me vi impelida a fazer minhas brevíssimas contribuições sobre "a importância da tradição cristã redescobrir a força do feminino" tomando como pontos reflexivos os impactos das intolerâncias dentro da nossa sociedade e a questão raça, gênero e classe. A escolha por tais abordagens são totalmente propositais: em primeiro lugar porque vem das inquietudes que ainda trago comigo enquanto mulher negra, feminista e teóloga envolvida em projetos sociais que buscam valorizar e evidenciar vozes marginalizadas e silenciadas historicamente pelo colonialismo. Em segundo lugar porque compreendo e enxergo que, socialmente, fomos gestados e forjados sobre a dinâmica da "negação", por assim dizer, resquícios de heranças coloniais que ainda permeiam os nossos cotidianos. 

Essa dinâmica é estabelecida pela negação do racismo, pela negação da violência de gênero e pela negação de estado de miséria e pobreza, a qual vive boa parte da população brasileira. E como bem pontua a escritora e psicanalista Grada Kilomba, é saindo dos contextos de glorificação e negação da opressão que conseguimos fazer e produzir um processo de conscientização coletiva, que começa com negação-culpa-vergonha-reconhecimento-reparação de forma responsável. 

É a dinâmica de responsabilidade, de criar e gestar novas configurações de poder e de conhecimento que poderá produzir ações contundentes sobre a luta antirracismo, a equidade de gênero e a busca pela diminuição da pobreza. E é justamente sobre essa dinâmica que as tradições cristãs precisam assentar as suas redescobertas, pois são as lutas contra o racismo, contra as violências de gênero e contra o pobre que boa parte dos movimentos sociais vem levantando as suas bandeiras. 

A negação do racismo é projetada sobre glorificação da ideia de "igualdade racial", a negação da violência de gênero é solada pela falácia fundamentalista de "ideologia de gênero" e a negação da pobreza e da miséria se dá pela supressão dos diretos. Ora, não existe possibilidade de vislumbramos uma ação coesa das tradições cristãs dentro das sociedades contemporâneas se não pontuamos que essas tradições cristãs podem corroborar e perpetuar o negacionismo histórico que silencia negros, mulheres e pobres na medida em que reproduzem e fortalecem privilégios e invisibiliza experiências sociais que estejam fora do padrão heteronormativo e branco. 

Por isso, é na experiências das mulheres negras, indígenas, LGBTQIA+, das prostitutas, das faveladas, da encarceradas que as tradições cristãs precisam redescobrir. Pois fato é que as intuições cristãs sabem de suas existências... mas continuam nos invisibilizando. As verdadeiras "Maria das Dores Brasil".

*Mariana Gino é professora do curso de Direito da Universidade Candido Mendes (RJ), teóloga pelo Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio (ITASA- Ces/JF e PUC-Minas). Historiadora pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), especialista em Ciência da Religião pela UFJF, mestra em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutoranda em História Comparada pela UFRJ e coordenadora e Pesquisadora no Laboratório de História das Experiências Religiosas (LHER/UFRJ). É coordenadora da Coordenadoria de Experiências Religiosas Tradicionais Africanas, Afro-Brasileiras, Racismo e Intolerância Religiosa (ERARIR), pesquisadora nos grupos de estudos Áfrikas (UFJF) e Religião e Modernidade (PUC-Minas).



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