Religião

28/08/2020 | domtotal.com

Por um cristianismo pró-feminista

É preciso que o rosto feminino da Igreja seja explicitado a partir daquilo que as mulheres têm a revelar de si

O cristianismo precisa se reconciliar com o feminino
O cristianismo precisa se reconciliar com o feminino (Unsplash/Paulo Cardoso)

Felipe Magalhães Francisco*

O cristianismo nasceu como um movimento revolucionário. Nascido a partir de uma religião predominantemente masculina e androcêntrica, o judaísmo, os seguidores de Jesus pregavam a igualdade fundamental: "Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus" (Gl 3,28). Para aquela sociedade, cujos papéis sociais estavam muito bem definidos de modo que subalternizava algumas dessas categorias sociais, uma compreensão de igualdade é, verdadeiramente, revolucionária.

Mas, algo aconteceu. No que diz respeito à igualdade fundamental entre pessoas, por muitos séculos o cristianismo endossou a escravidão. Em relação à diferença religiosa, o cristianismo perseguiu outras expressões. Isso mudou: a escravidão hoje é abominada e a diferença religiosa reconhecida, em muitos setores do cristianismo histórico, como aspecto fundamental da liberdade humana. E sobre a igualdade entre homens e mulheres, no cristianismo, o que dizer? No protestantismo e no movimento evangélico, há certo avanço na aceitação de lideranças femininas. No catolicismo, podemos ser diretos: mulheres são mão-de-obra religiosa para os serviços comunitários, sem poder de decisão. No que diz respeito à igualdade de gênero, com atenção ao peso moral atribuído às mulheres, o controle patriarcal ainda é bastante forte, no cristianismo.

Essa realidade, contudo, está em debate. Movimentos feministas na sociedade levantam a questão, de modo que não se pode não percebê-la. Teólogas feministas, numa perspectiva inside, buscam refletir a fé, a partir do feminino e do olhar igualitário e reparatório. Mas não basta. Respeitado o fundamental "lugar de fala", todo o cristianismo precisa ser pró-feminista. Antes de mais nada, é preciso dar voz às mulheres: elas devem se expressar, dizer como se sentem, o que esperam. Mais: elas precisam ser voz ativa na maneira como leem o mundo e a realidade, dentro dos lugares de expressão da fé. No caso do catolicismo, o clero precisa, com urgência, compreender que não pode legislar sobre os corpos femininos. Se, pois, o Magistério da Igreja é feito por homens, já que mulheres não podem fazer parte do episcopado, o mínimo que bispos podem fazer é ouvir as mulheres sobre o que elas têm a dizer sobre elas mesmas.

Além disso, o cristianismo precisa se reconciliar com o feminino. Não basta venerar Maria, num ideário muito bem posto que deixa confortável o masculino hegemônico. É preciso que o rosto feminino da Igreja seja explicitado, a partir daquilo que as mulheres têm a revelar de si, a fim de que os homens possam se reconciliar com o feminino presente em nós próprios. Não é possível mais negar, ou tentar ignorar, que muitas práticas e posicionamentos de lideranças masculinas cristãs são misóginas, e que reforçam uma cultura que oprime, violenta e mata mulheres em estatísticas alarmantes. Um cristianismo pró-feminista é aquele que compreendeu a mensagem de Jesus, e que, assim, verdadeiramente se coloca a favor da vida.

No Dom Especial desta semana, contribuindo com a visibilidade do Dia Internacional da Igualdade da Mulher (26/08), trazemos a questão para o seio do cristianismo. A religião cristã não pode se esquivar dessa discussão tão fundamental. No primeiro artigo, A Bíblia e um paradigma da igualdade de gêneros, Flávia Gomes lança um olhar para as Sagradas Escrituras, destacando como elas nos impulsionam a um cristianismo igualitário, também do ponto de vista do gênero. Karen Colares propõe o artigo O único dado geral: a particularidade da carne, no qual reflete sobre a importância de todo o cristianismo ser pró-feminista. Por fim, temos o artigo Redescobrindo raça, gênero e pobreza, de Mariana Gino, em que sinaliza para a importância de o cristianismo se atentar, com seriedade, para três dimensões fundamentais, em relação ao feminino.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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