Economia

28/08/2020 | domtotal.com

Solidariedade: financiamento coletivo ajuda brasileiros castigados pela pandemia

Iniciativas de crowndfunding, a popular 'vaquinha', auxiliam pessoas que perderam renda

As iniciativas de crowdfunding dispararam no Brasil desde as primeiras semanas da pandemia de coronavírus
As iniciativas de crowdfunding dispararam no Brasil desde as primeiras semanas da pandemia de coronavírus (Nelson Almeida/AFP)

Desde as primeiras semanas do novo coronavírus no Brasil, o número de iniciativas de crowdfunding, (financiamento coletivo), popularmente conhecido como "vaquinha", disparou, uma onda de generosidade que permitiu financiar muitos projetos. Ou simplesmente sobreviver.

Com as medidas de confinamento introduzidas em março, milhões de brasileiros viram sua renda evaporar. O auxílio emergencial de R$ 600, pago pelo governo, nem sempre compensou a falta de salário. E não foi distribuído de forma sistemática.

Carlos dos Reis tem 52 anos e trabalha como catador há mais de duas décadas, coletando recicláveis para revender. Mas ficou parado pelas restrições impostas pela prefeitura de São Paulo. "Durante mais de dois meses não pudemos trabalhar, porque o material que coletamos poderia estar contaminado", explica.

"Me desesperei, porque não recebi o auxílio emergencial do governo. E eu não trabalho sozinho, trabalho com um coletivo de pessoas. Aí a gente criou uma vaquinha, uma campanha", continua. Assim, publicou um projeto de financiamento coletivo online para que ele e seus colaboradores pudessem pagar algumas contas e fazer máscaras.

A iniciativa foi um sucesso. "Eu nunca vi tanta solidariedade da parte da sociedade para com os profissionais. Eu não estou falando da solidariedade das grandes empresas, não. Estou falando da pessoa que é igual a você, do assalariado, ou até do próprio desempregado, que ajudou".

Desde então, surgiram outros projetos do mesmo tipo para ajudar os catadores de recicláveis. Um deles permitiu remunerar com R$ 650 cada um de 2,2 mil destes trabalhadores. "Como é possível que nós consigamos arrecadar este dinheiro online e que o governo não tenha conseguido fazer isto por nós?", pergunta-se Reis.

Novos doadores

Rodrigo Machado, cofundador da plataforma brasileira de financiamento participativo Catarse, confirma que o fenômeno das doações a um fundo comum online decolou após as primeiras medidas de isolamento. "Na nossa plataforma foram criados mais de 2 mil projetos relacionados com a Covid-19. Alguns não atraem fundos, mas no total, 35 mil pessoas doaram até agora", explica.

O valor médio de uma doação é de R$ 50, normalmente com recompensas, ou pequenos brindes para os doadores. "Muito rapidamente houve uma explosão de inscrições de projetos relacionados à Covid. Muitas pessoas do sudeste do Brasil que têm alguma sobra de dinheiro, que têm uma situação minimamente estável na pandemia e que pensaram, 'Se eu estou numa situação estável, como posso compartilhar isso com pessoas em situação mais emergencial do que a minha?'. Esse tipo de relato é muito comum", explica Machado.

Nas favelas, ou mesmo em comunidades indígenas, os projetos de financiamento participativo têm sido amplamente usados nos últimos meses e permitiram, entre outras coisas, distribuir cestas básicas para as famílias.

Ser solidário

No Brasil, assim como no restante do mundo, a cultura foi um dos setores mais afetados pelas restrições impostas pela pandemia.

Esmeralda Gazal, professora de balé clássico de 67 anos, procurou o que poderia fazer para ajudar os bailarinos de São Paulo. "Eu me ofereci para dar aulas online e, assim, arrecadar fundos para dar um apoio aos artistas de São Paulo, muito prejudicados pela situação, em situação de vulnerabilidade", conta.

"Tenho o privilégio de estar vinculada a uma instituição que me manteve, continuei dando aulas online para os meus alunos. Então, estava recebendo um retorno financeiro com isso e pude, então, ser solidária com os colegas que estavam nessa situação", diz.

Estela Lapponi, bailarina de 47 anos, foi uma das beneficiadas por este projeto de crowdfunding, chamado SOS Danse São Paulo. "É um oásis dentro de tanta dificuldade que a gente vivencia. Foi um alívio receber os R$ 450", confessa. "Não dá para pagar tudo, mas pelo menos consegui garantir por dois meses as contas mínimas da casa", explica Estela, que tampouco teve acesso ao auxílio emergencial e cujos projetos de apresentações estão paralisados por tempo indeterminado.

O presidente Jair Bolsonaro, que ganhou pontos nas pesquisas graças ao auxílio emergencial pago durante a pandemia, anunciou um novo programa de benefícios, o "Renda Brasil", que pode chegar a um pagamento mensal de R$300.


AFP/Dom Total



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