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01/09/2020 | domtotal.com

As melhores novelas

Celebrando 70 anos da TV brasileira

Ainda hoje a principal plataforma de comunicação do país, seu principal produto merece ser celebrado: a novela
Ainda hoje a principal plataforma de comunicação do país, seu principal produto merece ser celebrado: a novela (Francisco Andreotti / Unsplash)

Alexis Parrot*

Em setembro comemoramos os 70 anos da aventura iniciada por Assis Chateaubriand, Cassiano Gabus Mendes e tantos outros pioneiros - a televisão brasileira. Ainda hoje a principal plataforma de comunicação do país, seu principal produto merece ser celebrado: a novela.

Às vezes realista, às vezes arrebatada; lírica e romântica; direto ao ponto ou barroca; na narrativa e temática, clássica ou revolucionária; mas sempre popular.

Nos folhetins televisivos nos acostumamos a projetar nossos próprios desejos e esperanças - verdadeiros mapas para a imaginação e oportunidade de renovar o fôlego para encarar as agruras da vida real. Quando nos fazem sonhar, são excelentes; mas se nos obrigam à reflexão, se tornam inestimáveis.

Abaixo um pequeno ranking de momentos especiais em que a novela brasileira superou a si mesma. Da quinta à primeira colocação, as melhores novelas a que já assistimos.

5) Pecado capital de Janete Clair (1975)

Após a proibição pela censura de Roque Santeiro no dia da estreia, Janete salvou a pátria e apresentou um plano infalível para a Globo. Enquanto era exibido um compacto reprisando sua própria novela de 1972, Selva de pedra, escreveu em tempo recorde uma nova sinopse, prevendo o aproveitamento de todo o elenco que já estava comprometido com a obra censurada.

Como conta Artur Xexéo na biografia da novelista (Janete Clair - a usineira de sonhos. Coleção Perfis do Rio, Relume-Dumará Editora/RioArte, 1996), ressentida por ter sido "rebaixada" para o horário das sete da noite, ela agarrou a oportunidade pelos chifres e disse para o marido Dias Gomes: "A novela das oito não vai sair daqui de casa. Eu vou escrever. Nós não vamos perder esse horário."

E Roque, Porcina e Sinhozinho (Francisco Cuoco, Betty Faria e Lima Duarte) viraram Carlão, Lucinha e Salviano Lisboa, o triângulo amoroso que dividiu o país em duas torcidas. Quem deveria ganhar em definitivo o coração da operária? O noivo taxista ou o rico industrial viúvo?

A novela marcou uma guinada na trajetória da autora. Chamada pela crítica de alienada e acusada de promover o escapismo em seus folhetins (a despeito do posto de campeã de audiência que mantinha), pela primeira vez a realidade brasileira bateu às portas da obra janeteana.

Em Pecado capital, o subúrbio carioca era a principal paisagem; o dilema moral de Carlão ia na contramão da "lei de Gerson", tirando o sono do protagonista ao questionar se devolvia ou não o dinheiro roubado deixado em seu táxi; a crítica ao racismo, mais atual do que nunca, mobilizada pelo personagem de Milton Gonçalves, um psiquiatra bem-sucedido.

A novela trouxe ainda de bonus track a música tema, composta e gravada no susto pelo mestre Paulinho da Viola. Quem nunca se pegou cantarolando o refrão do samba-lamento "Dinheiro na mão é vendaval..."?

4) Pantanal de Benedito Ruy Barbosa (1990)

Após ver o projeto dos sonhos descartado pelo custo e dificuldade logística, Ruy Barbosa não se fez de rogado e rompeu o contrato com a emissora dos Marinho. Mudou-se de mala e cuia para a TV Manchete e conseguiu o inimaginável até então: bateu a audiência da Globo.

A novela foi um marco em vário sentidos, a começar pelo ritmo ditado pela direção de Jayme Monjardim, que privilegiava a contemplação em detrimento da edição frenética e clipada que imperava nas produções da época. A história era contada sem pressa, entre o Rio de Janeiro e o pantanal matogrossense, evidenciando o choque cultural entre estes dois mundos.

Eivada de inspirações roseanas (com direito até a pacto com o diabo), a trama acompanhava a trajetória do pantaneiro Zé Leôncio (Claudio Marzo) e sua família, além de Juma Marruá (Cristiana Oliveira), uma bugra que teria o poder de se transformar em onça pintada. Figura mágica, o Velho do Rio (também Claudio Marzo) ecoava A terceira margem do rio, assim como Juma se espelhava em Meu tio, o iauaretê.

Um hábito na obra do autor, a crítica social estava presente. Como faria depois em O rei do gado com o núcleo do assentamento do MST, em Pantanal incorporou a denúncia da grave questão da grilagem de terras no interior do país, além de um discurso pró-ecologia.

3) Gabriela de Walter George Durst (1975)

Para comemorar os dez anos de existência, a Globo não mediu esforços. Comprou os direitos de Gabriela, cravo e canela e construiu uma cidade cenográfica pela primeira vez, reproduzindo a Ilhéus dos anos 1920, cenário do romance de Jorge Amado.

À frente da empreitada, dois dos pioneiros presentes já na inauguração da nossa TV, Walter Avancini na direção e Walter George Durst no roteiro. A parceria ainda seguiria por anos e nos daria ainda grandes alegrias, como a adaptação de Grande sertão: veredas, Anarquistas graças a Deus, Rabo de saia e Memórias de um gigolô.

O Bar Vesúvio do turco Nacib (Armando Bógus) era o grande point da cidade e as decisões políticas tomadas na penumbra da casa do intendente, coronel Ramiro Bastos (Paulo Gracindo). À noite, após as senhoras de respeito se recolherem, seus maridos e filhos se divertiam no Bataclan de Maria Machadão (Heloisa Mafalda).

Para sacudir a aparente calmaria do lugar, chegam a Ilhéus o empresário com pretensões políticas Mundinho Falcão (José Wilker) e a retirante Gabriela (Sonia Braga, em seu papel mais celebrado). Contratada para cozinhar no Vesúvio, onde faz grande sucesso, não demora a encantar Nacib e se tornarem amantes. Para garantir a perpetuidade de sua Bié na cozinha do bar e em sua cama, decide se casar - mas aí o caldo entorna.

Com excepcionais interpretações de todo o elenco; o texto que soube captar o calor baiano de Jorge Amado (tanto nas escaramuças amorosas quanto no subtexto político); uma trilha sonora feita de encomenda assinada e interpretada apenas por medalhões da nossa música (Gal Costa, Djavan, Moraes Moreira, Alceu Valença, Bethania, João Bosco...); uma direção inspirada com imagens icônicas que grudaram na memória (quem não se lembra da moleca Gabriela encarapitada no alto do telhado para resgatar uma pipa enquanto fazia a festa dos homens da cidade que pararam para ver o acontecimento?), Gabriela foi um acontecimento.

Apesar do êxito de audiência, o remake de 2012 não passa de pálido decalque do original; esta sim verdadeira obra-prima. Mostra ainda os fortes laços que unem nossa teledramaturgia à literatura, uma relação não raro vitoriosa quando levada a sério.

2) Vale Tudo de Gilberto Braga (1988)

O melhor retrato já realizado do bueiro moral onde o país do "jeitinho" insiste em se precipitar. Regina Duarte e Gloria Pires interpretam mãe e filha em campos opostos de um duelo ético entre o trabalho e o "se dar bem" a qualquer custo.

A música da abertura - uma das mais apropriadas já escolhidas - nos advertia diariamente do que se tratava a novela. Era a personalidade da interpretação de Cazuza entoando uma de suas composições mais virulentas: "Brasil, mostra a tua cara / quero ver quem paga pra gente ficar assim / Brasil, qual é o teu negócio, o nome do teu sócio / confia em mim".

Em um país onde até os arautos da anticorrupção são questionados pelos métodos nada éticos que utilizam, infelizmente, esta parece ser uma novela que ainda demora para sair de moda.

Escrevendo em conjunto com Leonor Bassères e Aguinaldo Silva, Gilberto Braga (esculpido como autor pela própria Janete Clair) atinge com Vale tudo algo admirável: desenvolve um folhetim de primeira a partir de um conceito crítico, e dele não se desvia um milímetro sequer do primeiro ao último capítulo.

Aos grã-finos do high society carioca - um núcleo clássico de sua dramaturgia - veio se unir uma outra classe, bem menos abastada. A tensão entre os dois estratos era inevitável e foi muito bem conduzida, sem condescendência ou idealizações para ambos os lados.

A identidade do assassino de Odete Roitman (Beatriz Segall) deixou o Brasil em suspenso durante várias semanas, um artifício já usado pelo próprio Braga em Água viva ("quem matou Miguel Fragonard?") e bem aprendido com a mestra Janete, desde a época de O astro, com o assassinato de Salomão Hayala.

O final da novela, emblemático, profetiza o que ainda veremos em um futuro próximo. Ao ser desapeado da condição de ministro (o que está para acontecer mais dia menos dia), é fácil imaginar Paulo Guedes repetindo o gesto de Reginaldo Farias; a imagem perfeita do desdém que a elite nutre pelo nosso povo, verdadeira corja aos seus olhos.

Vale tudo conseguiu ser tão pungente quanto fascinante - e por isso, eterna.

1) Roque Santeiro de Dias Gomes e Aguinaldo Silva (1985)

Dez anos após a censura pela ditadura, a Globo volta à carga com Roque Santeiro, novela que se tornaria um símbolo da redemocratização do país.

Do trio original de protagonistas, apenas Lima Duarte foi mantido no papel de Sinhozinho Malta - o coronel que odeia ser chamado de coronel. A viúva Porcina ficou a cargo de Regina Duarte e coube a José Wilker encarnar o santeiro arrependido.

Ao voltar para a terra natal e devolver o ostensório que havia roubado da igreja, o personagem de Wilker se espanta ao descobrir que é tratado como santo na cidade. Em torno de seu heroísmo construído funciona uma azeitada indústria da fé que atrai milhares de romeiros todos os anos. Aos poucos, vários habitantes do lugar vão descobrindo a verdade e Roque entende que sua presença ali não interessa a ninguém. Com bom humor, suspenses bem amarrados, drama impecável e romance na medida certa, nunca uma novela divertiu tanto e falou de tanta coisa séria ao mesmo tempo.

A cidade de Asa Branca como microcosmo do Brasil é jogada de mestre emulando a glorificação de santos de pés de barro e a exploração de devotos de todos os credos e religiões. Capaz de mover montanhas, a fé também pode deixar muita gente rica.

A crítica de costumes, tão cara a Aguinaldo Silva, é o alvo principal de sua verve ferina no desenvolvimento da novela que Dias Gomes imaginou. No final, o pai do Bem-amado reassume o comando e escreve os últimos capítulos, grande injustiça cometida contra Aguinaldo. Algumas tramas que vinham sendo construídas foram deixadas de lado e nunca saberemos o desfecho que ele teria dado ao triângulo Roque - Porcina - Sinhozinho.

Polêmicas à parte, o Brasil cabe em Asa Branca - e não o contrário.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total



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