Religião

02/09/2020 | domtotal.com

Contra o terror em nome de Deus: Não demonizar LGBT ou religiões afro

No dia 22 de agosto é lembrado o Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Perseguição Religiosa

Padre Júlio Lancellotti realiza um trabalho constante de ajuda à população carente, mas afirma 'Eu sou um LGBTfóbico em desconstrução'. O respeito ao próximo caminha lado a lado com o amor que Jesus pregava
Padre Júlio Lancellotti realiza um trabalho constante de ajuda à população carente, mas afirma 'Eu sou um LGBTfóbico em desconstrução'. O respeito ao próximo caminha lado a lado com o amor que Jesus pregava (Reprodução Instagram)

Luís Corrêa Lima*

A ONU criou recentemente um dia internacional dedicado às vítimas da perseguição religiosa: 22 de agosto. Nesta data, o papa Francisco postou em seu Twiter: "Deus não precisa ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas. Peço a todos que parem de instrumentalizar as religiões para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego". Esta mensagem teve uma repercussão ampla e positiva. Convém observar que se trata da citação de um importante documento conjunto, feito pelo papa e por um líder religioso muçulmano, em Abu Dabi no ano passado. O título é: Fraternidade humana: em prol da paz mundial e da convivência comum (disponível aqui). Como é bom ver cristãos e muçulmanos engajados neste propósito! Como é bom vê-los proclamar que o próprio Deus não quer Seu nome usado para aterrorizar pessoas!

Quando se fala deste terror atualmente, pensa-se com frequência no extremismo de grupos islâmicos. Mas isso está longe de ser exclusivo deles. No Brasil, centenas de terreiros de umbanda e candomblé já foram destruídos ou sofreram atentados. Milhares de fiéis já foram ameaçados ou tiveram que mudar de endereço, sobretudo em regiões urbanas controladas pelo tráfico de drogas. O motivo é demonização das religiões de matriz africanas por cristãos intolerantes, que tem influência junto a traficantes. A população LGBT também é demonizada. Aversão da própria família, bullying na escola, discriminação em diversos ambientes, agressão física na rua e até homicídio, são parte da realidade de muitos. E não raramente a homotransfobia é fomentada pela religião.

Há um longo caminho a ser percorrido para se combater o terror religioso. Já na abertura do Concílio Vaticano II, em 1962, o papa São João XXIII fez uma advertência enérgica contra os "profetas da catástrofe" que só veem prevaricação e ruína, sempre anunciando acontecimentos infelizes como se o fim do mundo fosse iminente. Neste caso, o mundo contemporâneo e sua evolução são demonizados, como se a ordem social estivesse à beira do colapso total. Isto é pânico moral. 

O papa Francisco recordou a célebre advertência de seu antecessor contra tais profetas, e mostrou exatamente o oposto deste catastrofismo, que é a perspectiva positiva: o olhar de quem crê é capaz de reconhecer a luz do Espírito Santo irradiando na escuridão, de entrever o vinho em que a água pode ser transformada, e de descobrir o trigo que cresce no meio do joio (Evangelii Gaudium, n. 84).

O padre Júlio Lancellotti, que há muitos anos faz um belo trabalho na cidade de São Paulo com a população de rua, também atende a população LGBT que vive nesta situação, e é muito sensível ao seu sofrimento. Ele declarou recentemente: "Eu sou um LGBTfóbico em desconstrução". Reconhece que preconceitos estruturais que carrega prejudicam vidas, contaminam a sociedade e destroem a dignidade de pessoas que sequer conhece. Reproduzindo comportamentos, emitindo opiniões ou descuidando ao se comunicar com o mundo, de alguma forma já teve comportamentos homotransfóbicos ao longo da vida. E assume: "começo já meu o trabalho de transformação".

Parabéns, padre Júlio! Oxalá o seu exemplo contagie todos nós, em prol da fraternidade humana, da convivência comum e do fim do terror.

*Luís Corrêa Lima é sacerdote jesuíta e professor da PUC-Rio. Trabalha com pesquisa sobre gênero e diversidade sexual

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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