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06/09/2020 | domtotal.com

'Epicentro' reflete sobre a visão de Havana como 'sonho americano' por turistas

Documentário de Hubert Sauper foi um dos vencedores no Festival de Cinema de Sundance

O diretor austríaco Hubert Sauper posa com prêmio recebido pelo filme 'We come as friends'', exibido na 64ª edição do festival de cinema Berlinale, na Alemanha
O diretor austríaco Hubert Sauper posa com prêmio recebido pelo filme 'We come as friends'', exibido na 64ª edição do festival de cinema Berlinale, na Alemanha (Inga Kjer/AFP)

Há 500 anos, paralelamente à descoberta do Novo Mundo, nascia na Europa o conceito de utopia, de um mundo sonhado que hoje o exterior continua a perpetuar em Havana, segundo Epicentro, documentário de Hubert Sauper, que põe o dedo na ferida das contradições históricas que fizeram da capital cubana um lugar único.

Com a participação de Oona Chaplin – neta de Charlie Chaplin –, Epicentro estreou recentemente na França, onde rendeu boas críticas, após ganhar o Grande Prêmio do Júri de melhor documentário internacional no Festival de Cinema de Sundance.

Seu diretor, o austríaco Hubert Sauper, foi indicado ao Oscar em 2005 por O pesadelo de Darwin, no qual denunciou o comércio explosivo de perca-do-nilo, um tipo de peixe, na Tanzânia, como reflexo dos abusos do sistema capitalista.

Essa mesma "dialética perversa entre o norte e o sul", nas palavras do cineasta, mais uma vez o impulsionou a pegar a câmera em Havana, onde morou por três anos como professor na Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV).

Através do olhar livre e ao mesmo tempo politizado de uma menina, Leonelis, e de outros "jovens profetas", como os chama o cineasta, Epicentro reflete sobre como o turista faz de Havana uma miragem, um "sonho americano", a bordo de um conversível que brilha ao longo do Malecón.

Sauper acusa esse turismo superficial que considera como sendo uma consequência do século passado em Cuba, simbolicamente iniciado em 1898 com a explosão na baía de Havana do navio "USS Maine" por causas indeterminadas, mas que serviu de pretexto para Washington iniciar a guerra hispano-americana e se lançar na corrida pela hegemonia mundial.

O que te fez filmar Epicentro?

Há 20 anos que giro em torno do mesmo tema, essa dialética às vezes perversa entre o norte e o sul, e percebi que existem grandes paralelos entre a dialética americana e a da América Central e do Sul. Por exemplo, o "sonho americano" e a revolução cubana são variações do mesmo conceito: utopia, ambas suscetíveis de se tornarem distopia.

O documentário apresenta Havana como o paraíso sonhado pelos turistas. Você se sentiu assim quando morou lá?

Para os estrangeiros, Havana, que foi a primeira cidade cosmopolita do planeta, a única onde historicamente pessoas de todos os continentes se cruzaram, é a materialização do sonho americano: carros grandes, mulheres que dançam, piscinas em hotéis de luxo... Até as crianças cubanas buscam isso. E os turistas, ao tirar suas fotos, alimentam esse clichê, assim como os casais retratados em frente à Torre Eiffel reforçam a ideia de que Paris é a cidade do amor.

Em seu filme, aparece um fotógrafo estrangeiro que explica que não dá dinheiro às crianças que fotografa porque "é uma honra" aparecer em seu trabalho, e isso leva você a se perguntar até que ponto a obra do artista é também uma espécie de turismo.

É uma pergunta que me faço todos os dias. O que estou fazendo aqui como europeu? Mas procuro me ver não como um estrangeiro em Havana, mas como um artista e ao mesmo tempo um ser humano que olha nos olhos de outro ser humano.

Epicentro também reflete sobre como o cinema pode se tornar um instrumento de propaganda.

Sim, existe o exemplo da explosão do "USS Maine". Aconteceu durante a noite, quase sem testemunhas, e em vez disso o mundo testemunhou uma explosão falsa filmada com barcos de madeira em uma banheira e fumaça de cigarro para simular as explosões. Essas imagens falsas serviram para incriminar a Espanha e provocar a primeira guerra intervencionista dos Estados Unidos, o que levou à sua hegemonia mundial.

O que significa para um diretor lançar um filme durante a atual pandemia?

Fico muito triste ao ver que as pessoas não assistem filmes no cinema e sim no computador. Assim não se pode "viver". Mas não é a Covid-19 que está causando o desaparecimento dos cinemas, mas sim plataformas como a Netflix e esse hábito crescente de consumir tudo em casa, numa espécie de isolamento.


AFP



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