Religião

03/09/2020 | domtotal.com

Bispos poloneses querem centros de recuperação para os homossexuais

Depois de um ano de trabalho, episcopado publica documento eivado de preconceito

'Ouvindo o clero polaco, fica-se com a impressão de que Jesus não veio à terra para trazer o Evangelho, mas para regular a vida sexual dos seus seguidores ao pormenor', diz padre jesuíta
'Ouvindo o clero polaco, fica-se com a impressão de que Jesus não veio à terra para trazer o Evangelho, mas para regular a vida sexual dos seus seguidores ao pormenor', diz padre jesuíta (Unsplash/Allie)

A Conferência Episcopal Polonesa publicou um documento de 27 páginas sobre questões LGBT+, no qual sublinha que as pessoas com sentimentos homossexuais devem ser respeitadas, mas que, ao mesmo tempo, devem ser criados centros para ajudar os que pretendem "recuperar a sua orientação sexual natural" – ou seja, sugerindo a terapia de conversão.

"A terapia de conversão tem sido desacreditada por quase todos os psiquiatras e psicólogos de renome. Causa danos psicológicos, emocionais e muitas vezes físicos às pessoas LGBTQ. Em muitos lugares, tem sido banida. A Igreja deveria condenar esta prática perigosa, e não promovê-la", comentou o padre jesuíta norte-americano James Martin, especialista em Teologia Moral, um dos mais conhecedores destes temas da Igreja Católica e consultor do Dicastério da Comunicação (e autor da biografia Jesus).

O documento dos bispos diz concretamente que "tendo em conta as dificuldades, sofrimentos e lágrimas espirituais vividos por estas pessoas, é necessário criar centros de aconselhamento (também com a ajuda da Igreja ou das suas estruturas) para ajudar as pessoas que desejam recuperar a sua saúde sexual e a sua orientação sexual natural".

Ao mesmo tempo, o texto defende que "é necessário discordar da ideologia do gênero e poder discordar de posições incompatíveis com os ensinamentos católicos sobre sexualidade, família e direitos das crianças, por exemplo", de acordo com excertos divulgados pelo Religión em Libertad, um jornal digital espanhol que defende normalmente posições tradicionalistas na moral católica.

Um ano para chegar ao documento

De acordo com a mesma fonte, o documento do episcopado católico polaco (aqui no original) é o resultado de um ano de trabalho e debate, organizado em quatro capítulos: a sexualidade de homens e mulheres na visão cristã; o movimento LGBT+ numa sociedade democrática; pessoas LGBT+ na Igreja Católica; as propostas da Igreja e LGBT+ sobre educação sexual para crianças e jovens.

Os bispos sublinham que a Igreja está aberta ao diálogo com todos os "homens de boa vontade" que procuram a verdade, incluindo as pessoas LGBT+. Dão o exemplo do papa Francisco e do seu modo de acolher "pessoas que se identificam com LGBT+": "Estende-lhes uma mão amiga, expressa compreensão pelas suas inclinações, mas ao mesmo tempo não evita apresentar claramente os ensinamentos da Igreja sobre ideologia e práticas de gênero contrárias à natureza e dignidade humana."

No documento, omitem-se, no entanto, gestos do papa como o de Francisco se ter encontrado, em novembro do ano passado, com Jayne Ozanne, uma mulher homossexual anglicana que luta contra a chamada "terapia de conversão". Ozanne considera-se vítima dessa terapia e escreveu um livro de memórias (Just Love, ou "Só amor"). Na ocasião Jayne Ozanne ofereceu ao papa um exemplar da obra, na qual recorda o impacto negativo que tiveram nela a "terapia de conversão", as hospitalizações e o ostracismo a que foi votada por muitos cristãos.

Os bispos polacos acrescentam que todas as pessoas devem ser respeitadas e que "qualquer ato de violência física ou verbal, qualquer forma de hooliganismo e agressão contra pessoas LGBT+ é inaceitável". Mas, em contraponto, defendem que os sentimentos religiosos e os princípios morais e de ordem pública dos outros membros da sociedade devem também ser respeitados.

Em relação a pessoas transgênero, os bispos polacos dizem que a Igreja não aceita que alguém tenha mudado de sexo por ter recebido documentos civis ou por ter sido operado, considerando que isso é apenas um ato de mutilação. O sexo genético é o verdadeiro, dizem, e quando as crianças são batizadas não se aceitarão nomes inconsistentes com o sexo real, nem manterá o sexo "indefinido" nos registos da paróquia enquanto espera que a criança cresça e "se defina a si própria".

De resto, os bispos identificam a origem da questão como proveniente da "chamada revolução sexual e mudanças culturais e morais que a acompanham" e da "rejeição da moralidade tradicional". A Igreja manifesta-se contra a ideologia de gênero, diz ainda o episcopado polaco, citado pela mesma fonte, que se traduz também na estratégia de chamar "homofóbicos" ou "discriminadores" a quem se opõe ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. E consideram, ainda, que há uma estratégia dos movimentos LGBT+ para mudar as sociedades.

Na sua página da rede social Twitter, o padre James Martin reproduz um artigo do teólogo Stanisław Obirek, ex-jesuíta, e do jurista Artur Nowak, em que estes criticam: "Ouvindo o clero polaco, fica-se com a impressão de que Jesus não veio à terra para trazer o Evangelho, mas para regular a vida sexual dos seus seguidores ao pormenor".


Sete Margens



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