Religião

07/09/2020 | domtotal.com

O discernimento pode ser difícil, mas Deus acompanha sua escolha

Capacidade de decisão faz parte do amadurecimento espiritual

Nós também somos chamados a exercer nossa liberdade no amor
Nós também somos chamados a exercer nossa liberdade no amor (Burst/Unsplash)

Maura Shea*

Uma amiga minha estava se perguntando se deveria ir para casa no Dia das Mães. Sua colega de quarto estava voltando de um funeral fora da cidade e estava preocupada com a possibilidade de levar o contágio do coronavírus para a casa de seus pais.

"Eu poderia simplesmente sair agora, antes da minha colega de quarto voltar", disse a moça preocupada. "Eu ainda poderia ficar a semana toda, até o Dia das Mães, porque realmente quero ser uma boa filha."

Porém, ela sabia por experiência própria que, às vezes, ficar uma semana inteira com os pais não é tão emocionalmente tranquilo assim. Queria homenagear a mãe, mas não queria demorar a voltar para casa.

"Eu queria saber a coisa certa a se fazer", disse.

Outra amiga está grávida e tem um filho de 2 anos. O marido e ela têm tido dificuldades em decidir os limites apropriados para a presença dos pais, que desejam tanto estar presentes com ela e com o neto durante esse período, e que não estão preocupados em contrair o vírus. Minha amiga está lutando contra o medo de ser responsável por contagiá-los.

"Por outro lado", diz ela, "não quero viver com medo. Eu sei o quão importante é para meus pais ver o neto". Qual é a coisa certa a se fazer?

Muitos estão enfrentando decisões semelhantes e são oprimidos por uma sensação de querer fazer o que é certo, mas também pelo medo de escolher o caminho errado. Precisamos considerar os vários caminhos – saúde e segurança, passar tempo com os seres queridos, ir ao escritório para nos concentrarmos melhor no trabalho, apoiar negócios locais que estão passando por dificuldades. Muitos de nós também nos sentimos chamados a proclamar a verdade sobre o veneno do racismo por meio do protesto e do ativismo. Todos esses caminhos valem a pena, mas como e quando?

Acho que nós, católicos, em particular, com nossa ênfase no discernimento, às vezes temos a sensação de que deve haver uma resposta certa, a resposta que Deus conhece e espera que nós também descubramos.

Infelizmente, mesmo quando levo, em oração a Deus, decisões difíceis como essas, descubro que ele raramente me dá uma orientação clara. Muitas vezes, parece que ouço Deus dizer: "Não tenha medo". Mas essas palavras tranquilizadoras não se traduzem em nenhuma ação imediata.

Fico com a suspeita de que muitas vezes Deus realmente quer que eu escolha.

Uma frase sempre vem à mente: "A nossa dignidade consiste em ser causas" (tomado do pensamento de São Tomás de Aquino)

Em algum lugar nas brumas distantes do tempo, provavelmente na faculdade, li algo de São Tomás de Aquino sobre a relação entre a providência de Deus e nosso livre arbítrio. Tomás pensava que existia uma distinção importante entre causalidade primária (causalidade de Deus) e causalidade secundária – mas afirmava que ambas eram reais. O santo estava argumentando contra aqueles que viam Deus manipulando o mundo como um titereiro que controla seus fantoches. Em vez disso, Aquino diz:

Pois, devemos atribuir a Deus toda dignidade. Ora, é próprio da dignidade real ter ministros, mediante os quais exerça a providência sobre os seus súditos. Logo, com maior razão, Deus não provê imediatamente a todos os seres. Demais. – É próprio da providência ordenar as coisas para um fim, que lhes é a perfeição e o bem. Pois, é da essência de uma causa levar a bom termo o seu efeito. Ora, toda causa agente é efeito da providência. Logo, se Deus provê imediatamente a todos os seres, anular-se-ão todas as causas segundas. (Summa Theologiae I, q. 22, a. 3).

Com base na "abundância da Sua bondade", Deus concede às suas criaturas – e particularmente a nós – "a dignidade da causalidade".

Pensemos sobre isso. Deus deu a você a dignidade de ser causa.

Você pode, em razão da criatividade de Deus, ter criatividade também. Você pode fazer música, arte, jantares e ter relacionamentos. E é realmente você quem está fazendo essas coisas. Não longe de Deus, mas com ele. Sua causalidade secundária e sua causalidade primária não estão em conflito.

E isso significa que você pode fazer escolhas. Escolhas reais.

Recentemente, perguntei a um padre sobre ouvir as inspirações do Espírito Santo e saber quando devo agir de acordo com uma inspiração que parece vir de Deus. Com gentileza e um sorriso, ele sugeriu: "Deus quer que você cresça". Ele acrescentou: "Quando São Paulo fala sobre a maturidade plena em Cristo e a liberdade dos filhos de Deus, ele está falando sério. Deus quer que você viva em verdadeira liberdade. Ele quer que você faça escolhas."

Claro, há momentos em nossas vidas em que fazer a coisa certa parece uma decisão muito clara. E parte de confiar em Deus é acreditar que ele realmente nos dá as informações de que precisamos para tomar boas decisões.

Mas a paralisia católica em torno do discernimento não ocorre nesses tempos; ocorre quando parece haver várias respostas certas e temos medo de confiar em nossos próprios desejos ou em nossa capacidade de escolher com sabedoria.

Também existe algum precedente bíblico para esses outros tipos de ocasiões. Pense em Adão no jardim. Deus permite que ele nomeie todos os animais! Que coisa poderosa, escolher um nome para outra criatura. No entanto, Deus confiou a Adão essa escolha, essa criatividade.

Santo Agostinho disse a famosa frase: "Ama e faz o que quiseres".

Se você amar, estará fazendo a vontade de Deus.

Deixando de lado o pecado, entendido como imprudência para com o bem-estar dos outros ou egoísmo com relação ao seu tempo e recursos, pode haver uma série de escolhas dentro do reino da prudência que minha amiga pode tomar quando visitar sua família e meu outro amigo para estabelecer limites com seus pais. E Deus abençoaria quaisquer escolhas dentro desse intervalo que eles decidissem. Na verdade, acredito que Deus se agradaria com isso – no seu exercício da causalidade própria, como seres humanos.

Nesses casos ambíguos, muitas vezes nos sentimos paralisados porque, embora saibamos que não estamos escolhendo conscientemente algo pecaminoso, mesmo assim vemos a gama de possibilidades e nos perguntamos se existe uma opção perfeita que poderíamos estar perdendo.

Todavia, percebi que a ideia do perfeito é um engano do "espírito maligno", como diria Santo Inácio, tentando nos impedir de fazer qualquer escolha. Quando Cristo disse: "Sê perfeito, como o teu Pai celestial é perfeito", estava fazendo uma comparação na fé com aquele que, em sua misteriosa liberdade, sem imposição ou necessidade de qualquer tipo, escolheu da abundância de sua bondade criar o mundo.

Nós também somos chamados a ser co-criadores. Nós também somos chamados a exercer nossa liberdade no amor.

Talvez a verdadeira resposta seja que Deus se agrada com as nossas escolhas. Que o mundo está cheio de incertezas, mas que ele ama sua vontade de fazer o que é certo e ama sua criatividade enquanto você trabalha com ele no projeto de vida que é o mundo. Fazer uma boa escolha não significa que você evitará todo sofrimento ou que será capaz de prever todos os resultados. Significa que você está usando os dons do intelecto e da vontade que Deus lhe deu e que no próprio ato de usá-los você o está glorificando.

Isso não responde a perguntas específicas sobre quando é seguro visitar seus avós ou se você deve fazer parte de um protesto pacífico ou se deve participar de um retiro de discernimento sobre a vida religiosa ou ir para um terceiro encontro vocacional. Mas é essa a questão. Em muitos casos e mesmo nos casos mais importantes, Deus nos deu a dignidade de responder.

Quando Jesus pergunta ao cego do Evangelho: "O que você quer que eu faça por você?", Ele realmente quis dizer isso. Não é um artifício retórico. Ou quando diz: "Mas quem você diz que eu sou?", Ele quer que seus amigos lhe digam o que realmente pensam. Está tudo bem se Pedro não consegue articular perfeitamente a doutrina da Trindade, como foi mais tarde esclarecido no Concílio de Nicéia. Jesus está encantado com a resposta dele – e com a sua.

Então ore. Fale com um amigo de confiança. E, finalmente, considere que Deus deu a você a dignidade de ser uma causa e se deleita em sua escolha.

Publicado originalmente por America

*Maura Shea ensinou literatura inglesa por oito anos e agora é a coordenadora dos alunos e ex-alunos do Instituto Witherspoon. Ela escreve sobre a intersecção de literatura, educação e fé em mysteriesandmanners.com. @MauraRoseShea



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