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08/09/2020 | domtotal.com

O acordo de Israel com os Emirados Árabes Unidos é uma mudança radical ou uma manobra estratégica?

É impossível compreender a aparente contradição do estabelecimento de relações diplomáticas e comerciais entre judeus e árabes sem percorrer a história convoluta da região

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu (L) e o governante dos Emirados Árabes Unidos, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohammed bin Zayed
O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu (L) e o governante dos Emirados Árabes Unidos, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohammed bin Zayed (AFP)

José Couto Nogueira*

No dia 13 de Agosto o primeiro ministro israelita, Benjamin Netanyahu anunciou, com evidente satisfação, que o seu país tinha concluído um acordo de cooperação diplomática e comercial com um dos seus tradicionais inimigos, os Emirados Árabes Unidos, uma promessa que já tem onze anos, mas nunca foi possível por razões óbvias. A esperança é que os outros estados árabes, 19 ao todo, sigam o mesmo caminho.

Contra esta perspectiva está o ódio a Israel que todos os países do Oriente Médio sempre demonstraram, desde a fundação unilateral do país (isto é, contra a vontade da comunidade internacional), em 14 de maio de 1948. No dia seguinte, os árabes invadiram o minúsculo território "libertado" pelos judeus que levaram à primeira de várias derrotas históricas, em 1956 (Guerra do Suez), 1967 (Guerra dos Seis Dias), 1973 (Guerra do Yom Kippur), 1982 (Guerra do Líbano) e 2006 (Conflito Israelo-Libanês).

As razões específicas de cada um destes conflitos foram diferentes, mas podemos resumir tudo à seguinte situação: Israel, desde a sua fundação, sempre pretendeu, sem nunca o esconder, reconstituir o estado israelita bíblico. Ao longo destes anos teve de suportar alguns reveses, mas conseguiu muito mais vitórias. A cada guerra que os árabes lhe moviam, ganhava mais território. Duas únicas vezes, os israelitas cederam terreno: em 1985 retiraram da faixa que tinham conquistado ao Líbano, dado o alto custo de a manter (e também porque não faz parte da tal nação bíblica), e em 2005 abandonaram a Faixa de Gaza e o Norte da Cisjordânia. Esta foi uma retirada estratégica, destinada a dar um simulacro de país aos palestinos e assim aliviar a pressão constante que estes exerciam sobre as Forças de Defesa de Israel, IDF.

Quanto aos estados árabes e aos palestinos, nunca aceitaram a existência de Israel, pequena ou bíblica, e raramente aceitaram negociar com os israelitas. Quando o fizeram, foi porque tinham perdido uma guerra, ou por mediação da comunidade internacional.

Dentre os inúmeros acordos feitos pelas partes e não cumpridos, vale a pena destacar os acordos de Camp David, em 1978, e de Oslo, em 1993/1995. O projeto, sancionado pelas Nações Unidas, aceito por Israel como manobra tática e pelos palestinos por falta de outra opção, configura a criação de dois estados - é a famosa "Two State Solution", que cada vez parece mais distante, embora de vez em quando ainda se fale nisso.

Na verdade, esta hipótese foi enterrada de fato em 2017, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, reconheceu a pretensão de Israel (que data duma decisão do Knesset, de 1980) de transferir a sua capital para Jerusalém. Esta decisão foi imediatamente rejeitada pela comunidade internacional a todos os níveis, isto é, Nações Unidas, União Europeia, e, evidentemente, a Liga Árabe.

A decisão é tão controversa que ainda não se realizou, quase três anos depois de anunciada. Contudo, não há dúvidas que Israel a tornará uma realidade, assim que a situação táctica o permitir.

Do mesmo modo, Benjamin Natanyahu anunciou em 20 de maio deste ano a anexação de todo o West Bank (Cisjordânia), ou seja, a região entre o território consolidado de Israel e o rio Jordão que foi conquistada em 1967 e onde se encontra Jerusalém. Nessa região, fértil e densamente povoada por palestinos, os israelitas têm construído incontáveis colonatos, diminuindo progressivamente o espaço vital dos árabes. No entanto, nunca se tinham atrevido a declará-la oficialmente como território seu, ainda dentro da ficção de que aceitam a solução dos dois Estados.

O anúncio de 20 de maio, juntamente com a decisão de tornar Jerusalém capital do estado, parecia a conclusão lógica do objectivo da Israel Bíblica. Mas verifica-se agora que, mais uma vez, Netanyahu apenas jogou essa carta para ter uma moeda de troca com os países árabes - suspender a anexação a troco de estabelecer melhores relações com os seus inimigos.

E porque haveriam os estados árabes, os Emirados Árabes Unidos agora, e outros no futuro, aceitar semelhante trato? É que, no cenário de Game of Thrones da região, o (des)equilíbrio estratégico tem vindo a mudar. Por um lado, os árabes já perceberam, mesmo não querendo admitir, que Israel "veio para ficar" e que nunca conseguirão derrotar os judeus, e muito menos acabar com eles. Por outro lado, surgiu outro inimigo, mais poderoso e mais ameaçador, o Irã. Por mais "ilegal" que considerem o estado israelita, sabem que este não constitui uma ameaça expansiva. 

Tel-Haviv quer construir a sua nação bíblica e para isso não hesitará em extinguir os palestinos que pouco importam às monarquias fundamentalistas e aos estados anárquicos ou totalitários que compõem o Médio Oriente. Mas Tel-Haviv não está interessada noutros territórios e não ocupará a Síria, ou o Iraque, a não ser temporariamente, para sua defesa. 

Agora, o Irã é outra história. A República teocrática de Teerão tem ambições expansionistas notórias e vem provocando o caos onde pode, das mais diversas maneiras. Por exemplo, no Líbano, opera através do Hezbolah, que por sua vez lança ataques nas mais diversas direções. Outro exemplo é no Iémen, onde apoia os Tutsis, provocando uma guerra sem fim e grande instabilidade às portas da Arábia Saudita. Ora, Israel é também um inimigo do Irã, e nunca deixará os haiatolás construirem armas nucleares.

Por outro lado, os israelitas sabem ser inimigos terríveis, mas, desejosos que estão de acabar com a hostilidade que enfrentam desde sempre, podem ser aliados muito interessantes. Têm as melhores tecnologias, comunicações de ponta e uma tendência atávica para o negócio. Através deles, os árabes podem ter acesso a mercados e oportunidades que lhes estão vedados pelas teias de interesses internacionais.

Quanto aos norte-americanos, estão muito satisfeitos com este desenvolvimento. Têm jogado sempre com interesses antagônicos - proteger Israel a todo o custo e manter boas relações com os árabes, grandes produtores de petróleo e grandes compradores de equipamento militar.

Precisamente, há pouco tempo Netanyahu tinha criticado a decisão de Trump de vender aviões de combate do último modelo aos Emirados. Agora percebe-se que essas críticas eram apenas preparação para que os Estados Unidos não se oponham à aproximação aos árabes. 

Parece confuso? É confuso. Na Península da Arábia, e no Oriente Médio, o jogo de espelhos entre "amigos" e "inimigos" é tão complexo, os ódios tão profundos e os interesses tão amorais que é quase impossível perceber o quadro em constante mudança. 

Os princípios religiosos (shiitas, sunitas, alauitas, drusos, cristãos, judeus...) são apenas elementos de estilo para os discursos que escondem outros tipos de interesses. O petróleo, considerado como o grande corruptor da região, tem hoje menos interesse do que as ambições imperiais do Irão, da Turquia e da Arábia Saudita - para não falarmos dos países de fora que também têm cartas na manga, por diferentes razões, como a Rússia, a China, os Estados Unidos e até a enfraquecida União Europeia, que não quer bombas à porta.

Não há dúvidas que a melhor posição em relação à região é não estar lá.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal



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