Religião

10/09/2020 | domtotal.com

Brasil, qual seu grito?

Precisamos reconhecer nossa participação no pecado estrutural e clamar, não só a Deus por justiça, mas às autoridades terrenas que do alto de seus tronos insistem em não enxergar a morte carregada pela desigualdade social

26º Grito dos Excluídos em defesa da vida, realizado Praça Osvaldo Cruz, na Avenida Paulista, na manhã do dia 7 de Setembro
26º Grito dos Excluídos em defesa da vida, realizado Praça Osvaldo Cruz, na Avenida Paulista, na manhã do dia 7 de Setembro (Elineudo Meira / @fotografia.75)

Élio Gasda*

Vivemos a semana da Independência ou da Morte? Do grito dado por Dom Pedro I, em 1822, parece que escolhemos ficar com a morte. São 198 anos de extermínios, dos negros escravizados à Amazônia que arde em chamas! Uma triste trajetória que encontra sustentação nos poderes Executivo,  Legislativo e Judiciário que se rendem aos interesses de um sistema que mata. A pessoa humana deixou de ser o centro das instituições sociais, políticas e da economia. Bolsonaro está torturando um país inteiro.

Bolsonaro, coveiro do futuro, enterrou qualquer perspectiva de projeto da nação. Um cenário de decadência nacional, Brasil do neocolonialismo. Uma nação colocada de joelhos por um governo de traição nacional vergonhosamente submisso a Trump. 

Genocida, Bolsonaro já é investigado pelo Tribunal Penal Internacional por sua conduta durante a pandemia. Nesta semana as mortes chegarão a 130 mil. Sua carnificina tem endereço, foca as minorias, principalmente os índios que atrapalham seu projeto de exploração da Amazônia. 

Bolsonaro associado à pandemia é nitroglicerina pura. Um presidente que nega a ciência, a crise climática, a pandemia e a democracia. Inimigo do seu povo e do patrimônio dos brasileiros. Irresponsabilidade aplaudida e defendida em manifestações assombrosamente imbecis de uma turba de seguidores.

Mas muitos brasileiros não fogem a luta. Por mais que muitos apostam na cultura da morte, tem um povo, mesmo que em minoria, que luta pela vida! "Vida em primeiro lugar" esse é, há 26 anos, o tema geral do Grito dos Excluídos e Excluídas. Uma manifestação que tem como ponto alto 7 de setembro, "Dia da Pátria". Esse ano o tema é "Basta de miséria, preconceito e repressão" e o lema: "Queremos terra, trabalho, teto e participação". Um grito pela vida marcado pelo luto. 

Mas gritar é preciso! Além de milhares de mortes causadas pela Covid-19, a miséria e a desigualdade estão mais escancaradas. A economia brasileira andou para trás. Desnacionalizada, o sucateamento da indústria é geral. O Produto Interno Bruto apresentou retração de 9,7% no segundo trimestre de 2020. A economia afunda, mas os rendimentos dos mais ricos, 1% da população continua 33,7 vezes maior que a metade da população Brasileira (IBGE).

Pela primeira vez, mais da metade da população em idade laboral está desocupada. Dos que têm ocupação, mais de 50% caíram na informalidade - perderam os direitos, a perspectiva de futuro e a segurança. 41,3% dos jovens de 18 a 24 anos das classes D e E estão desempregados (IBGE). A taxa é a maior para a série histórica.

De janeiro a abril foram registrados 15.868 crimes violentos, crescimento de 9% em relação ao mesmo período de 2019 (Monitor da violência/G1). Só no primeiro semestre de 2020, 3.148 pessoas foram mortas por policiais, muitos inocentes como João Pedro, de 14 anos, que brincava com amigos durante uma ação da PM no Rio de Janeiro.

Tanta gente sem teto, tanto teto sem gente. 33 milhões de brasileiros não têm moradia (Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos). 48% da população não tem sequer coleta de esgoto. São 120 mil famílias sem-terra (MST). A floresta queima e a imagem brasileira vira cinzas no mundo. O desmatamento da Amazônia aumentou em 34% nos últimos 12 meses (Inpe).

Um país no atoleiro. Mas, em vez de tentar sair, afunda ainda mais na sua própria mediocridade. Em tempos difíceis, é um esforço suscitar debates esquecidos, porém indispensáveis. Numa democracia de verdade, essa realidade inaceitável teria mobilizado políticos, mídia, sociedade civil, religiões. No Brasil contemporâneo, quem se importa? Não há público para diálogos sérios em torno de um projeto de nação. Indignante.

Aqui está a importância do Grito. Carregado de simbolismo, marcado pela pandemia, o 26º Grito dos Excluídos e Excluídas reuniu física e virtualmente grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais. Não só deram voz aos pobres, descartados e marginalizados. Fortaleceram e deram visibilidade aos Movimentos Populares, as Centrais de Trabalhadores, sindicatos, às Organizações e Comitês Populares que lutam pelo direito dos mais vulneráveis (mulheres, negros, LGBTs, índios, quilombolas).

O Grito mostra a necessidade de se promover debates que ajudem a refletir e construir mudanças sociais efetivas. As denúncias e a luta também passam pelos povos do campo, trabalhadores sem-terra, despejados, suas casas derrubadas, plantações destruídas, armas apontadas para crianças, idosos e mulheres.

Como diz papa Francisco "não deixemos que nos roubem a esperança".

Precisamos reconhecer nossa participação no pecado estrutural e clamar, não só a Deus por justiça, mas às autoridades terrenas que do alto de seus tronos insistem em não enxergar a morte carregada pela desigualdade social. O silêncio é pecado da omissão.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!