Religião

11/09/2020 | domtotal.com

Título de nova encíclica papal não será traduzido

Na tradição pontifícia, os nomes de documentos desse tipo são publicados, em sua maioria, na língua oficial da Igreja, o latim. Francisco faz algo raro, intitulado-a com uma frase em italiano: 'Fratelli tutti'

Além de focar nos problemas causados pelo coronavírus, é provável que Francisco insista nos assuntos que tem evidenciado em seus discursos sobre a pandemia
Além de focar nos problemas causados pelo coronavírus, é provável que Francisco insista nos assuntos que tem evidenciado em seus discursos sobre a pandemia (Vatican Media)

Mirticeli Medeiros*

Muitos questionaram a respeito do título da terceira encíclica do papa Francisco, que será assinada pelo pontífice no dia 3 de outubro, em Assis, na Itália. Adiantamos nesta quinta-feira (10), em primeira mão, que ela se chamará Fratelli tutti em todas as línguas. A Sala de Imprensa da Santa Sé informou ao Dom Total que não será feita nenhuma tradução do título. Especulava-se que o nome declinaria para "Todos irmãos", em português. Alguns sites americanos especializados, inclusive, chegaram a apostar em "All brothers", em inglês. 

A novidade em relação ao documento papal é que o nome oficial não será em latim, como aconteceu com a encíclica Lumen fidei, publicada em 2013. Com isso, papa Francisco ousa mais uma vez: ele é um dos poucos pontífices, na história do catolicismo, a batizar uma encíclica em um idioma moderno. Outro caso de “liberdade poética” aconteceu com a segunda encíclica, a Laudato si, de 2015, que no dialeto umbro, da região de Francisco de Assis, significa “Louvado sejas”. 

Além de do papa atual, somente Pio XI, nos anos 1930, gozou dessa liberdade. A Non abbiamo bisogno - do italiano, “Não temos necessidade” -, de 1931, foi uma resposta da Igreja às ações repressivas do regime fascista. Além dela, o pontífice italiano publicou a Mit brennender Sorge - do alemão, “Com grande preocupação” -, em 1937, na qual escreveu aos bispos alemães e condenou o nazismo.

Quando o título é publicado em latim, é de praxe que ele não seja traduzido. Como se tratava de uma frase em italiano, havia incertezas em relação à denominação por parte do Vaticano. Portanto, fim do mistério.

A frase Fratelli tutti – todos irmãos, do italiano –, introduz a "sexta admoestação de Francisco de Assis", cujo título é A imitação do Senhor. O trecho faz parte de uma coleção de 28 textos curtos medievais, inspirados nos princípios de vida do santo, que é considerada a carta magna da espiritualidade franciscana. Depois da Laudato si, será a segunda encíclica a se inspirar no legado do religioso do século 13.

Conteúdo da encíclica

Francisco é o papa das surpresas, porém, em alguns momentos, consegue ser previsível. Tudo isso porque o papado, enquanto instituição, não foge às próprias regras, independente de quem governe a Igreja Católica.

É de se esperar que, em momentos de crise, o romano pontífice, de alguma forma, se manifeste. E na maioria das vezes, escolhe a encíclica como instrumento para expor um parecer oficial.

O documento nada mais é que uma "carta circular", como o próprio nome sugere, e é endereçada a todos os católicos. Desta vez, Francisco seguiu a cartilha pontifícia. E pode confirmar uma tendência: nas fases mais desafiadoras da história, o catolicismo produziu seus mais célebres escritos.

Com João XXIII, esse tipo de texto se tornou ainda mais abrangente, já que foi ele quem começou a inserir na introdução das encíclicas a expressão "aos homens de boa vontade"; ou seja, não somente aos católicos aquela mensagem é destinada. Na Pacem in Terris (1963) aparece essa nova modalidade.

E é provável que Francisco repita a fórmula. Na Laudato si (2015), à diferença da Lumen fidei (2013), que especifica os destinatários (bispos, padres, diáconos, consagrados e fiéis leigos), o papa ocultou essa especificação.

De acordo com o comunicado oficial do Vaticano, publicado no último dia 5, será um texto "sobre a fraternidade humana", o que sugere um apelo à cooperação internacional em tempos de crise. É uma encíclica de cunho social, que poderá se tornar uma das mais completas já publicadas pelos pontificados contemporâneos, no tocante à versatilidade de temas tratados.

Talvez seja cedo para dizer, mas cogita-se que, se assim for, causará um impacto tão expressivo quanto a Pacem Terris de João XXIII, citada anteriormente, que foi escrita num contexto de Guerra Fria. Ainda hoje, os especialistas consideram o documento do papa bom um texto fundamental sobre a dimensão social do evangelho.

Além de focar nos problemas causados pelo coronavírus, é provável que Francisco insista nos assuntos que tem evidenciado em seus discursos sobre a pandemia: o cessar-fogo global, o cuidado para com o meio ambiente, o espírito de coletividade e o convite à colaboração entre cristãos e não cristãos.

A declaração conjunta do papa Francisco e o grande imã de Al-Azhar, Ahmed Al-Tayyib, assinada em Abu Dhabi, em 2019, também poderá servir de base para o texto. No documento, que também privilegia o tema da fraternidade humana, os dois líderes se comprometeram a trabalhar juntos na construção de um mundo mais justo, rechaçando os ataques contra a dignidade humana em todas as suas formas.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.



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