Cultura

11/09/2020 | domtotal.com

Realismo esperançoso

É crucial ter estratégias para transformar nossas aspirações em capacidades

É possível valorizar a cultura popular como base de criação de uma arte brasileira erudita e, ao mesmo tempo, projetá-la no contexto das novas tecnologias e habilidades do profissional do futuro
É possível valorizar a cultura popular como base de criação de uma arte brasileira erudita e, ao mesmo tempo, projetá-la no contexto das novas tecnologias e habilidades do profissional do futuro (Ilustração de Rodrigo Galdino)

Eleonora Santa Rosa*

Não guardo sintonia maior com a obra de Ariano Suassuna, nem tampouco com suas conferências performáticas. Assisti a uma delas há muitos anos, por dever de ofício, e, confesso, achei boa parte de sua "aula" conservadora esteticamente, seja em razão de sua leitura sobre a arquitetura moderna brasileira, principalmente a produzida em nosso país nos anos 40, 50 e 60, seja sobre a poesia concreta, as artes de vanguarda e uma série de outras manifestações de cunho contemporâneo, por assim dizer.  Entretanto, essa ausência de afinidade estética não impede o reconhecimento do significado das intenções de seu Movimento Armorial, que pregava a valorização da cultura popular do nordeste como base de criação de uma arte brasileira erudita, e de sua inegável contribuição como escritor, dramaturgo e defensor das raízes nordestinas em sua extensa militância, marcada por declarações polêmicas, de proposital radicalidade, e humor abrasador.

Este intróito é para contextualizar o título deste artigo derivado da apropriação de uma fala de Suassuna, relembrada em recente entrevista do professor, cientista, consultor, empreendedor e visionário Silvio Meira, uma das mais brilhantes e provocadoras cabeças brasileiras, responsável pelo magnífico Porto Digital em Recife, além de uma miríade de iniciativas de altíssima magnitude e complexidade, que cita o velho mestre, seu conterrâneo de Taperoá, no encerramento de sua participação no programa de Pedro Dória (por sinal, muito bom arguidor).

Aqui, um parêntesis pessoal: tive a grata satisfação de contar com a lucidez, sagacidade e sabedoria descortinadoras de Silvio e de seu irmão Luciano Meira no engendramento do Plug Minas em Belo Horizonte, iniciativa ousada da minha gestão na Secretaria de Estado de Cultura, nos idos de 2006, voltada à criação e implementação de um centro de referência da juventude, lastreado na cultura e nas plataformas digitais, e nas novas mídias, com ênfase no audiovisual, que colaboraria, de modo pioneiro, para a formação de habilidades e capacidades de jovens para o mercado de trabalho, para as profissões do futuro. Por intermédio e na companhia do querido professor Ivan Moura Campos, um bamba na área da computação e conexos, fui a Recife conversar com Sílvio, quando ele ainda ocupava o posto de cientista-chefe do Cesar (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife),  outro intento espetacular sob sua batuta, para apresentar-lhe as ideias que estávamos discutindo em Minas, na expectativa de que aceitasse o convite para ser nosso principal consultor no plano de urdimento e implantação do Plug. Concebemos naqueles idos os conceitos e as balizas diretoras de instalação da série de equipamentos que ocupariam os antigos galpões (mais de uma dezena) dos menores infratores, internos da Febem. O Plug Minas teria, para além de todo seu programa inovador, desenvolvido sob a direção e orientação de Sílvio, uma missão de ressignificação e requalificação radical de um espaço de punição e dor. Ainda na minha gestão, assinei os convênios de implantação dos primeiros equipamentos, cujo carro-chefe foi a Oi Kabum!, uma escola, espécie de laboratório de cultura digital da Oi Futuro, em parceria com  a competentíssima Maria Arlete Gonçalves, então diretora do Instituto da empresa de telefonia, figura fundamental numa série de ações estruturadoras no campo das novas mídias e tecnologias no Brasil.  Infelizmente, por uma série de circunstâncias, o arrojado projeto do Plug Minas sofreu sérios desvirtuamentos ao longo dos anos, com ocupações em desacordo com seus princípios basilares, tendo sido esvaziado por governos insensíveis e descompromissados com uma visão prospectiva das potencialidades e possibilidades da cultura digital.

Encerrado o parêntesis, volto ao objetivo do artigo de hoje que é chamar atenção para a excelência e importância da entrevista de Silvio Meira, caracterizada pela competência e sensibilidade das perguntas e pela inteligência e assertividade das respostas, que muito nos ajudam a compreender a complexidade dos impactos da Pandemia em termos da aceleração da digitalização no país, dos novos empregos, dos desempregos, dos efeitos danosos da educação praticada no Brasil, do desperdício das potencialidades dos extratos mais jovens e o aprendizado da matemática, da crise social que advirá pelos tempos que não só se anunciam mas já vigoram e das falhas maciças das políticas públicas.

Mais eficiente do que desfiar os pontos principais enfocados, é informar diretamente o vídeo – Silvio Meira e o mundo digital pós-pandemia, para que os leitores possam fazer uma escuta atenta dos relevantíssimos temas abordados.


Sílvio, ao responder a última pergunta de Pedro Dória – "olhando para o futuro, temos mais motivos para sermos pessimistas ou otimistas" – , resgata a definição de Ariano: "o otimista é um tolo, porque o otimista acha que as coisas vão se resolver de alguma forma mágica, que ele nem sabe nem exatamente qual é, mas, por outro lado, o pessimista é um chato, porque ele acha que nada vai dar certo, independente do que todo mundo fizer, inclusive ele, e que bom mesmo é ser um realista esperançoso", que entende a complexidade do mundo em que vivemos e que tem de entender as dificuldades enfrentadas para mudar essa realidade; e que é crucial  ter estratégias para transformar nossas aspirações em capacidades; e criar capacidades e competências, por meio de estratégias adequadas, enfim, algo mais ou menos por aí. Imperdível!

*Jornalista, ex-secretária de estado de Cultura de Minas Gerais e ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR.



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