Cultura

14/09/2020 | domtotal.com

A chuva e o vento

Naquele dia, por precaução e medo, recolhi-me aos meus aposentos e orei a Santa Bárbara

Mas havia no ar algo ameaçador. Um raio rasgou o céu e fez ribombar um trovão
Mas havia no ar algo ameaçador. Um raio rasgou o céu e fez ribombar um trovão (Nikolas Noonan/Unsplash)

Afonso Barroso*

Certo dia o vento chamou a chuva a um canto e disse pra ela:

– Quero acabar com a nossa parceria. Não posso mais viver ao seu lado.

A chuva, surpresa, perguntou porquê.

– Porque toda vez que nos encontramos só fazemos causar dor, mortes e destruição.

– Mas, espera. Mesmo isolados, nós causamos isso tudo. Você de repente é um tornado ou um furacão, que não tem nada a ver comigo.

– Como não tem, sua fingida, sua dissimulada? Eu sou manso e humilde de coração. Só fico bravo quando você apronta das suas. Você junta as nuvens, provoca uma aglomeração no céu, escurece tudo e faz com que eu me enfureça também. É assim que se forma o ciclone, por exemplo, sempre assustador. Sozinho eu não caso dano nenhum à humanidade, muito antes pelo contrário.

– Mas eu não posso viver sem você - choramingou chateada a chuva, cheia de charme.

O vento até achou interessante aquela aliteração, lembrando que chovia e ventava no dia em que o rato roeu o roupão roto do rei de Roma. Mas não se deu por vencido:

– É melhor a gente se separar. Gosto de você quando cai mansa e benfazeja, fazendo com que as plantas floresçam, as árvores fiquem mais verdes, as matas cantem de alegria. Não gosto é quando você me puxa pro seu lado e me obriga a sair arrasando tudo. Isto, definitivamente, eu não quero mais. Quero soprar como se sopra para aplacar uma dor. Quero ser apenas a brisa que inspira os poetas e o vento que balança as palhas do coqueiro. Posso até assobiar no telhado, mas não quero destelhar as casas nem danificar as construções.

A chuva pensou, pensou, depois disse:

– Tudo bem, seu ingrato. Então vamos ficar assim, você pra lá, eu pra cá. Mas lembre-se: você não suportará viver sem mim por muito tempo. Não é da sua natureza viver sempre sozinho.

Aquelas palavras da chuva ficaram pingando na cabeça do vento, mas ele estava decidido a cumprir o que havia proposto. Queria ser um vento amigo, não um vento mau.

Passou-se algum tempo, não muito, quando de repente o céu se enfureceu e despejou sobre a terra uma chuva medonha. O vento, que estava desprevenido, foi sacudido pela força da Natureza e obrigado a se juntar ao temporal que desabava. Como estava há vários dias sem alguma atividade realmente emocionante, não resistiu. Juntou-se à chuva, que a essa altura já dava risadas histéricas ao ver o velho amigo vento, agora furiosa ventania, sucumbir aos seus desencantos. E os dois novamente laboraram juntos, reeditando a parceria mortífera. Arrasaram tudo que havia pela frente, num dia de destruição, inundações e dezenas de mortes.

Não me lembro bem se foi Fedro, Esopo ou La Fontaine que me contou essa história. Só sei que foi em um dia de chuva fina e vento leve. Mas havia no ar algo ameaçador. Um raio rasgou o céu e fez ribombar um trovão. Por precaução e medo, recolhi-me aos meus aposentos e orei a Santa Bárbara de Nicomédia.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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