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12/09/2020 | domtotal.com

McEwan discute os limites do humano em 'Máquinas como eu'

Romance promove encontro de dois gênios da inteligência artificial

O britânico explora os limites éticos da criação de máquinas capazes de julgar o ser humano
O britânico explora os limites éticos da criação de máquinas capazes de julgar o ser humano (Jonathan Nicholson/AFP)

Jacques Fux*

“Era uma aspiração religiosa abençoada pela esperança, era o Santo Graal da ciência. Nossas ambições eram tão sublimes quanto mesquinhas - a realização de um mito da criação, um monstruoso ato de amor-próprio. Tão logo se tornou factível, não nos restou alternativa senão perseguir aquele objetivo sem pensar nas consequências. Em termos mais elevados, tínhamos como meta escapar de nossa mortalidade, confrontar ou mesmo substituir a divindade por um eu perfeito. Do ponto de vista prático, tencionávamos criar uma versão melhorada e mais moderna de nós mesmos, exultando com a alegria da invenção e a excitação da maestria. No outono do século 20, isso por fim aconteceu, os primeiros passos rumo à realização de um velho sonho, o início de uma longa lição em que nos ensinaríamos que, por mais complicados que fôssemos, por mais defeituosos e difíceis de descrever em nossas ações e comportamentos menos complexos, podíamos ser imitados e aperfeiçoados”.

Assim McEwan inicia seu livro Máquinas como eu em que uma inteligência artificial – bem próxima da “perfeição” – foi finalmente concebida pelo homem que se tornaria, então, uma espécie de “deus”, de acordo com suas reflexões ao longo do texto. Uma empresa começou a comercializar alguns “Adãos e Evas” que muito se assemelhavam aos humanos, porém com um raciocínio lógico bem distinto. Esses protótipos artificiais foram bem engendrados – pele, cor, fluídos, empatia, sensibilidade –, mas acabaram não dando muito certo habitando esse nosso mundo imperfeito, falho e absurdo. A narrativa ficcional levanta diversos problemas e questões filosóficas e nos leva a pensar bastante nos grandes problemas da humanidade.

O interessante é notar que o escritor inglês não coloca essa invenção no futuro, mas no outono do século 20. Qual seria a razão? McEwan imagina que se o nosso maior inventor-pensador, Alan Turing, não tivesse se suicidado (por conta das autoridades inglesas) e, assim, tivesse se associado a outro grande nome da inteligência artificial, Demis Hassabis, os avanços nessa área do conhecimento teriam sido exponenciais e, portanto, já na década de 1980 teríamos podido conviver com essas Evas e Adãos.

Alan Turing foi um matemático, lógico, criptoanalista e cientista da computação. Conhecido como o pai-papa teórico da computação, trabalhou com matemática como funcionário da inteligência britânica. Sua função: quebrar códigos alemães para saber os próximos ataques. Turing conseguiu desvendar a criptografia do Enigma, o que acelerou o fim da guerra. Porém, depois de seu ato heroico e de ter salvado centenas de milhares de vidas, sua homossexualidade prevaleceu sobre suas honrosas contribuições.

Infelizmente. Por conta desse “crime” – atos como esse eram criminalizados no Reino Unido – o gênio foi processado em 1952 e condenado. Ele aceitou a pena por castração química como alternativa à prisão e, por estar deprimido e abalado com a quantidade de hormônios que tomava e que o deixava incapaz de produzir trabalhos matemáticos criativos, decidiu se matar ingerindo veneno em 1954. Em 24 de dezembro de 2013, Turing receberia postumamente o perdão real da rainha Elizabeth II.

Demis Hassabis, no entanto, ainda está entre nós. CEO e cofundador da DeepMind, uma startup de IA – que foi comprada pela gigante Google – tem a missão, de acordo com as diretrizes publicadas no site, de resolver todos os problemas acerca da “inteligência” e depois usar essa mesma inteligência artificial para resolver os outros problemas. Sonho? Devaneio? Podia fazer logo uma vacina contra a Covid, não?

O fato é que as descobertas no campo da neurociência, o rápido processo de aprendizado de máquinas associado aos novos desenvolvimentos de hardware, fez com que a sua empresa produzisse resultados surpreendentes. Por exemplo, a criação do AlphaGo e posteriormente do AlphaZero - programas especializados em jogos - são o cerne de algoritmos importantíssimos e revolucionários. Além disso, esses softwares de AI conseguiram derrotar o campeão mundial de xadrez (que já era um algoritmo) e o do jogo oriental Go, considerado um passo enorme no desenvolvimento da “inteligência”, algo como o um santo graal da IA.

Agora imaginemos Turing e Hassabis juntos e dispostos a resolver os problemas fundamentais do conhecimento? Foi justamente esse encontro que McEwan concebeu em seu livro. Em sua narrativa, o autor consegue de forma interessante colocar o foco da irracionalidade e da inconsistência humana na visão do Adão. A mais poderosa inteligência artificial, após analisar uma quantidade gigantesca de dados e fenômenos humanos, nos encara como ignorantes, irracionais e paradoxais. Estaria a AI certa? Se o Adão tivesse dado uma voltinha por 2020, certamente.

Apesar de um pouco novelesco, com dramalhões exagerados – estupro, adoção, traição – vale a pena a leitura. McEwan consegue discutir questões relevantes e filosóficas sobre o advento e os perigos da inteligência artificial.

MÁQUINAS COMO EU
De Ian McEwan
Companhia das Letras
304 páginas
R$ 54,90 (livro) e R$ 38,90 (e-book)

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.



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