Religião

14/09/2020 | domtotal.com

A religião que se seduz pelo poder faz mal à pessoa e à sociedade

Há muitos padres que usam a religião para fazer carreira, ter poder, viver com segurança... Isso é intolerável

Há políticos que usam a religião para seus interesses. E aqueles que defendem tanto a religião, não fazem caso ao Evangelho
Há políticos que usam a religião para seus interesses. E aqueles que defendem tanto a religião, não fazem caso ao Evangelho (Unsplash/Everson de Souza)

José María Castillo*

As notícias que a mídia nos dá hoje, sobre a violência e os absurdos sociais cometidos em muitos lugares, nos últimos anos, nos obrigam a pensar (mais uma vez) sobre o perigo que pode representar a religião. Perigo para a paz, para a política, para a sociedade e para a coexistência dos cidadãos etc.

O que acabei de dizer não é novidade. É um fato bem conhecido e comprovado. E não estou me referindo apenas a eventos do passado. Estamos vivendo isso esses dias. Anjos e demônios nos diários de políticos de alto escalão.

Vemos como a religião está dirigindo a política, atacando ou defendendo os candidatos, para o bem de uns, para o infortúnio de outros. Estamos loucos?

Bem, nesse contexto, eu afirmo que, no cristianismo e em nossa Igreja, isso atingiu o cerne de nossas crenças, o coração da fé. Por isso, há muitos cidadãos que, devido a esta série de absurdos, abandonaram a religião. Estamos perante um assunto da maior importância. Para o bem ou para o mal, não só da política, mas também da religião e da fé.

No cristianismo, temos isso claro. Infelizmente, muitas vezes, os clérigos não ensinam isso como deveriam. Porque com certeza há clérigos interessados no assunto da política e o poder. E há muitos padres que usam a religião para fazer carreira, ter poder, viver com segurança e ser pessoas importantes. Isso é intolerável. 

Poder por poder

Que solução Jesus deu a este assunto tão delicado e tão sério? Jesus deslocou a religião: tirou-a do templo, confrontou os sacerdotes, nunca participou nas cerimônias do "lugar santo". Jesus orou muito. Passou noites inteiras em oração. Mas para orar, ele não foi ao templo. Jesus foi para lugares solitários. A religiosidade que o Evangelho nos ensina não é como a religiosidade que a religião ensina.

É exatamente por isso que Jesus ignorou a política. Ele nunca falou contra o imperador. Jamais falou contra Pôncio Pilatos. Ele também não enfrentou os legionários romanos. Quando Herodes massacrou João Batista, em uma noite de loucura, Jesus não disse uma palavra. E quando informaram a Jesus, diante de uma multidão de pessoas, que Pilatos havia massacrado alguns samaritanos quando estavam celebrando um ato religioso, Jesus não disse uma palavra contra Pilatos. Ao contrário: para as pessoas à sua frente, dizia: "E você, se não se converter e mudar de vida, vai acabar como esses samaritanos".

Além disso, no relato da paixão de Cristo, quem estava contra Jesus? Os sacerdotes. E quem defendeu Jesus no momento da condenação? Pôncio Pilatos. Ainda, quando Jesus agonizou e morreu na cruz, quem fez o primeiro ato de fé, reconhecendo Jesus como o "Filho de Deus"? Não foram os apóstolos, que resistiram em acreditar. Os primeiros crentes em Jesus Cristo foram "O centurião e os romanos" (Mt 27, 54) e as mulheres que o acompanhavam (Mt 27, 55-56), agora incapacitadas pela religião, para poderem ser iguais aos homens em dignidade e direitos.

Tudo isto aconteceu muito antes de Deus se fazer presente no mundo, na pessoa e na vida daquele pobre nazareno, que era Jesus. E isto continua acontecendo agora: há políticos que usam a religião para seus interesses. E aqueles que defendem tanto a religião, não fazem caso ao Evangelho. Para Jesus, o primeiro não são as cerimônias e os rituais. Para Jesus, o primeiro é o ser humano, especialmente os que mais sofrem, os enfermos, os pobres, as crianças, os pecadores e as mulheres.

Jesus, frente a Pilatos

Quando vamos deixar de tirar proveito da religião, para extrair dinheiro e poder dela, mesmo disfarçando nossos interesses e fazendo parecer que é o melhor para todos? Quando veremos os cristãos, em massa, identificados como os últimos deste mundo, como o povo de Deus?

E acabo esta reflexão pedindo, sobretudo aos nossos bispos, "sigam Jesus", vivam o Evangelho e sejam (e sejamos todos!) presença de Jesus neste mundo. Os bispos ensinarão o Evangelho de Jesus quando os vejamos vivendo como Jesus viveu. E o mesmo deve ser dito da hierarquia, dos religiosos e dos clérigos em geral. E quem ainda acredita no projeto do Cristianismo e em sua razão de ser, deve fazer o mesmo. Não é uma questão de argumentos. É o que decide se somos ou não crentes em Jesus Cristo.

Publicado originalmente por Religión Digital


Tradução: Ramón Lara



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