Economia

11/09/2020 | domtotal.com

Arroz a R$ 43: notificar supermercado e produtos não serve para nada, diz economista

Coordenador do Índice de Preços ao Consumidor critica postura do governo Bolsonaro

Preços de produtos básicos dispararam em todo país
Preços de produtos básicos dispararam em todo país (Tânia Rêgo / Arquivo Agência Brasil)

André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), diz que a decisão do governo de notificar produtores, supermercadista e ameaçar com multas por aumentos abusivos de preços dos alimentos da cesta básica, especialmente do arroz, que subiu quase 20% este ano para o consumidor, "não serve para nada". "Já aprendemos essa lição no passado", argumenta.

Quando houve intervenção e desrespeito às leis de mercado, o resultado foi mais escassez e alta de preço, lembra.

Em relação à redução da alíquota de importação do produto para diminuir a alta de preços (outra medida adotada pelo governo), o especialista adverte que pode ser um jogo de efeito nulo, se o câmbio continuar a se desvalorizar. Ele acredita que o ponto básico é reduzir as incertezas domésticas para que o dólar se estabilize e os preços das commodities agrícolas formados no mercado internacional parem de subir em reais. Confira trechos da entrevista:

A alta da inflação preocupa?

Não preocupa porque não é uma alta generalizada. Ela está concentrada nos preços de alimentos e a alimentação responde por 20% dos preços ao consumidor. Os outros 80% seguem muito bem comportados, até com queda. A preocupação que temos com a alta de alimentos é como ela afeta as populações mais carentes. Essa é uma preocupação social.

Quando a inflação dos alimentos deve voltar à normalidade?

No curto prazo, é difícil que volte à normalidade. A alimentação deve continuar respondendo majoritariamente pela inflação de 2020. Devemos encerrar o ano com inflação de dois dígitos para alimentos e a maior influência no índice geral. Mas, mesmo assim a expectativa é chegar em dezembro com uma inflação média abaixo do piso da meta, que é 2,5%. Isso mostra que o efeito não é generalizado e concentrado em alimentos.

A alta dos preços de alimentos pode mudar o cenário da política monetária na reunião do Copom da próxima semana?

O desafio para a política monetária não existe neste momento. O juro básico deve continuar onde está. Não há nenhuma novidade que force o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) a tomar uma decisão diferente em relação aos rumos da Selic (a taxa básica de juros).

A decisão do governo de notificar produtores e varejistas e ameaçá-los com multa pelo aumento de preços resolve?

Não serve para nada. Já aprendemos essa lição no passado. Tivemos os fiscais do Sarney (José Sarney, presidente da República entre 1985 e 1990), uma turma que ia para rua. Tivemos congelamento de preço de energia. Nada disso surtiu efeito. Muito pelo contrário. Isso criou rigidez e desabastecimento. Quando você tabela ou limita as leis de mercado, os produtores são desestimulados a continuar naquele segmento. Em geral, o resultado é escassez de produto e aumento de preço. Não se deve intrometer nas leis de mercado.

Reduzir tarifa de importação de alimento tem efeito prático na inflação?

Pode não ter efeito prático, porque se o dólar continuar desvalorizando, o que se tirou de imposto pode, eventualmente, ter de importar o produto mais caro. Mas, em geral, quando se baixa imposto, cria-se um pouco mais de competitividade e acaba favorecendo alguma redução ou pelo menos o preço para de subir por algum tempo. O ideal seria fazer isso para os itens da cesta básica e não considerar somente o arroz.

A redução do auxílio emergencial para R$300 pode conter a demanda por alimentos?

Tira um pouco o fôlego das famílias. Vamos ter muita sorte se o período do fim do auxílio casar com a retomada da atividade. É o que está havendo agora com a flexibilização do isolamento. Na medida que o comércio volta à normalidade, gera-se mais emprego e renda. Talvez isso compense um pouco o recuo do auxílio emergencial.


Agência Estado



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias