Cultura

14/09/2020 | domtotal.com

Gil, um homem sem inveja

Embora a inveja seja algo humano, não a enxergo em Gil

Gilberto Gil participa de inauguração de painel em sua homenagem na Cinelândia, no centro do Rio, em 2017
Gilberto Gil participa de inauguração de painel em sua homenagem na Cinelândia, no centro do Rio, em 2017 (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Ricardo Soares*

Provavelmente eu esteja errado. Mas quando olho para Gilberto Gil vejo um homem sem inveja. Fico cá pensando que quando Caetano fez aquele programa com Chico na rede Globo, o Gil, plácido, devia observar com serenidade, sabendo-se da mesma altura artística que os dois companheiros e parceiros musicais.

A inveja é inerente ao ser humano e provavelmente Gil a tem, mas não a enxergo, ou porque veja nele um negro que envelhece linda e sabiamente ou porque o considere a versão tropicalista de um griô africano, cheio de histórias  e acontecimentos a contar a tantas gentes. Gosto de Gilberto Gil até por tolerar de forma tão plácida e serena o exibicionismo de sua filha Preta, que talvez por ser filha de Gil imagine ser mais do que de fato é. 

Fico me perguntando porque, numa madrugada quente, insone e pandêmica, eu esteja refletindo sobre a "não inveja" de Gilberto Gil. Talvez porque estejamos num mundo e num país repleto de inveja e de invejosos. Eu mesmo tenho as minhas, a mais vistosa e reluzente, aquela que contempla escritores que conseguem viver bem dos seus próprios livros. São poucos, mas, creiam, eles existem, inclusive no Brasil. Não estou falando de talento e sim de sobrevivência. Daí justamente a minha inveja, pois alguns são tão ruins, mas aí estão, ganhando um dinheirão..

Mas aqui peguei um precário desvio e me afastei de Gilberto Gil, o homem que embute todas as definições clichês que possamos emprestar a artista de tal dimensão. Vejo Gil hoje magro e sereno e quase não reconheço o Gil gordinho de barba e cara de escriturário quando cantava Domingo no parque. É e não é a mesma pessoa. É e não é a mesma trajetória poética e musical que atravessa gerações, deixando marcas tão bonitas, sendo que uma das maiores parece, sim, a ausência de inveja e a paz que ele transmite. Justamente a paz que invadiu o meu coração como diz aquela sua linda canção composta com João Donato.

*Ricardo Soares é jornalista, roteirista e escritor. Publicou 9 livros, o mais recente "Devo a eles um romance" disponível no site da editorapenalux.com.br



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