Religião

15/09/2020 | domtotal.com

Qual o preço de uma cultura sem paz?

Conflitos podem se tornar tão agudos ao ponto de fomentarem atos violentos

É dever dos cristãos não somente rezar pedindo a paz, mas se posicionarem com firmeza diante das estruturas sociais e governamentais que impulsionam situações de injustiças
É dever dos cristãos não somente rezar pedindo a paz, mas se posicionarem com firmeza diante das estruturas sociais e governamentais que impulsionam situações de injustiças (Unsplash/ Jordy Meow)

Tânia da Silva Mayer*

O ser humano sempre se viu envolvido socialmente numa teia de relações, pois que ninguém concebe a própria humanidade sozinho. Mas essas relações humanas sempre estiveram permeadas por conflitos. A perspectiva de um momento no espaço-tempo das sociedades sem a presença de embates e divergências pode soar ingênua demais quando constatamos em diversos períodos da história uma gigantesca falta de entendimento e, por esse motivo, os consequentes embates e enfrentamentos entre os povos e nações ou apenas entre pequenos grupos e entre indivíduos.

Em nossos dias, percebemos como as redes sociais têm apresentado e ampliado os conflitos entre as pessoas. Por isso, os comentários às postagens e publicações se tornaram um campo fértil para trocas de acusações, ofensas e injúrias de todos os tipos, muitas vezes direcionadas às pessoas que não conhecemos e nunca vimos. A expressão mais aguda para esses conflitos nesse ambiente virtual é o que conhecemos por "cultura do cancelamento".

Uma pessoa é cancelada por outras em razão da expressão de suas ideias, posicionamentos ou ações. Mas esse movimento é bastante perigoso porque, se por um lado pode fomentar discussões associadas à defesa dos inalienáveis direitos humanos e defesa de minorias sociais, por outro lado, não refletidamente, pode acirrar ainda mais discussões que não chegam a lugar nenhum, promover um linchamento virtual irreflexivo, que pode vir a prejudicar seriamente a vida e as relações de quem se expõe nas redes.

Mas se hoje os conflitos percorrem o caminho das ruas para as redes e das redes para as ruas, é razoável considerar que eles ultrapassam os séculos. Inclusive, a tradição judaico-cristã apresentará uma narrativa mitológica para dar conta desse movimento entre pessoas e grupos. Por isso mesmo, no livro sobre as origens, explica, a partir das figuras dos irmãos Abel e Caim, como os conflitos existem e podem ser perigosos ao ponto de provocar o extermínio das vidas humanas. E, conforme a canção Esquiva da esgrima, do cantor e compositor brasileiro Criolo, que retoma o mito judaico-cristão: "É que Abel tinha um irmão, mas Caim tinha a malícia".

No fundo, os choques e os embates podem apresentar diferentes origens e motivações. Mas normalmente se dão pelo desacordo que criamos por sermos diferentes uns dos outros, ou melhor, por não aceitarmos essas diferenças e por querermos eliminá-las. Isso se dá justamente porque nos sentimos ameaçados em nossas seguranças mais infantis. Caim sente inveja e ciúmes pelo sucesso do irmão. Sem controlar tais sentimentos, inflama-se de ódio e decide matá-lo. Assim procede, elimina o seu diferente por saber que não pode ser como ele.

Os conflitos podem se tornar tão agudos ao ponto de fomentarem atos violentos e culminarem em guerras que colocam a vida de milhões de pessoas e seus povos em sérios riscos. Mas é fundamental considerar que a paz não se faz à revelia dos conflitos entre pessoas e grupos de uma sociedade. Tampouco ela significa um estado social de contentamento e eliminação das diferenças. No entanto, não haverá paz enquanto não houver o balizamento das relações sociais, a partir de uma lógica de justiça que considere assegurar, ao menos, o mínimo fundamental para que uma pessoa possa viver uma vida com dignidade.

Por isso, é dever dos cristãos não somente rezar pedindo a paz em seus cultos e liturgias, mas se posicionarem com firmeza diante das estruturas sociais e governamentais que impulsionam situações de injustiças e subtraem o arroz com feijão, o pão nosso de cada dia, e a dignidade da vida dos menores da sociedade. Embora não possamos passar sem os conflitos, saibamos que nossa recusa em os minimizar de maneira justa pode nos fazer pagar o alto preço de uma cultura sem paz, que é, precisamente, o de provocar o apagamento das existências, em sua forma mais aguda, a morte.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com



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