Religião

16/09/2020 | domtotal.com

O que a ciência não pode nos dizer sobre a mente (mas as Escrituras podem!)

Chamamos Cristo de salvador porque acreditamos que ele é aquele que reúne mundos de significados

Uma reflexão para o 24º domingo do tempo comum Leituras: Eclesiástico 27,30-28,7; Romanos 14, 7-9; Mateus 18: 21-35

Segundo Greene, aprendizagem e criatividade não requerem livre arbítrio
Segundo Greene, aprendizagem e criatividade não requerem livre arbítrio (Unsplash/Natasha Connell)

Terrance Klein*

Em todos os campos do conhecimento, nossas imagens mentais nos ajudam a compreender o mundo que encontramos ou nos impedem a reflexão. Um gênio ou mesmo um professor de sucesso é alguém que desenha uma nova imagem em nossas mentes, que nos leva a insights mais profundos.

Em seu livro mais recente, Until the end of time: mind, matter, and our search for meaning in an evolving universe (Até o fim dos tempos: mente, matéria e nossa busca por significado em um universo em evolução), o físico Brian Greene oferece uma imagem mental do que acontece quando passamos a saber algo. Filósofos como Immanuel Kant nos avisaram por séculos que isso é impossível de se fazer e e igualmente nos é impossível parar de tentar fazê-lo. A tarefa é cada vez mais difícil com a expansão e a diversificação do conhecimento, por isso o livro de Greene vale a pena.

No entanto, ao tentar entender o que significa para nós o ato de conhecer, devemos perguntar continuamente se a imagem apresentada é suficientemente expansiva e abrangente. Todavia, essa proposta realmente ilustra o que significa conhecer algo? Greene emprega o exemplo do humilde aspirador de pó computadorizado Roomba, como modelo do que acontece na mente humana.

O Roomba aprende. Na verdade, ele enfrenta o desafio de navegar em torno dos objetos que encontrou, por isso, as soluções que emprega - evitar escadas, circular em volta do pé da mesa e assim por diante - exibem uma criatividade rudimentar.

A conclusão de Greene? "Aprendizagem e criatividade não requerem livre arbítrio".

Na filosofia da ciência, Greene é o que chamamos de reducionista. O filósofo suspeita que algum dia toda a realidade, incluindo o livre arbítrio, será explicada pelas leis da física, inclusive a forma como esses princípios determinam os campos da química e talvez da biologia, embora esta última ainda seja uma questão contestada. Greene admite:

Sua organização interna, seu "software", é mais refinado que o sistema do Roomba, facilitando sua capacidade mais sofisticada de aprendizado e criatividade. A qualquer momento, suas partículas estão em um arranjo específico. Suas experiências, sejam encontros externos ou deliberações internas, reconfiguram esse arranjo. E essas reconfigurações afetam a forma como suas partículas se comportarão posteriormente. Ou seja, essas reconfigurações atualizam seu software, ajustando as instruções que orientam seus pensamentos e ações subsequentes.

Uma centelha imaginativa, um grande erro, uma frase inteligente, um abraço enfático, uma observação desdenhosa, um ato heroico, tudo resulta de sua constelação de partículas pessoais progredindo de um arranjo para outro. Conforme você vai observando as maneiras como tudo e todos respondem às suas ações, sua constelação de partículas muda novamente, reconfigurando seus padrões para ajustar ainda mais seu comportamento. No nível de seus elementos particulados, isso é aprendizado. E quando os comportamentos resultantes são novos, dizemos que a configuração gerou criatividade.

Se você seguir o argumento de Greene, em alguma data futura os cientistas não precisarão explicar a ninguém que a consciência e a liberdade que pensam que experimentam são apenas o resultado de uma vasta e particular combinação de partículas. Em vez disso, haverá algo como uma injeção. Essa injeção reorganizará nossas partículas, tornando nossa determinação física completamente evidente para nós. Nesse ponto, perguntamos, por que refletir sobre a capacidade de termos um insight criativo através de um procedimento de reorganização de partículas mais rápido?

O fato de a mente emergir e depender do cérebro não é o problema. Não, a questão é: quando falamos de mentes, alguém que reduz a consciência à biologia pode oferecer uma imagem adequada do que significa para nós sabermos algo? Conhecermos alguma coisa?

Quando nós, humanos, experimentamos alguma coisa, falamos em conhecê-la apenas quando podemos acolhê-la dentro de um horizonte do que já conhecemos. Por exemplo, se você tem um cachorro em casa, você provavelmente apresentou um gato a seu filho, explicando como o gato difere do cachorro.

Nossas mentes dependem de realidades fora de nós para conhecer algo. Pegamos emprestado de outros, que vieram antes de nós, para compreender o mundo. Um gato é um cachorro, mas não totalmente um cachorro, como no exemplo. Se você ainda não está convencido, imagine um humano criado desde o nascimento em um laboratório, sem nenhum contato humano. O cérebro biológico está lá, pronto para funcionar. Mas nenhuma mente chamada de humana terá surgido.

Como observa a cientista da computação Melanie Mitchell em seu livro de 2019, Artificial intelligence: a guide for thinking humans, apesar do grande progresso, os programas de computador ainda bagunçam as metáforas que empregamos e não conseguem detectar a ironia. Ambos envolvem a comparação e o contraste. Mitchell imagina:

Se nossa compreensão de conceitos e situações consiste em realizar simulações usando modelos mentais, talvez o fenômeno da consciência - e toda a nossa concepção de nós mesmos - venha de nossa capacidade de construir e simular modelos a partir de nossos próprios modelos mentais.

Dito de outra forma, o que separará para sempre a inteligência humana dos programas de computador é nossa capacidade de saber qual é o caso, contrastando-o com nossas imagens pre-conhecidas do que não é o caso.

A teologia e as artes liberais ainda são necessárias para compreender aquelas realidades que são mais profundamente humanas, precisamente porque não surgem de uma única mente. O racismo é um bom exemplo. Nossas fotos, nossas imagens de outras pessoas, não são produtos de um indivíduo. Não é isso o que queremos dizer quando apontamos que o racismo é aprendido? Que não é redutível à beleza explicativa da matemática e do movimento das partículas?

Tampouco forma parte do universo das partículas o coração partido, uma pessoa que sabe que outra pessoa magoou seus sentimentos, que sabe que a maneira como experimentam o mundo, o sentimento de injustiça que carregam dentro de si, está profundamente desarticulado de seu senso de como a vida deveria ser.

As sinapses no cérebro não podem quebrar um coração. Isso só acontece quando o horizonte que chamamos de lar é obnubilado pelas pessoas que encontramos, pelas experiências que temos. Os corações se quebram quando os horizontes interiores, intelectuais e emocionais, entram em colapso. Uma pessoa amada faz parte do seu mundo vivo, alguém que significa mais para você do que você pode pensar ou imaginar. Somente alguém a quem você ama pode quebrar seu coração, afundar sua alma.

Quando as Escrituras nos ensinam que "o rancor e cólera são coisas abomináveis" (Ecl 27,30), elas nos dizem que nossos mundos não voltarão à ordem através dos atos de vingança. Alguém que mata ou estupra outra pessoa tira muito mais do que um pequeno elemento ou partícula do mundo. Certamente, muito mais do que pode ser reduzido a equações matemáticas sobre partículas, por mais complexas que sejam.

Nublamos nossos próprios céus quando abrigamos o ódio e o ressentimento. Eles não existem dentro do mundo daquele que nos feriu. Nós os transportamos dentro de nós mesmos, esperando em vão que o outro seja punido, que o mundo fique bem.

Assim como o racismo, o ódio e o ressentimento emergem de um círculo interpessoal de significado cujos elementos estão sempre em constante combustão e colidindo. Os atos vingativos podem de fato escurecer o mundo de outra pessoa, mas não trazem luz, nem paz, nem plenitude ao nosso mundo.

Chamamos Cristo de salvador porque acreditamos que ele é aquele que reúne mundos de significados, quem nos reúne em si mesmo. Como é que o conhecimento dele faz uma diferença tão profunda em nossas vidas e no mundo? Mas isso está na própria natureza da mente humana. É um mundo em si mesmo, estendendo-se muito além da biologia de nossos cérebros e nesse campo da liberdade e da decisão que chamamos de história humana.

Publicado originalmente por America


Tradução: Ramón Lara

*O padre Terrance W. Klein é clérigo na Diocese de Dodge City e autor de Vanity Faith



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.