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15/09/2020 | domtotal.com

O primeiro dia e o próximo beijo

Celebrando 70 anos da TV brasileira

Beijo de Helena e Edu, em 'Laços de Família' (2000)
Beijo de Helena e Edu, em 'Laços de Família' (2000) (Reprodução TV Globo)

Alexis Parrot*

Em 18 de setembro de 1950, uma segunda-feira, impulsionada pelo empreendedorismo de Assis Chateaubriand e sob as bênçãos de Santa Clara, sua padroeira, nascia a nossa televisão. A data marca a inauguração da TV Tupi, canal 3 de São Paulo, e a primeira transmissão de TV da América do Sul.   

A estreia seria feita com três câmeras, mas uma pifou a poucas horas do início da transmissão. O que se viu, então, foi uma frenética remarcação de tudo que havia sido ensaiado, obrigando Cassiano Gabus Mendes – o diretor artístico da noite – a abusar de seus poderes de improvisação e criatividade para não deixar a festa melar. E não melou.

(methodshop / Pixabay)(methodshop / Pixabay)Sintonizados no acontecimento, duzentos aparelhos de TV importados por Chatô, instalados em pontos públicos da capital de São Paulo. Após atraso de uma hora, por volta das dez da noite, o pontapé inicial dos trabalhos foi dado pela estrela de rádio mirim Sonia Maria Dorce, que seria considerada a "Shirley Temple brasileira". Vestida de índio, a menina de cinco anos olhou para a câmera e disse: "Boa noite. Está no ar a televisão do Brasil".

Seguiu-se um pout-pourri de atrações contemplando música, notícias, esporte, humor e um segmento infantil. E já na noite de inauguração, aquela que se tornaria a primeira dama de nossa TV também estava presente: a dramaturgia. Foi encenado o esquete Ministério das relações domésticas; pelo título, provavelmente, uma espécie de precursor longínquo da série dos anos 1990, a Comédia da vida privada.

Naquele início, todas as noites a programação terminava ao som de um arranjo para orquestra da singela Acalanto (uma canção de ninar), de Dorival Caymmi, sobre imagens noturnas da cidade de São Paulo.  

Encerrada a inauguração, em meio ao jantar comemorativo oferecido pela emissora, alguém se deu conta do inevitável e perguntou: "e amanhã, vai passar o quê?" – A pergunta que não deixa dormir em paz até hoje todos aqueles que se dedicam ao fazer da televisão; onde se mata um leão por dia, apenas para que, na manhã seguinte, o ciclo se reinicie.    

Esta breve introdução é uma paráfrase de uma série de informações colhidas no belíssimo Biografia da televisão brasileira, trabalho hercúleo e emocionante de quase mil páginas em dois volumes assinado por Flavio Ricco e José Armando Vannucci, lançado em 2017 pela Matrix Editora. Coisa de gente que, indubitavelmente, ama e reconhece a importância da televisão para nossa cultura. Aos autores, declaro toda a minha admiração.

Primeiros beijos

A primeira telenovela – não só do Brasil, mas do mundo – foi Sua vida me pertence, cuja direção e roteiro ficaram a cargo do próprio protagonista da empreitada, Walter Forster. Estreou em dezembro de 1951 e ia ao ar apenas duas vezes por semana. A primeira novela diária ainda demoraria mais de dez anos para acontecer. Estrelada por Tarcisio Meira e Gloria Menezes, 2-5499 ocupado foi ao ar em 1963 pela concorrente Excelsior e determinou o formato que seguimos até hoje.

Forster, empolgado no papel de vanguardista e querendo causar, insistia com os chefes que devia ter um beijo, como nos filmes de Hollywood. A novidade dentro da novidade foi rechaçada inicialmente, mas a diretoria acabou concordando, querendo testar a reação do público. No último capítulo, finalmente, o galã beijou Vida Alves – e os dois artistas entraram para a história.

Daí em diante, o beijo nunca mais saiu do ar, porém, foram necessários mais sessenta anos até que um beijo homossexual pudesse acontecer em uma novela. O caminho foi aberto, de certa forma, por alguns selinhos – como o que Miguel Falabella deu em Marcelo Picchi em Mico preto (1990) ou o que Paula Picarelli aplicou suavemente em Aline Moraes em Mulheres apaixonadas (2003).

Beijo mesmo, foi só em 2011, na novela Amor e revolução do SBT, entre Giselle Tigre e Luciana Vendramini. Ao beijo lésbico, infelizmente, seguiu-se um discurso didático, mal escrito e mal interpretado pelas duas atrizes sobre liberação feminina, desejo e culpa.    

Três anos depois (após ter amarelado em América, de 2005), a Globo finalmente tomou coragem e jogou todas as cartas no beijo entre Mateus Solano e Thiago Fragoso no último capítulo de Amor à vida. Foi a redenção do vilão Félix e motivo de comemoração tanto do público quanto da crítica.

Primeiro beijo gay na telinha da Globo, na novela ´Amor à vida´ (Reprodução TV Globo)Primeiro beijo gay na TV Globo, na novela 'Amor à vida' (2013) (Reprodução TV Globo)No ano seguinte, houve triste retrocesso. A feroz reação contrária nas redes sociais ao beijo entre Fernanda Montenegro e Natalia Thimberg no primeiro capítulo de Babilônia fez com que a emissora recuasse e baixasse a ordem: a partir de agora essas senhoras nem se encostam mais! Queimada assim, já na largada, foi uma novela que acabou não acontecendo.

Outros beijos gays vieram – em Verdades secretas; Malhação; Liberdade, liberdade; Orgulho e paixão, entre outras – mas em tempos dominados pela pandemia e pelo medo do contágio, resta a grande questão: quando virão outros? Quando veremos qualquer tipo de beijo, trocado por quem quer que seja, na televisão?

A produção de novelas já foi retomada, mas com distanciamento social nos estúdios e placas de acrílico entre os atores (algo que, prometem, será retirado digitalmente na finalização). O resultado disso tudo no ar e sua eficiência é algo ainda a ser conferido. Beijo, então, nem pensar!

Talvez no ano que vem, no pós-advento da tão sonhada vacina contra a Covid, as coisas acabem se normalizando e ele possa voltar a reinar soberano onde sempre foi protagonista.

Beijo de Jhonatas e Eliza, em ´Totalmente Demais´ (Reprodução TV Globo)Beijo de Jhonatas e Eliza, em 'Totalmente Demais' (2015) (Reprodução TV Globo)E como há setenta anos atrás, igualando o furor causado por Walter Forster e Vida Alves na primeira novela, tudo se renovará. Chegará esse dia em que seremos todos pioneiros e desbravadores – testemunhas privilegiadas da emoção de um novo primeiro beijo.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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