Esporte Futebol Nacional

15/09/2020 | domtotal.com

Com R$ 982 milhões em dívidas, Cruzeiro tenta evitar um vexame na Série B

Time celeste atravessa péssimo momento da disputa da Segunda Divisão

Ney Franco orienta seus comandados na Toca da Raposa
Ney Franco orienta seus comandados na Toca da Raposa (Bruno Haddad/Cruzeiro)

Atormentado por dívidas estimadas em R$ 982 milhões, prejudicado por punições recentes e atolado em uma crise que parece não ter fim, o Cruzeiro vive um drama e encontra muitas dificuldades para deslanchar na Série B do Campeonato Brasileiro, diferentemente do que aconteceu com a maioria dos clubes de expressão que foram rebaixados.

A má gestão, um dos fatores determinantes para a queda à segunda divisão nacional, também atrapalhou e fez com que a equipe começasse a competição com seis pontos negativos pelo não cumprimento da ordem de pagamento de 850 mil euros (R$ 5,4 milhões na cotação atual) referente à dívida com o Al Wahda, dos Emirados Árabes Unidos, pelo empréstimo do volante Denilson.

Vivendo a mais grave crise de sua história, o Cruzeiro passa por um drama sem precedentes em relação aos grandes que estiveram na Série B. Na história da competição desde 2006, ano em que ela passou a ser disputada por pontos corridos, nenhum dos principais clubes brasileiros se submeteu a uma situação semelhante à que se apresenta ao time mineiro. Apesar do triunfo na última semana sobre o Vitória, amarga a pior campanha de um clube de expressão até a nona rodada. Com apenas oito pontos, o Cruzeiro ocupa a 13ª posição.

O Atlético, em 2006, o Vasco, em 2009 e 2014, e o Internacional, em 2017, também largaram mal. Ainda assim, todos obtiveram mais de 50% de aproveitamento até a nona rodada e somaram 14 pontos, seis a mais do que possui o Cruzeiro atualmente. A melhor campanha até esse estágio da competição foi do Corinthians, que conseguiu se manter invicto nesse período e somou 23 pontos, com aproveitamento de 85,2%. A equipe alvinegra também ostenta a maior pontuação da história do campeonato (85 pontos), à frente de Portuguesa de 2011 (81) e do Palmeiras de 2013 (79).

"O maior desafio de um time grande na Série B é reestruturar a casa. O primeiro passou é se organizar internamente. Depois, no campo, aos poucos, as coisas acontecem naturalmente", disse o ex-goleiro Bruno, que conseguiu acessos por Portuguesa, Palmeiras e Santa Cruz, um com cada time. Atualmente, ele é comentarista esportivo e treinador de goleiros nos Estados Unidos.

"A competitividade na Série B é maior. Os jogos são mais pegados e os campos não têm a mesma qualidade da Série A. Outro diferencial é que os jogadores se esforçam ainda mais para ter oportunidade em um clube na elite. É uma vitrine. O campeonato fica ainda mais disputado", reforçou o ex-jogador Wendel, que disputou a competição pelo Palmeiras, em 2013. Ele também fez parte do elenco campeão 10 anos antes.

O Cruzeiro até teve um bom início, com três vitórias seguidas em seus três primeiros jogos. Depois, porém, a equipe ficou cinco partidas sem vencer até que o técnico Ney Franco foi contratado para o lugar de Enderson Moreira e conseguiu reagir logo em sua estreia com o triunfo por 1 a 0 sobre o Vitória. Hoje tem oito pontos e ainda está mais perto da zona de rebaixamento do que do grupo de acesso.

Na temporada, o Cruzeiro foi eliminado na terceira fase da Copa do Brasil pelo CRB, sua pior participação em 24 edições que disputou da competição da qual é o maior vencedor, com seis títulos, e terminou o Campeonato Mineiro em quinto, pior colocação nos últimos 25 anos.

Atualmente, com o cenário de penúria, a missão do Cruzeiro para voltar à elite do futebol brasileiro é muito mais complicada do que os desafios pelos quais passaram os outros principais clubes do país que disputaram a segunda divisão - casos de Palmeiras (2003 e 2013), Botafogo (2003 e 2015), Grêmio (1992 e 2005), Atlético (2006), Corinthians (2008), Vasco (2009, 2014 e 2016) e Internacional (2017).

Essas equipes atravessaram crises significativas, mas a maioria delas não estava tão desestruturada e mergulhada em um caos esportivo semelhante ao do time mineiro, tanto que conseguiram retornar à Série A em uma temporada, mesmo que tenham encontrado percalços em suas trajetórias e alguns tenham subido sem ser campeões. O contraponto é o Fluminense, que acumulou dois rebaixamentos seguidos, da Série A para a B em 1997 e da B para a C em 1998.

"Todos os problemas de gestão interferem dentro de campo. A primeira grande intervenção que acontece é que os melhores jogadores não aceitam as propostas pelo momento que o clube está vivendo. Aí o elenco não fica tão qualificado. E a questão política atrapalha muito o futebol também. Vários remam contra e a situação só piora", avaliou Rogério Lourenço, ex-zagueiro campeão da Libertadores pelo Cruzeiro em 1997.

Para Lourenço, o caminho para que a equipe reaja e brigue pelo acesso passa por impedir as ingerências no futebol e tentar blindar o elenco o máximo possível em relação aos problemas extracampo. "Se o futebol ficar à parte, sem interferência de pessoas de outros departamentos, se a diretoria cumprir os compromissos financeiros, dar tranquilidade ao técnico, acho que tem tudo para sair dessa situação", salientou o treinador, atualmente sem clube. "A gente sabe que muitos dirigentes são torcedores. É hora de eles terem humildade para dar as mãos e tentar reconstruir o clube", acrescentou.

Missão

Ney Franco tem a difícil missão de evitar que o time celeste seja o primeiro grande a não voltar para a elite no ano seguinte ao rebaixamento - na era dos pontos corridos - o que obrigaria a equipe a disputar a segunda divisão nacional novamente no ano do centenário do clube.

"Todos têm de entender que a gente está disputando uma competição extremamente difícil. Você não ganha e não fica entre os quatro primeiros apenas com o nome, com a estrutura do clube. Se você não for para campo, não trabalhar, tiver uma entrega de todos os profissionais nesse trabalho, não tem sucesso", avisou o novo treinador, assim que chegou.

A equipe pode se espelhar no Goiás de 2018, que, curiosamente, também era comandado por Ney Franco. Naquele ano, o time goiano tinha apenas cinco pontos passadas oito rodadas e figurava no 18 º lugar, mas engatou uma arrancada impressionante e terminou o torneio em quarto, com 60 pontos.

Série C

Considerando também o período anterior à era dos pontos corridos, o único dos grandes a não subir e, de quebra, cair para a Série C foi o Fluminense. Em 1996, o time carioca foi rebaixado para a Série B. No entanto, depois de um escândalo de manipulação de resultados envolvendo Athletico-PR e Corinthians, o rebaixamento daquela edição do Brasileirão foi cancelado. Em 1997, porém, a equipe das Laranjeiras caiu de novo e, no ano seguinte, amargou a queda para a terceira divisão.

"Foram muitos motivos que nos levaram à Série C. A falta de estrutura, de comprometimento provocada pela desorganização fora de campo, com salários não pagos, afetou nosso desempenho dentro de campo. Chegamos ao caos naquela época", recordou o veterano Magno Alves, um dos poucos a se destacar na campanha que culminou com o descenso à terceira divisão.

Comandado por Carlos Alberto Parreira, o Fluminense venceu a Série C em 1999. Mas, graças a uma polêmica envolvendo outros clubes, acabou saltando direto para a elite do futebol brasileiro, fato que gera reclamações dos outros rivais até hoje


Agência Estado



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias