Religião

15/09/2020 | domtotal.com

Morre padre Iglesias, grande difusor da espiritualidade inaciana

Proximidade com os pobres e jovens lhe rendeu a suspeita de ser uma ameaça ao regime militar

Nascido na Espanha, padre Iglesias doou sua vida a Jesus no Brasil
Nascido na Espanha, padre Iglesias doou sua vida a Jesus no Brasil (Companhia de Jesus)

Por Gilmar Pereira*

Faleceu na noite desta terça-feira (15), padre Manuel Iglesias, jesuíta que foi um dos maiores propagadores da espiritualidade inaciana no Brasil. Muito próximo da juventude e do povo simples, o religioso chegou a ser tratado como perigoso pela ditatura militar. Aos 87 anos de vida e 53 de ministério presbiteral, sofreu um choque cargiogênico por arritmia cardíaca.

Manuel Eduardo Tomas Iglesias Rivas nasceu em Santiago de Compostela, Espanha. Formado em Direito, ingressou na Companhia de Jesus (Ordem dos padres e irmãos jesuítas) aos 25 anos e dedicou grande parte de sua vida à orientação espiritual, desde a metodologia dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EE), e à formação de jovens.

Embora tenha sido ordenado padre em 20 de maio de 1967, Iglesias contava que sua "primeira missa" fora aos 5 anos, quando brincava de celebrar para a família, tendo ganhado paramentos litúrgicos de seu tamanho por uma tia. Embora depois, cansado das perguntas dos adultos sobre sua vocação, dissesse que seria advogado ao crescer, jamais esqueceu seu desejo primeiro.

A opção pela Companhia de Jesus foi decorrente da proximidade estabelecida nos estudos feitos em colégio e universidade jesuítas. Assim, entrou no noviciado "fase inicial da formação" em Salamanca em 28 de outubro de 1958. Após os estudos filosóficos, com o pedido do papa por missionários para a América Latina, Iglesias se voluntaria e é enviado ao Brasil, chegando ao Rio de Janeiro em dezembro de 1962.

Embora seu curso de teologia tenha sido nos Estados Unidos, regressou ao Brasil para exercer seu ministério, sobretudo trabalhando com espiritualidade e juventudes. Segundo dizia, "Os EE foram a inspiração central na minha missão". 8 anos de seu presbiterado foram dedicados à criação da Pastoral da Juventude em Brasíla e mais de 20 na formação e acompanhamento pastoral e espiritual de jesuítas jovens em Campinas e em Belo Horizonte.

Passado este período, retornando ao Distrito Federal, Iglesias atuou muito tempo no Centro Cultural de Brasília (CCB), instituição jesuíta importante no diálogo entre fé e cultura, bem como na formação e fomento da espiritualidade inaciana junto a leigos, com os Exercícios na Vida Cotidiana (EVC), modalidade adaptada dos EE para o dia-a-dia, e no acompanhamento de grupos de Comunidade de Vida Cristã (CVX). A sua última missão se deu no Mosteiro de Itaici, em Indaiatuba, São Paulo, onde era confessor e orientador de retiros. No decorrer de seu fecundo ministério, sentiu-se impelido a escrever sobre espiritualidade, contribuído largamente para a formação espiritual de muitos leigos e religiosos em todo o Brasil. Para ele, seus 12 livros decorreram de suas "experiências pastorais e da impressão de que poderiam ajudar alguém".

A proximidade de Iglesias com jovens e pessoas mais simples rendeu-lhe a suspeita de ser comunista. Segundo documentos da Secretaria de Segurança Pública de Brasília, revelados em 2017, os militares seguiam e fiscalizavam todos os padres e bispos que atuavam no Distrito Federal. Relatórios das forças de segurança da época dizem que 8% do clero tinha tendência reformista-progressista, acusados de se aproveitarem dos encontros católicos para fazer propaganda subversiva. Um documento de 1980 colocava o jesuíta como um desses clérigos com possíveis atividades suspeitas pelo regime. Além dele são mencionados outros 8, dentre os quais figura o cardeal e atual arcebispo emérito de Aparecida, dom Raymundo Damasceno.

Em entrevista ao informativo Em Companhia, dos jesuítas, Iglesias comentou sobre seu sentimento de completar o jubileu de ouro como padre. "O sentimento que me invadiu é de agradecimento à Trindade Santa por me sentir feliz até hoje na minha vocação, mesmo dentro dos meus limites e percalços da vida. Desde meu noviciado, rezo esta oração: Quisera ser a ovelhinha coxa, mas fiel, que segue com amor o seu Senhor. Que quando eu consiga levantar os olhos das pedras do caminho, veja que me sorris, feliz porque te sigo feliz".

Recentemente, numa mensagem a um amigo jesuíta, padre Iglesias escreveu: "estamos meio perplexos com a pandemia e como as coisas vão evoluir, (...) rezemos para que o Espírito Santo nos guie!". 

*Com colaboração de Silvia Lenz e Carlos Cesar Barbosa



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